segunda-feira, janeiro 09, 2006

Um equívoco

Vasco Pulido Valente, Público, 7 de Janeiro de 2005

Peço licença para repetir: o dr. Mário Soares combateu a ditadura e ganhou, combateu a tentativa de subversão comunista em Portugal e ganhou. Foi duas vezes primeiro-ministro e duas vezes Presidente da República. Pelo caminho fundou o Partido Socialista, o único partido democrático e verdadeiramente europeu, que antes do 25 de Abril existia numa esquerda repartida entre o PC e grupúsculos "revolucionários" de uma total frivolidade, que se inspiravam num "marxismo" perseguidor e, sem saber, já morto. Aos 50 anos, Mário Soares, que o próprio Kissinger imaginara um novo Kerensky, era uma glória do Ocidente. De Mitterrand a Reagan, toda a gente o ouvia e o respeitava. Nunca nenhum político português tinha chegado onde ele chegou: e provavelmente nenhum outro voltará a chegar.
Mas nem por tudo isso Mário Soares deixou de ser parte e parcela de uma cultura burguesa que morreu. Uma cultura em que a arte, a história, a filosofia, a política, a conversa, o conforto e a cozinha contavam. Uma cultura cosmopolita, que lhe permitia estar em casa em Itália ou em França, em Inglaterra ou em Espanha, na Alemanha ou até na América "liberal" da costa leste. Um homem destes não podia perceber (e não percebeu), nem se podia adaptar (e não se adaptou) a uma civilização de "massa". Principalmente, um homem destes não podia ter a mais remota empatia pelo "novo homem", reduzido a uma educação técnica, com ideias sumárias sobre a sociedade e a vida, imitativo, grosseiro e dedicado a uma ambição primária e pessoal. Daqui veio o grande equívoco da candidatura.
A Mário Soares, Cavaco e Alegre e, muito menos, Jerónimo e Louçã pareceram uma oposição insuperável. À esquerda, Jerónimo e Louçã ficariam com o seu pequeno público, guardado para a segunda volta, e, de resto, quem escolheria Alegre, uma personagem menor e um lírico de província? E, à direita, quem acreditaria num economista superficial e estreito, quando a crise que excede em muito, e decisivamente, a economia? A natureza e o passado de Mário Soares não o deixaram ver que o país gostava com certeza, não de Alegre, mas do reality show de Alegre: a falsa rebeldia, a falsa independência, a falsa inspiração. Como não o deixaram ver que a força de Cavaco é a fé "moderna" na omnisciência e omnipotência do especialista. A derrota de Mário Soares, que talvez seja irritante, não será humilhante. Entrou imprudentemente para um universo a que não pertence e pagou o preço. Sucede aos melhores. Esperemos que, saindo, fique aliviado.