sexta-feira, março 24, 2006

Polícias e magistrados dizem que as cidades estão mais violentas

por José Bento Amaro, in Publico, 23 de Março de 2006

No ano passado, 37 por cento da criminalidade participada à PSP foi cometida com armas de fogo

As cidades portuguesas estão mais violentas. Esta é a constatação de Polícia Judicária, PSP, GNR e Ministério Público, que ontem, em Lisboa, no decurso das jornadas de reflexão sobre Criminalidade urbana e violência, concluíram ainda que a proliferação de armas, sobretudo de fogo, está na base do aumento da insegurança.
"Houve uma contenção do crime violento, mas, ao mesmo tempo, um aumento da carga violenta", sintetizou Teresa Almeida, procuradora da República no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa. A magistrada, após salientar a "vulgarização do uso de armas de fogo", alertou ainda para o facto de as cidades portuguesas serem, cada vez mais, palco de crimes onde a violência é desnecessária, quase gratuita.
O director nacional da Judiciária, Santos Cabral, focando uma vez mais o facto de haver muitas armas de fogo, lembrou que "são os mais pobres os primeiros a sentir os efeitos da criminalidade violenta, porque saem mais cedo e regressam mais tarde a casa e porque se deslocam em transportes públicos". Depois, recordando que a pobreza e a exclusão escolar podem potenciar a criminalidade, frisou que "é necessário continuar a investir no policiamento de proximidade".
O aumento da agressividade (que encontra um bom exemplo no acréscimo de 30 por cento nos roubos a bancos, carros de transporte de valores e casas de câmbios), é igualmente uma consequência, segundo Teresa Almeida, de "algum desprezo que as administrações central e local têm revelado pela prevenção criminal". A magistrada entende que os órgãos centrais e autárquicos devem dispensar mais atenção a questões como a reorganização urbanística, a iluminação e limpeza dos espaços públicos e ser mais interventivas junto das comunidades, sobretudo nas de imigrantes.

Identificadas cidades mais violentas
As cidades de Lisboa, Porto e Setúbal são as mais violentas do país, seguindo-se-lhes Braga, Faro e Coimbra, afirmou o comandante da Divisão de Investigação Criminal da PSP, subintendente Dário Prates.
"Só na área de intervenção da PSP registou-se, de 2004 para 2005, um acréscimo nos assaltos a bancos na ordem dos 167 por cento", disse Dário Prates, salientando que, da totalidade da criminalidade participada àquela polícia, 37 por cento terá sido praticada com recurso a armas de fogo. "O peso da violência na criminalidade geral foi, no ano passado, de 9,2 por cento, enquanto em 2004 se cifrava nos 8,6 por cento", acrescentou.
O capitão Marques Dias, da GNR, depois de salientar que nas décadas de 70 e 80 a violência dentro dos bairros se devia, em grande parte, a acções de carácter sindical, explicou que esses mesmos locais são, actualmente, pontos quentes onde se encontram pessoas vítimas de exclusão social e financeira.
"O aparecimento de uma farda [nos bairros problemáticos] é considerado uma provocação", disse o mesmo responsável, que depois considerou, na zona de Lisboa, Amadora, Loures, Oeiras, Cascais, Sintra, Vila Franca, Almada e Montijo como os locais mais violentos. Na região do Porto foram apontadas as áreas de Matosinhos, Maia, Trofa, Valongo, Gondomar, Gaia, Vila do Conde e São Mamede de Infesta.