sexta-feira, março 24, 2006

Cordialmente

Abel Maia, O Primeiro de Janeiro, 24 de Março de 2006

– Miguel Paiva demitiu-se da Comissão Política do PSD – Facto político.

A vida política é geradora de muitos factos, alguns ocos, outros inócuos, e outros ainda opacos, ao lado de muitos outros que são positivos, realizadores e refundadores do significado originário da dita. Pela frente dos factos políticos, numa visão humanista, que prezo, existe a convivialidade, pois a politica “tout court” é feita por Homens. A interacção de personalidades, mesmo que em bancadas políticas diferentes, gera atritos que sendo usuais, não deixam por isso de ser anormais, às vezes doentios, mas deve, sobretudo, gerar afectos. Aprendi nos clássicos que pensar politica, significa pensar a sociedade, cuja concepção é o primeiro pressuposto de qualquer teoria política. Sou mais adepto da teoria integracionista, no sentido de que a “vontade geral” de Rousseau, corresponde a um modelo mais aceitável para o equilíbrio das sociedades. Incomoda-me analisar a organização das sociedades no contexto da conflitualidade Aristotélica, onde tudo se resume aos interesses de gestão de recursos escassos, que atribui ao poder o conceito de soma zero (ou tem poder e tem quantidade positiva de poder ou não tem poder e é objecto de poder).
Que vem isto a propósito daquele facto político? - Indagará o leitor.
Convivi com o Dr. Miguel Paiva durante 16 anos, na assembleia municipal e na câmara municipal. Temos ideias e formas de estar diversas e sempre nos sentamos em bancadas diferentes. Tivemos quezílias e problemas. Escrevi coisas sobre ele, alinhadas com as políticas que preconizei em cada momento. Fui, também, por ele sinalagmaticamente retribuído. Uma ou outra vez, poucas felizmente, ultrapassamos o risco amarelo, mas sempre longe do vermelho. Aprecio uma sociedade democrática, nos valores do respeito e da opinião livre e os meus adversários políticos não são vistos no conceito de poder soma zero. Foram sempre representantes do poder de que estavam instituídos: O poder -dever de oposição. E, por isso, na hora da sua saída, envio um abraço ao Dr. Miguel Paiva, pois serviu ao seu modo aquele conceito integracionista da política, em que cada indivíduo ou grupo representa parte do todo. Não sei se é despedida, mas cumpriu uma etapa ao serviço da “rés”pública, porque estar na militância partidária, longe de ser anátema, é cumprir cidadania. Percebo o seu texto de desalento da semana passada, mas aquilo passa-lhe. Teve a difícil tarefa de puxar, sem grande ajudas, uma carruagem derrotada à partida e à chegada.
Aqui fica o reconhecimento singelo e estou pouco preocupado com algum Maquiavel com atitudes maniqueístas, que faça destas breves palavras um novo facto político.
O politicamente correcto é para outras ocasiões. Não é na hora da despedida.
Cordialmente, é pura cidadania.