quarta-feira, abril 05, 2006

Berardo em Belém

por José Manuel Fernandes, in Público, 5 de Abril de 2006

A ida da colecção Berardo para o CCB e o acordo assinado segunda-feira têm muitos pontos nebulosos

No início de Janeiro interroguei-me no PÚBLICO sobre se a força e o peso da colecção "obrigarão a que lhe seja reservada no CCB uma área generosa, porventura tão generosa que será difícil imaginar que reste espaço para este acolher, com dignidade, grandes exposições temporárias". E acrescentava: "Seria, por exemplo, possível voltar a montar mostras como a sobre o Esplendor do Barroco? Ou repetir retrospectivas como as de Paula Rego, Donald Judd, Gilbert & George, Helena Almeida ou José Pedro Croft?"
Na verdade, não é concebível que Lisboa não receba grandes exposições e até possa, de caminho, perder espaços para outras mostras menores, mas importantes por aproximarem do grande público novos criadores e artistas menos conhecidos. Acolher a colecção do "comendador" até poderia representar uma grande oportunidade, se fossem preenchidas algumas condições.
A primeira condição seria estar-se perante uma solução definitiva, isto é, saber-se que colecção ficará para sempre em Portugal, constituindo o núcleo de um museu de arte contemporânea que seria gradualmente acrescentado e completado. Não é isso que sucede. Daqui por dez anos o Estado pode ver-se de novo na posição de ir a leilão com Joe Berardo, sendo este a decidir qual o destino final da colecção - o que significa que o investimento que entretanto será feito em aquisições (para o qual o Estado mobilizará meio milhão de euros por ano) se arrisca a ser inconsequente.
A segunda condição que não se vê garantida é a articulação entre esta colecção e as dos outros museus com colecções de arte contemporânea, em especial Serralves mas também o Chiado. A política de aquisições do Estado devia ter um mínimo de coerência, mas é difícil perceber como será esse desiderato atingido face às condições do acordo e à tutela partilhada com Berardo.
Uma terceira condição teria de passar pela judiciosa utilização do espaço do CCB e do espólio da colecção, permitindo a rotação de exposições a par com a exibição permanente de um núcleo central de peças, algo que só fará sentido se as obras adquiridas pelo empresário puderem ser utilizadas em intercâmbios internacionais. Este último aspecto é muito importante, pois para conseguir trazer a Portugal grandes exposições é necessário que haja obras de referência que possam sair por empréstimo para figurarem noutras mostras, assim permitindo que o nosso país entre no restrito e elitista circuito internacional. A experiência da estadia da colecção em Sintra não indica que tal esteja garantido, pelo contrário.
E, se se colocam desde já estas reservas, é porque a forma como Berardo tem tratado as autoridades portuguesas (para não falar do que se sabe do seu passado como empresário) não garante que se venha a comportar como um benemérito, um mecenas que reuniu uma colecção fabulosa e, depois, a partilhou com o público. Nada indica que estejamos a ver nascer uma nova Fundação Gulbenkian, existindo antes sinais de que se corre o risco de se ter de acabar por pagar o que agora parece ser "doado". Um desses sinais é a ausência de divulgação pública da avaliação do valor da colecção.
Este acordo arrisca-se assim a ser mortal para a vitalidade e objectivos do CCB, limitando a sua capacidade de acolher as exposições a que nos habituou, e que deveria realizar com mais frequência. Pior: dentro de dez anos pode voltar a atirar para as mãos do Governo de então uma batata quente impossível de gerir.
Tal significa que o "comendador" foi subindo a parada, o Governo fez questão de se mostrar radiante, mas nós ficámos sem saber quem terá de apanhar as canas no fim da festa.