sexta-feira, janeiro 06, 2006

Castello Lopes encerra seis salas e deixa Póvoa de Varzim sem cinema regular

Ângelo Teixeira Marques, in Público, 6 de Janeiro de 2005

A empresa optou por não renovar o contrato, decisão que retira aos habitantes da Póvoa e Vila do Conde a oferta de cinema comercial

A Póvoa de Varzim não dispõe, nesta altura, de uma única sala onde ocorra a projecção regular de cinema. O complexo da Castello Lopes que existia no segundo piso do hipermercado Feira Nova encontra-se encerrado, a sala Santa Clara, situada no centro da cidade, atravessa uma crise financeira e só de longe a longe projecta uma fita, e o Cineteatro Garrett foi comprado pela câmara e só no final do próximo ano deve ser reaberto, depois de acabarem as actuais obras de remodelação.
Quem na Póvoa ou mesmo no concelho vizinho de Vila do Conde gosta de cinema tem agora apenas duas opções: ou acompanha as exibições semanais dos cineclubes das duas cidades (na Póvoa à terça-feira e em Vila do Conde ao domingo), mas cuja programação só esporadicamente toca o circuito comercial, ou ruma a outros concelhos do Grande Porto.
O vereador com o pelouro da Cultura da Câmara da Póvoa, Luís Diamantino, disse ao PÚBLICO que, no seu entender, os cinemas no concelho estão a ser vítimas da concorrência dos DVD e de salas com mais conforto localizadas em grandes superfícies comerciais que gravitam em redor do Porto. Acrescentou que a autarquia "não pode ir contra a lei do mercado", por muito que lhe custe ser o titular da pasta da Cultura numa cidade onde não há uma única sala para o cinema comercial.
"O problema é a pirataria. Qualquer um consegue comprar um filme barato e escusa de sair de casa para ter qualidade", enfatizou ontem um funcionário de uma loja existente logo à entrada do Hipermercado Feira Nova, localizado na freguesia de Argivai, onde o complexo de cinemas da Castello Lopes terá fechado há uma semana. De facto, os painéis para a colocação dos cartazes de promoção de filmes estão vazios, as portas de acesso fechadas, mas cuja transparência permitia ver o corredor de derivação para as seis salas, com aspecto abandonado.
À parte uma folha A4 com a frase "encerrado" colada na bilheteira do cinema, a cadeia de cinemas não disponibilizou mais nenhuma informação para os clientes. Fica, por isso, por saber se os cinemas poderão reabrir noutra altura em que o mercado esteja mais pujante.
O PÚBLICO confirmou junto da Castello Lopes que o contrato de exploração das seis salas de cinema na Póvoa de Varzim terminou, tendo a empresa, de acordo com Paulo Costa, decidido não renovar o vínculo. O responsável da empresa escusou-se, contudo, a adiantar mais pormenores sobre as razões que conduziram à decisão.

Sessões do Octopus passam para o auditório
A empresa que explora a sala Santa Clara tentou ganhar algum fôlego com os veraneantes que costumam encher a Póvoa, mas o apuro não terá sido suficiente para o mau tempo de agora. No estio, a empresa Póvoa-Cine esclareceu em comunicado que manteria a exibição diária apenas nos meses da época alta de férias - Julho, Agosto e Setembro -, mas que iria cortar muitas das projecções para o resto do ano. E justificava: "É do conhecimento público que, actualmente e a nível internacional, se produz uma menor quantidade de filmes com qualidade e características que mereçam o interesse de quem frequenta o cinema" e, como tal, reservava-se apenas a exibir "apenas filmes que se destaquem no panorama cinematográfico".
Em Setembro, a empresa ainda julgava ter condições para manter a colaboração com o Cineclube Octopus - que já durava há 22 anos e que, essencialmente, se traduzia na garantia de aluguer da sala nas noites de quinta-feira - para a projecção do chamado cinema "de culto" ou "alternativo". Para tal, a Câmara da Póvoa subsidiava o Octopus, a quem (tal como faz com o Varazim Teatro) encarregava de elaborar a programação anual.
Com a crise, a empresa rompeu o acordo com o cineclube e este teve de mudar-se de armas e bagagens para o auditório municipal, passando a ocupar o espaço disponível no calendário do imóvel (às terças-feiras à noite) que, entre outras actividades, acolhe também uma escola de música. com Teresa Peixoto