quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Casal acusa padre exorcista de burla e assédio sexual

Polémica Mulher queixa-se na PSP, alegando ter sido "beijada e apalpada" pelo padre, durante exorcismo Religioso refuta acusações da paciente, que diz sofrer de "esquizofrenia"
henriques da cunha
Padre Humberto Gama refuta as acusações do casal


Helena Silva

Um padre exorcista, que efectua consultas em Fátima, Ourém, é acusado por um casal de, numa sessão, ter assediado sexualmente a mulher que estava a tratar. O acusado, Humberto Gama, assegura não ter tocado na paciente, desmentindo todas as acusações. Mas não desmente que, em algumas situações, chegue a tocar nos órgãos genitais dos seus pacientes, quer sejam homens ou mulheres. "O exorcismo é uma energia que tanto pode dar na cabeça, como na barriga ou em qualquer outra parte do corpo. Ora, se a dor for nas costas, não vou apalpar a cabeça", afirma o padre em declarações ao JN, sublinhando que "não vou tirar a cueca à mulher, mas se for preciso, claro que ponho a mão". E até questiona "Os médicos não fazem todos isso?", lembrando que "afinal, as pessoas querem é ser curadas".

A queixa do casal foi apresentada na PSP de Fátima no dia 29 de Janeiro, ao final da tarde, mas as consultas começaram em Outubro, conta J. Castro (nome fictício), marido da queixosa.

"O problema, pensámos nós, era a nossa filha, de cinco anos. A situação dela preocupava-nos, já não sabíamos o que fazer. Mas ouvimos falar do padre e marcámos uma consulta", explicou.

Na primeira sessão, a 23 de Outubro, o padre Humberto Gama recebeu o casal e a criança. "Disse-nos que a nossa filha não tinha problema. A mãe (de 31 anos) é que precisava de tratamento, estava possuída por um espírito de um homossexual", contou o marido, sublinhando que, depois desse dia, tiveram nova consulta, a 28 de Dezembro.

"Nesse dia, o padre estava acompanhado por uma enfermeira e essa senhora introduziu os dedos nos órgãos genitais da minha mulher, porque o padre dizia que os espíritos se escondiam aí", afirmou J. Castro, explicando que, mesmo depois disso, foi marcada nova sessão, para 11 de Janeiro. "Nessa consulta, o padre não tinha a enfermeira com ele. A minha mulher foi consultada enquanto eu e a minha filha esperámos na sala", contou.

Diz ter reparado que a mulher saiu "ansiosa e enervada", mas só alguns dias depois é que "ela teve coragem de contar o que tinha acontecido".


Padre desmente

"O padre beijou-a e apalpou-a, durante a sessão", revelou o marido, acrescentando que, no momento em que soube, ligou ao padre a confrontá-lo com a situação. "Perguntei-lhe que métodos eram aqueles e ele disse-me que era tudo mentira, que ela tinha inventado", disse.

O padre Humberto Gama, de 66 anos, confirma ter recebido o casal, mas desmente todas as acusações.

"Desde que os recebi que lhes disse que o problema era para ser tratado por um médico. Nenhum dos dois está bem, a criança já viu coisas que não devia e por isso tem problemas", diz o padre, assegurando que, apesar disso, foram realizadas três sessões, mas "a mulher nunca esteve sozinha em nenhuma delas o marido e a filha estavam sempre presentes".

O padre adianta mesmo que o casal queria marcar uma quarta sessão mas foi ele próprio que não achou necessário. "Ela é doente, sofre de esquizofrenia e isso eu não posso tratar", sustenta. Humberto Gama diz ainda que, antes da apresentação da queixa na polícia, a mulher lhe ligou a pedir um indemnização.

"O problema aqui é eu ser um padre e logo, alguém a quem se pode ir buscar dinheiro", considera, assegurando não estar a ponderar agir judicialmente contra o casal. "Seria feio da minha parte lutar contra estas pessoas, porque há uma desigualdade de forças", explica, sublinhando não estar preocupado com a eventualidade do caso chegar a Tribunal. "Oxalá que vá para Tribunal, para tudo ficar esclarecido e para que, se for caso disso, eu venha a ser indemnizado pelo tempo que perder com isso", diz.

Para o padre, que já foi acusado anteriormente por uma mulher do Porto (e também por assédio), o tipo de actividade que exerce "cria, por vezes, inimizades". E por isso fala de "uma organização" que estará a tentar prejudicar a sua imagem.


Casal pede justiça

O casal assegurou ao JN que o seu único objectivo é que "seja feita justiça". "Não queremos dinheiro, nem protagonismo. Por isso, não queremos que seja divulgado o nosso nome nas notícias", explica J. Castro, sublinhando que, ao contar o caso, pretende apenas "alertar para que outras pessoas não sejam vítimas da mesma situação".

A queixa, apresentada na esquadra da PSP de Fátima, já seguiu para o Ministério Público de Ourém.


Vozes

J. Castro

Marido da queixosa

Ouvimos falar deste padre através de uma reportagem na televisão. Pensámos que era uma pessoa de bem, que nos poderia ajudar. Mas não podemos aceitar que uma pessoa que se veste de padre e se auto-intitula padre faça o que ele fez aproveitou-se da situação e abusou da minha mulher".

Humberto Gama

Padre

Desde o início que informei o casal que o problema deles é para ser tratado por um médico, um psiquiatra ou psicólogo. O que posso garantir é que não se passou nada daquilo que a senhora me acusa. As consultas foram na presença do marido e da filha. Até queriam marcar mais consultas. Não concordei. Dou a cara e assumo as minhas responsabilidades".


O padre Humberto Gama assegura que "é cada vez maior o número de pessoas que recorrem ao exorcismo". Quer em Fátima, quer em Murça, onde tem abertos 'consultórios' para receber as pessoas, as suas agendas estão sempre cheias, garante. No dia em que recebeu a equipa do JN, tinha agendadas 13 consultas. "Fora as que aparecem sem marcação", explicou. Os pacientes eram oriundos de vários pontos do país e, a julgar pelos automóveis estacionados à porta, de variados estratos sociais.

"Ninguém é obrigado a pagar pelas consultas; só dão aquilo que podem ou querem", explica.

Para o padre, a crescente procura pelos seus serviços tem duas explicações por um lado, "as pessoas estão cada vez mais informadas sobre as coisas" e, por outro lado, "já não têm medo de admitir que recorrem a estes tratamentos e não se escondem".

Da sua lista de pacientes, sublinha, incluem-se até padres ou médicos. Por isso, defende, "a Igreja tem que começar a assumir o exorcismo como tratamento".