segunda-feira, janeiro 09, 2006

Fusão de Porto e Gaia ganha novos adeptos

Margarida Gomes

Luís Filipe Menezes, que lançou a ideia há alguns anos, satisfeito com o repto lançado por Paulo Rangel, deputado do PSD

A ideia de fundir a prazo os municípios do Porto e de Gaia - uma questão lançada há anos por Luís Filipe Menezes - regressou ao debate político pela voz de Paulo Rangel, deputado e redactor do programa eleitoral de Rui Rio. Seis anos depois do presidente da Câmara de Gaia ter esgrimido argumentos a favor desta ideia, uma eventual fusão das duas cidades com vista à criação de uma grande metróple ganhou novos adeptos que vêm nesta possibilidade uma oportunidade para relançar o Porto, dando-lhe uma nova projecção ibérica, mas também europeia.
O deputado do PSD aproveitou o tema Centralismo: Lisboa, rival ou aliada? do quarto encontro do ciclo de conferências Olhares cruzados sobre o Porto, promovido pelo PÚBLICO e pela Universidade Católica para evidenciar as vantagens de uma eventual fusão entre os dois concelhos, com o argumento de que o Porto tem de encontrar um projecto mobilizador que "aumente a sua auto-estima" e que não dependa da administração central. Ontem, em declarações ao PÚBLICO, o ex-secretário de Estado da Justiça carregou nos argumentos que o levam a defender a junção do Porto e de Gaia e garantiu que há condições para relançar o tema e criar um movimento cívico pró-fusão.
Para o deputado, a fusão das duas cidades é única forma de, em 2010 ou 2012, existir uma cidade que constitua um verdadeiro pólo de atracção. "O Porto tem de empenhar-se num programa estratégico, tem obrigação de constituir um pólo de atracção, sob pena de ser absorvido pela Galiza", declarou Paulo Rangel, confidenciando que quando redigiu o programa eleitoral de Rio foi tentado a incluir o tema no programa, uma ideia que caiu por terra devido ao facto de o presidente da Câmara do Porto ser contra.
Convicto de que este é o timing certo para relançar o assunto, Rangel admite fazer deste tema o grande debate das autárquicas de 2009. "Existem três/quatro anos para se estudar da viabilidade da ideia", afirma, notando que não pretende ser visto como "o pai da ideia".
O deputado vislumbra também "objectivos históricos" para a sua causa ao afirmar que defende a união de duas cidades que deram o nome a Portugal. "Temos o Portus e temos a Calem que era Gaia. Não estamos a falar de uma coisa esotérica, estamos a falar de uma realidade que em certo sentido quase psicanalítico toca a nossa essência", salienta.
O presidente da Câmara de Gaia assume a paternidade da ideia e manifesta a sua estranheza pelo facto de "alguma intelectualidade da cidade" defender agora a fusão das duas cidades. Luís Filipe Menezes garante que "Gaia continua a ter as características que justificariam as vantagens de uma unidade". O autarca alude às razões históricas, fala das idiossincrasias das populações, nomeadamente das populações ribeirinhas, e diz que o Porto é hoje uma cidade consolidada do ponto de vista físico, sem zonas de crescimento. E vê na criação de um movimento cívico a forma ideal para se relançar o debate.
Entusiasta desde a primeira hora, o presidente da Associação Comercial do Porto, Rui Moreira, considera que a ideia faz mais sentido se integrar também Matosinhos, dada a proximidade de infra-estruturas como o aeroporto e o porto de Leixões. Rui Moreira observa que é preciso haver uma grande reflexão sobre o tema que tem de ser referendado pelas populações.
O ex-ministro da Economia de António Guterres, Braga da Cruz, partilha da mesma opinião, mas arrefece ânimos. "É extremamente difícil de atingir esse objectivo porque não está nos nossos hábitos fundir freguesias ou municípios." Garantindo que a ideia teria mais hipóteses de sucesso se fosse lançado um grande movimento a nível nacional, o ex-ministro diz que seria surpreendente se algum dia fosse possível fundir Porto e Gaia.
O geógrafo e professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade do Porto Rio Fernandes, considera que os problemas da metrópole Porto não se resolvem através de fusões de municípios, "só se resolvem pela criação de uma estrutura supramunicipal politicamente legitimada com meios e competências bem definidas", até porque, nota, "fazer desaparecer municípios é qualquer coisa de inaceitável para a populações". Fernandes discorda que a fusão seja feita tendo em conta apenas Porto, Gaia e Matosinhos, alargando-a antes à Maia, a Valongo e Gondomar, "porque o Porto já não é uma cidade sozinha".

O debate na Blogosfera
"No caso concreto de Porto e Gaia, essa fusão deveria revestir a forma de integração das freguesias urbanas de Gaia no Porto, mantendo-se o nome "Porto". É a solução mais natural, mais sensata e julgo que bastante consensual. Já muita gente a tem defendido e quase não se ouvem vozes contra."
Tiago Azevedo Fernandes,
www.porto.taf.net.com

"[Paulo Rangel] rasgou com os velhos preconceitos regionalistas, conseguindo fazer ouvidos de mercador a todos os vícios que o bairrismo mais salutar possa induzir. E, assim, apontou soluções que, em vez de passarem por estender a mão às benesses de uma repartição do bolo centralista, dele prescinde para promover as suas cidades que lhe são pares e, dentre elas, conquistar o estatuto de primus."
Daniel Brás Marques
www.nortadas.blogspot.com

"A solução da fusão Porto-Gaia tem todo o meu apoio. O poder desta nova urbe, qualquer que seja o ponto de vista, seria enorme. Os ganhos pessoais, económicos, políticos e sociais seriam tremendos. Corria-se o risco, é certo, de mimetizar os tiques e defeitos de uma cidade centralizadora, como Lisboa, mas aí haveria de se contar com gente capaz de contornar esse problema, esperando-se que essa mole de dinossauros autárquicos que por aí ainda vegeta se abstivesse de lá colocar as unhas."
A.T.
www.ovilacondense.blogspot.com