terça-feira, março 21, 2006

É sexy liderar a oposição?

por Amílcar Correia, Público, 20 de Março de 2006

Poderá um líder da oposição, seja ele Marques Mendes ou Ribeiro e Castro, ser sexy? Como
é que se faz uma oposição sexy? É este o dilema dos partidos obrigados a um pousio
de quatro anos de poder

1. Quer Marques Mendes, quer Ribeiro e Castro, eleitos há menos de um ano, são líderes contestados no interior dos seus partidos por dirigentes que não se identificam com a forma como os dois fazem actualmente oposição. Depois da derrota socialista nas autárquicas e nas presidenciais, os dois partidos de direita mergulharam na discussão interna sobre o futuro das suas lideranças e Marques Mendes e Ribeiro e Castro procuram agora, a três anos de novas eleições legislativas, uma relegitimação dos seus mandatos.
O congresso do PSD revelou um partido pouco interessado em organizar "eventos televisivos", como eram os congressos dos sociais-democratas no passado, mas também evidenciou sinais iniludíveis do desinteresse e apatia que se vive neste momento na oposição. As críticas ficaram a cargo de Rui Gomes da Silva e de Nuno Morais Sarmento, e em parte por causa das mazelas da sucessão do santanismo, mas o consenso obtido na aprovação da eleição directa do líder acaba por se sobrepor às diferenças de opinião. No entanto, os 78 por cento de votos que Marques Mendes obteve na aprovação da sua proposta de eleição directa do líder não disfarça e não apaga o incómodo e o fastio que a sua liderança ainda provoca entre alguns sociais-democratas, como se depreende das ausências mais notadas no Pavilhão Atlântico. Na prática, o PSD é hoje um partido que só se ergue quando ouve falar de Cavaco ou de Sá Carneiro; um partido a viver dos bustos.

2. Telmo Correia, derrotado no último congresso do CDS-PP - e à semelhança de Nuno Melo ou de António Pires de Lima -, afasta a necessidade de um congresso extraordinário para discutir a liderança do partido, quando o mesmo tem um líder eleito até 2007. O argumento é prosaico: "O CDS-PP não pode andar de legitimação interna em legitimação interna, tem de falar para fora". Como diz Pires de Lima, o CDS-PP tem de ser um partido "mais sedutor e sexy". Mas a verdade é que a actual direcção do partido tem vindo a ser cada vez mais contestada, sobretudo pelos deputados escolhidos pela anterior direcção, convencidos de que os centristas deixaram de ser sexy para o eleitorado no dia em que Paulo Portas abandonou a sua liderança.
Poderá um líder da oposição, seja ele Marques Mendes ou Ribeiro e Castro, ser sexy? Como é que se faz uma oposição sexy? É este o dilema dos partidos obrigados a um pousio de quatro anos de poder. Os seus líderes são contestados internamente, mas ninguém quer dar um passo em frente para os substituir a meio de uma travessia do deserto de desfecho imprevisível. Todos os líderes são líderes a prazo. Mas os líderes da oposição ainda o são mais, porque não se limitam a defrontar o Governo e o partido que o sustenta, como se vêem também a braços com as críticas internas e o "antagonismo militante" de que se queixa o líder dos centristas. É esse o pretexto para a necessidade de Marques Mendes e de Ribeiro e Castro em renovar ciclicamente a sua liderança. Falta saber quem, nos dois partidos, poderá (e quererá) assegurar uma oposição mais sexy e sedutora ao Governo de Sócrates.