terça-feira, março 21, 2006

Deve e haver da invasão do Iraque

por José Manuel Fernandes, Público, 20 de Março de 2006

Há três anos defendi a invasão do Iraque. O que se passou depois trouxe-me algumas surpresas desagradáveis. Contudo, mesmo assim, continuo a pensar que a decisão foi acertada, que o mundo e o Iraque estão melhor sem Saddam Hussein e que se estão a tirar lições do erros cometidos. O mundo continua perigoso, mas ter cedido seria pior

Francisco Sarsfield Cabral desafiou em artigo recente os que apoiaram a invasão do Iraque a exprimirem-se: face a tudo o que correu mal, fá-lo-iam hoje de novo? A questão assim colocada inclui uma armadilha, pois nós sabemos o que correu mal (e também o que correu bem), mas não sabemos o que teria corrido mal ou bem sem uma intervenção para derrubar Saddam Hussein. Podemos, no entanto, ensaiar algumas previsões se tivermos a honestidade de aceitar que, primeiro, qualquer decisão política é tomada face aos dados conhecidos à época e, segundo, que existia então um grande consenso sobre as armas iraquianas. O que suscitava controvérsia era a forma de agir: mais inspecções e sanções ou guerra preventiva.
Mas vamos por partes.

Sabemos hoje que Saddam não escondia armas de destruição maciça. Pelo menos elas não foram encontradas (nem colocadas lá para "fingir" que existiam, como se escreveu em Portugal que os Estados Unidos fariam, vide texto da época de Miguel Portas). Também sabemos que se Saddam não possuía forma de fabricar armas nucleares, da mesma forma que sabemos que no Iraque existiam instalações industriais que poderiam, com fáceis adaptações, produzir armas químicas e biológicas. O que não sabemos é porque razão um regime acossado e cercado fazia bluff, isto é, por que razão estando "inocente" resistiu durante 12 anos às inspecções da ONU e, já na contagem decrescente para o conflito, continuava a não aceitar algumas das condições exigidas pelas equipas de especialistas. Daí que se deva assumir que se ocorreu um falhanço gigantesco de todos os serviços secretos ocidentais (incluindo os dos países que se opuseram à intervenção, cujos serviços produziram dos relatórios que se revelariam menos acertados, caso dos franceses), também se tenha de aceitar que todos os sinais enviados pelo regime iam no sentido de que tinha algo a esconder e não desistira dos seus programas militares.
Sabemos também hoje que os Estados Unidos (tal como a coligação que os apoiou) tinham preparado mal o pós-guerra e cometeram enormes erros nos primeiros meses da ocupação. Há muitas explicações para isso, mas a que costuma ser mais vezes repetida é a que, por influência dos neoconservadores, a Administração Bush acreditou que, depois da queda de Saddam, os iraquianos celebrariam a libertação e, por isso, não haveria resistência à democratização. Trata-se de uma explicação duplamente falsa, pois não só a imprensa neoconservadora desde a primeira hora que criticou a Administração Bush pelo défice de meios humanos, financeiros e militares colocados à disposição dos que deviam promover uma rápida reconstrução e transição, como os resultados das várias consultas eleitorais (onde participaram 12 milhões de eleitores) entretanto realizadas mostram que a esmagadora maioria dos iraquianos não apoiava o regime, tendo conduzido ao poder aqueles que se lhe opunham e eram reprimidos. Se os erros cometidos no pós-invasão mostram incompetência e impreparação, não mostram que a intervenção não devia ter ocorrido.
Sabemos também hoje - e essa é a parte mais lamentável de tudo o que se passou - que soldados e oficiais americanos e britânicos tiveram comportamentos que violam as leis da guerra, tendo os casos mais graves ocorrido na prisão de Abu Ghraib. O que aí se passou, e o facto desses acontecimentos terem sido revelados, denunciados e julgados por vivermos em democracias onde a imprensa é livre (ninguém sabe o que se passava em Abu Ghraib no tempo de Saddam, e sobretudo não existem imagens desses tempos para passarem na Al-Jazira), fez um mal tremendo à luta antiterrorista. No limite, se esse tipo de comportamentos tivessem sido o padrão generalizado - e não foram, tanto quanto hoje sabemos -, se não se tratassem apenas de excepções, a sua simples ocorrência devia levar-nos a reequacionar a defesa da intervenção militar, na linha da argumentação desenvolvida no PÚBLICO por Maria Filomena Mónica.
Sabemos por fim que o Iraque atraiu jihadistas de todo o Mundo (incluindo das comunidades "integradas" da Europa), que Zarqawi, o operacional da Al-Qaeda, já actuava no país antes da invasão e que a luta entre as diferentes comunidades religiosas mantém o país à beira da guerra civil (a qual, porém, muitos anunciavam para o dia seguinte à invasão e ainda não ocorreu). Essa situação obriga à permanência no terreno das tropas dos Estados Unidos e do Reino Unido e mostra como são limitados os recursos militares das maiores potências. Esta realidade implica desafios e sacrifícios, mas não pode nem deve levar ao maior erro de todos: o da desistência.

Mas se sabemos tudo isto, não sabemos como teria evoluído a situação caso se tivesse optado por prosseguir uma política de "contenção" então velha de 12 anos.
Por vezes há referências que se cruzam e Mário Betencourt Resendes referiu a semana passada uma obra organizada pelo historiador militar Robert Cowley, What If?, na qual vários autores especulam sobre o que poderia ter acontecido se líderes políticos ou militares tivessem tomado decisões diferentes ou certas batalhas tivessem tido outro desfecho. Por coincidência, ou talvez não, eu próprio tinha acabado de começar a ler essa obra e, na semana passada, no jornal The Times, um dos seus colunistas, Gerard Baker, antigo chefe do escritório em Washington do Financial Times, disserta sobre um moderno What If?: o que teria sucedido se Hans Blix e Mohamed ElBaradei tivessem convencido Saddam a aceitar o desarmamento incondicional. O seu texto é puramente ficcional, mas altamente verosímil, mais verosímil porventura do que alguns dos textos de historiadores do volume que referi e cuja leitura é apaixonante e instrutiva.
Ora se olharmos para o que Gerard Baker nos descreve como a evolução provável de tal cenário, evolução balizada pelo que então sucedeu no país e na região, tal remeter-nos-ia para uma actualidade porventura mais preocupante que a que vivemos. Os Estados Unidos e o Reino Unido teriam mantido na região o mesmo número de soldados pois continuariam a suspeitar das intenções de Saddam. Estas seriam atacadas por terroristas, não no Iraque, mas na Arábia Saudita e no Kuwait. A Síria manter-se-ia no Líbano, a Líbia não teria renunciado ao seu programa de armamento e o Irão teria acelerado o seu, pois sentir-se-ia mais livre do que se sentiu nos últimos anos e a diplomacia europeia teria sido tão ineficaz como foi até ao momento. E por aí adiante, com a grande diferença de que Saddam, menos vigiado, livre de sanções, também teria recomeçado a sentir-se como o novo Saladino, "libertador" de Jerusalém, agindo em conformidade.
Baker reconhece que o seu cenário não era o único possível, havendo alguns piores e outros melhores, mas não deixa de sublinhar a ideia de o julgamento da invasão do Iraque não pode ser feito apenas com base no que aconteceu de mal depois, mas no que poderia ter acontecido de pior caso a opção tivesse sido outra. Contudo, como aos decisores políticos não se pode exigir apenas "prognósticos no fim do jogo", ou que tomem decisões com base em factos que só o vieram a ser conhecidos depois de terem agido, continuo a pensar que a decisão então tomada foi a melhor naquelas circunstâncias. Sendo que existe um what if? de que poucos falam: a França ter seguido um caminho diferente, algo que talvez fosse possível se não estivesse tão envolvida nos escândalos do programa "petróleo por alimentos". O lado mais apelativo deste what if? é que existem muitos elementos que permitem acreditar que, pressionado pelos membros permanentes do Conselho de Segurança e pelos seus parceiros árabes, Saddam podia ter renunciado ao poder. Algo porém que nunca faria tendo diplomatas franceses a garantir-lhe, como sucedeu, que não haveria invasão pois não haveria segunda resolução das Nações Unidas.
O juízo final da História ainda está por fazer e restam cartas por jogar, mas para além dos erros cometidos e do que deve e está a ser corrigido, o risco do megaterrorismo obriga-nos não só a manter aberta a discussão como a encarar novos argumentos, em particular os avançados no último livro de Francis Fukuyama, de que ainda só pude ler recensões (algo críticas de resto, como a da revista The Economist) e uma extensa pré-publicação editada no The New York Times.
Não sou dos que pensam que não se pode mudar de posição e já tenho reconhecido muitas vezes que me enganei. Mas se logo em 2003 identifiquei alguns dos riscos associados à invasão, se esses riscos se concretizaram e se muita coisa correu e corre mal, feito o balanço ainda penso que o mundo e o Iraque estão melhor sem Saddam Hussein do que se ele tivesse continuado a ser o senhor de Bagdad.