segunda-feira, março 27, 2006

Fim de subsídios põe em causa criação dos burros mirandeses

Ana Fragoso, in Público, 27 de Março de 2006

Criadores portugueses confrontados com incentivos à promoção da raças autóctones no outro lado da fronteira

A suspensão das ajudas à manutenção das raças autóctones anunciada pelo ministro da Agricultura está a gerar alguma frustração nos criadores de burros de raça mirandesa, ainda mais porque a proximidade com Espanha lhes mostra uma realidade bem diferente. António Rio, de 49 anos, residente na Póvoa, concelho de Miranda do Douro, tem actualmente duas burras e pensa em vender a mais pequena. "Criei-a e mantive-a em casa a contar com o subsídio que recebia, mas parece que o querem cortar, assim não vale a pena mantê-la", revelou ao PÚBLICO, durante uma feira de burros de raça zamorana-leonesa, em San Vitero, Espanha, a escassos dez quilómetros da fronteira portuguesa.
Neste certame, o criador português contactou uma realidade bem diferente: "Aqui, os criadores recebem ajudas para tudo e depois os animais são valorizados, o que não acontece em Portugal", lamentou. "Estive aí a ver as burras que estão em leilão e um animal com dez meses custa 1800 euros, eu tenho em casa uma burra bem mais velha, melhor do que qualquer uma destas e nem 1500 euros me dão por ela", acrescentou. De facto, num leilão com cerca de 30 burricas foi vendida uma fêmea com dez meses por mais de dois mil euros.
Urbano Fernandez, um criador de 75 anos natural de San Vitero, referiu que na realidade "compensa criar esta raça protegida em Espanha". Os animais inscritos no livro genealógico da raça "não têm preço", revelou o criador. Castor Fernandes, de 74 anos, também de San Vitero, acrescenta que compensa trabalhar com aquela raça protegida, mesmo que a intenção não seja levar os animais a leilão. "Aqui recebemos apoios que chegam da União Europeia, mas também ajudas da própria Deputação de Zamora, que nos atribuir 180 euros anuais por animal", explicou.

Trabalho de quatro
anos "posto em causa"
Jesus Perez, presidente da associação de protecção da raça zamorana-leonesa, explicou que em Espanha existem duas áreas de actuação que visam incentivar a criação desta raça: "Por um lado contamos com apoios significativos que chegam de Bruxelas, mas também com apoios das instituições locais; por outro, queremos valorizar a raça, e pouco a pouco vamos aumentando o preço dos animais, para que o negócio se torne lucrativo para os criadores".
Este dirigente associativo é também ele criador de burros "há 16 anos". Conhece a realidade portuguesa e afirma que as entidades governamentais estão a seguir um mau caminho: "Existe uma política agrícola comum, que devia trazer o mesmo nível de apoios para os agricultores da comunidade, mas não é isso que acontece", referiu. Sem apoios, Jesus Perez adivinha o desaparecimento da raça dos burros mirandeses, "porque, sem estímulos, os criadores abandonam a actividade", sustentou.
Este é o grande receio de Miguel Nóvoa, presidente da Associação para o Estudo e Protecção da Raça Asinina Mirandesa. Ao longo de quatro anos, esta associação tentou motivar os criadores do planalto para a preservação do burro, agora perdeu os argumentos: "O nosso trabalho está em causa devido a uma decisão governamental".
Este dirigente tem esperanças que o ministro da Agricultura ainda possa corrigir o problema "se decidir manter as ajudas aos produtores", mas, socorrendo-se do exemplo espanhol, pede mais: "Nós lutamos por um maior envolvimento de todas as instituições portuguesas, das câmaras ao governo civil, de todos os organismos, para podermos fazer do burro de Miranda um símbolo da região", defendeu.