segunda-feira, março 27, 2006

O que fazer com o PSD e o PP?

por Luís Delgado, Jornalista, in DN, 27 de Março de 2006

O PSD e o PP, quais irmãos gémeos, mas de mães e pais diferentes (?), marcaram as suas decisões de liderança para o início de Maio, um com as directas e o outro com o congresso extraordinário. Em termos de estratégia, quem beneficia e quem perde com estas involuções?

PSD

Apareça ou não um outro candidato, Mendes prepara-se para renovar o seu mandato, agora reforçado e legitimado por uma eleição directa, seguida de um congresso aclamatório. É a estratégia dele, mas não a que melhor convém ao PSD, nesta altura.

Por esta hora ainda se desconhece se Filipe Menezes avança, mas bom seria que o fizesse, porque daria uma luta interessante e, mais do que isso, marcaria sempre a insatisfação que cresce, em surdina, nas hostes sociais-democratas.

Convém ser claro, mas sem magoar Marques Mendes: ele nunca será um grande líder, porque lhe falta tudo para essa função: carisma, empolgamento, ideias e força. Mendes é, e sempre será, um óptimo número dois do partido, um arrumador da casa, um contador de militantes, um organizador das bases, um substituto do que há-de vir, mas nunca, jamais, um líder nato.

Mantendo-se Marques Mendes, quem vai ganhar? O PS e Sócrates - já se viu neste primeiro ano - e o PP, se tiver a inteligência necessária para mudar de liderança e iniciar já o seu processo de reafirmação.

PP

Ribeiro e Castro sempre sofreu de um dilema, que nada tem a ver com o CDS/PP que conhecemos. É um democrata-cristão à moda antiga, honrado e sério, lutador e brilhante no discurso. É, como se viu, um homem sem medo, que vira um congresso com um discurso. Mas falta-lhe o essencial: não se revê no PP dos últimos sete ou oito anos, e o PP não se vê na sua moderação centrista e distanciada do combate político.

Por isso têm uma bancada parlamentar combativa, que esbate o PSD, capaz de embaraçar politicamente Sócrates, sem remorsos do passado recente, nem com contas para ajustar, e tudo isso nada tem a ver com o líder, que faz recordar Freitas do Amaral quando regressou, mal, ao CDS, tentando colocá-lo numa posição que nada tinha com o seu espectro político natural.

O PP é assumidamente um partido de direita, com naturais preocupações que derivam do seu conservadorismo cristão e de base social, mas pragmático e suficientemente agressivo para combater em todas as frentes.

Assim sendo, e se ponderadas apenas razões estratégicas, o PP só beneficiaria se mudasse agora de liderança, porque ocuparia o espaço do PSD, na sua margem mais à direita, e seria a verdadeira oposição de direita e centro-direita no Parlamento, se Mendes continuar como líder.

Por outras palavras, o PP, como sempre acontece, ocuparia o espaço vazio que o PSD está a criar e a alargar, e isso credibilizaria e alargaria a sua base de apoio. É um momento histórico que não se repetirá, e convém que a lucidez impere no novo congresso. É agora ou nunca, e oportunidades destas não se perdem nem se deixam passar, impunemente.

A manter-se tudo, o PP será um clone do PSD, mas pequenino e sem garantias de resistência. A quem agradaria tudo isto? A Marques Mendes e a José Sócrates. Um não se mexeria e o outro faria o que bem entendesse, como até agora.

PS

Está no melhor dos mundos, a governar sem oposição visível, e a fazer tudo o que quer e deseja.

Mas não é tudo: Sócrates, muito parecido com Blair, ou com a nova vaga de socialistas que são tudo menos o que dizem ser, está a ocupar, devagar, mas com consistência, o lugar em aberto deixado pelo PSD e pelo PP.

É extraordinário como dezenas de medidas governamentais, nos últimos tempos, são tipicamente de centro-direita e direita, e isso só lhe mostra o génio.

Deixem-no andar que um dia se arrependerão. Sócrates mete Marques Mendes e Ribeiro e Castro no bolso.