sexta-feira, abril 07, 2006

O modelo francês está em falência

Para o director do Instituto de História Económica e Social, de Paris, "só um populista pode desbloquear a situação actual em França". Esse homem providencial, de uma "direita sem ambiguidades", é, na sua opinião, Nicolas Sarkozy, actual ministro do Interior, porque Dominique de Villepin, o chefe do Governo, "está politicamente morto". Por Ana Navarro Pedro, Paris

Jacques Marseille é professor de História Económica na universidade da Sorbonne e director do Instituto de História Económica e Social. Antigo simpatizante da esquerda, apoia hoje o combate político de Nicolas Sarkozy, presidente do partido de direita UMP e ministro do Interior, para as eleições presidenciais de 2007. No seu último livro, Du bon usage de la guerre civile en France (ed. Perrin), Marseille ousa estabelecer um paralelo entre 1788, véspera da Revolução Francesa, e 2006. Para este intelectual, a França está à beira de uma ruptura brutal - mas desejável, na sua opinião - da ordem estabelecida. "Recebo mensagens de ódio em reacção a este livro, ao ponto de a minha mulher começar a ter medo. Mas recebo também mensagens de encorajamento. É outro sinal de guerra civil." A crise aberta com o CPE (Contrato Primeiro Emprego) rebentou depois de redigido o livro.
PÚBLICO - Qual é o significado desta crise?
JACQUES MARSEILLE - A crise do CPE é reveladora de uma forma de esquizofrenia francesa. Somos um país que reforça a sua posição na competição económica global, temos empresas com excelentes performances e, ao mesmo tempo, estamos a cair na hostilidade ao mundo empresarial, num medo terrível da globalização e numa alergia àquilo a que se chama, por preguiça intelectual, "o liberalismo económico".
Há uma razão para isso?
A razão está ligada à taxa de desemprego: um país que mantém um décimo da sua população activa no desemprego está doente e cede à angústia. Os nossos jovens têm mais dificuldade de arranjar trabalho do que os dos outros países e, a partir dos 55 anos, há mais desemprego em França. O trabalho concentra-se fortemente na faixa etária dos 25-55 anos, que tem, de resto, uma das taxas de produtividade mais fortes do mundo, mas que começa a estar muito desgastada.
Não seria uma situação propícia para reformas?
Uma reforma começa com um diagnóstico da situação e prossegue com um debate sobre as omissões encontradas, a fim de se optar por uma linha de acção. Isto nunca acontece em França. Somos incapazes de fazer um diagnóstico partilhado pelo conjunto da população para ver o que funciona, ou não, neste país. Não sabemos dialogar. Por isso vamos, fatalmente, para o confronto.
Acha a França irreformável?
No meu livro (...) passei em revista a nossa história, à procura dos momentos-chave em que a França evoluiu profundamente. Foram sempre momentos de grande ruptura, a seguir a um confronto violento. Por isso estou muito contente com o que está a acontecer. Temos uma hipótese de avançar.
Que sentido dá, no seu livro, à expressão "guerra civil"?
Defino como guerra civil uma luta muito forte, mas não fatalmente sangrenta, entre duas categorias de franceses que estão na incapacidade total de discutir entre elas. O CPE é anedótico. Mas, na crise actual, é simbólico de um país que disse "não" à Europa no referendo de Maio de 2005, que pôs o líder de extrema-direita, Jean-Marie Le Pen, na segunda volta das presidenciais de 2002, que se revoltou contra a reforma do regime de aposentações em 2003, que disse "não" à reforma dos liceus em 2004. Sondagem após sondagem, vemos que sete franceses em cada dez têm uma desconfiança visceral das elites políticas. Uma "guerra civil" é estarmos numa democracia representativa em que as elites já não representam nada. É a falência do modelo francês.
Como define o modelo francês?
É adular um Estado todo-poderoso. É tornar o funcionalismo público na profissão mais apetecível. É um modelo em que a norma é ter o mesmo emprego para toda a vida, e que cria um clima de suspeita em relação ao mundo empresarial. É promover a ruralidade como modo de vida supremo a salvaguardar a todo o custo. Hoje, assistimos às convulsões de uma ruptura.
Acha que a classe política está isenta de responsabilidades?
Em França, 55 por cento dos parlamentares saem da alta administração pública: é o modelo do emprego vitalício. A ideia de uma França que se adaptaria à noção de risco é desconhecida. Temos poucas mulheres deputadas. A classe política actual vem, em geral, de meios modestos, fez estudos brilhantes nos anos 50, 60 ou 70, em pleno crescimento económico, e resulta de um país que soube criar e promover novas elites nesse período. Mas essas elites perduram desde há 20 ou 30 anos. São políticos vitalícios. Como podem eles compreender um mundo que muda?
Diz que os franceses gostam da autoridade e das relações de força.
Este país é fundamentalmente bonapartista: gosta de alguém que emana do povo e exerce um poder central forte, mas que põe o poder incessantemente entre as mãos do povo, de preferência por via de referendo. Napoleão III manteve-se no poder até à sua derrota militar em 1870, com referendos sucessivos. O general de Gaulle governou com um vínculo quase directo à população. E quando o povo lhe disse "não", num referendo em 1969, deixou o Eliseu nessa noite. Os franceses adoram o poder solitário de um homem, e são automaticamente atraídos para um poder autoritário e carismático.
Que tipo de democracia é, então, a França?
A França não é uma democracia. Decerto, as liberdades fundamentais estão garantidas. Mas uma democracia verdadeira exige um regime claro: ou é presidencial ou é parlamentar. A França não é um, nem outro. Tivemos um regime parlamentar de 1945 a 1958, e não resultou, porque o parlamentarismo não é feito para a França. Num regime presidencial como o dos Estados Unidos, o poder legislativo, ou seja, o Congresso, é intocável pelo poder executivo, que tem de negociar com ele. Ora, o nosso Presidente tem o poder de dissolver a Assembleia Nacional. A nossa Constituição é bonapartista, talhada para um Presidente muito poderoso. Mas, em contrapartida dessa forma de exercício do poder, o Presidente deve demitir-se no dia em que a população lhe diz "não". A primeira coabitação entre duas maiorias diferentes, há 20 anos, traiu a Constituição, e foi aí que começou o nosso declínio.
Como vê a saída desta crise?
Só pode haver um apodrecimento social até às eleições presidenciais de 2007. A capacidade de fazer reformas terminou com esta crise. Se o Presidente, Jacques Chirac, tivesse a boa ideia de se demitir, seria possível avançar já. Mas não o fará. Em contrapartida, penso que teremos uma verdadeira eleição presidencial em 2007. Para 2007, tínhamos a hipótese de um duelo entre o actual primeiro-ministro, Dominique de Villepin, e Sarkozy. Mas penso que Villepin, defensor do modelo social francês, está politicamente morto. E estou profundamente feliz com essa morte. Ela deixa o lugar livre para uma verdadeira direita sem ambiguidades, representada por Nicolas Sarkozy, que propõe a ruptura com o modelo francês.
A ruptura em França precisa de um homem providencial?
A ruptura em França é sempre feita por uma pessoa em comunhão com um momento preciso em que a sociedade procura alguém com quem se identificar. Esse momento não existiu para Villepin, porque não tinha legitimidade para fazer a reforma do CPE. Mas se Sarkozy disser claramente o que vai fazer e ser for eleito com um programa forte, pode aplicá-lo. E se a rua lhe disser "não", ele rebenta com a rua, porque aí, é ela que viola a democracia. E porque, aí, Sarkozy tem legitimidade para o fazer.
Sarkozy, com 30 anos de carreira, é esse homem providencial?
Se não for ele, quem é? Penso que só um populista pode desbloquear a situação actual em França. Alguém que diga: "Este modelo caduco acabou". E que acabe com ele.