quarta-feira, dezembro 28, 2005

Espanhóis trabalham menos anos mas são mais ricos

Cristina Ferreira, in Público, 28 de Dezembro de 2005

O segredo está na produtividade superior à portuguesa. Maior qualificação dos patrões e empregados ajuda a explicar as diferenças

Lisboa era, em 2002, a única das sete regiões portuguesas capaz de rivalizar com as comunidades espanholas mais ricas, com um produto interno bruto (PIB) per capita a preços correntes entre 17 mil e 24 mil euros, revela um estudo comparativo dos institutos de estatística dos dois países ontem divulgado. O trabalho a Península Ibérica em números conclui ainda que o custo de vida (habitação, alimentação, vestuário e educação) é mais elevado em Espanha; que os patrões e os empregados espanhóis são mais qualificados; que os portugueses trabalham mais anos do que os espanhóis e que preferem licenciar-se em Ciências da Educação, enquanto os seus vizinhos escolhem as áreas de engenharia, indústria e construção.
Em 2003, o PIB por habitante a preços correntes era em Portugal de 12,5 mil euros, menos 6,1 mil euros do que em Espanha - a média da UE era de 21,4 mil euros, com o Luxemburgo (53,2 mil euros) e Irlanda (34,9 mil euros) a liderarem o grupo dos mais ricos. Sendo mais ricos não admira que os espanhóis tenham um custo de vida mais caro. Em 2004, verificava-se que em Madrid os custos da habitação, dos acessórios para o lar, do vestuário, das comunicações e da educação eram superiores aos que vigoravam em Lisboa, assim como os praticados na alimentação e nas bebidas não alcoólicas. Mas a capital lusa destacava-se a praticar preços mais elevados nas bebidas alcoólicas, no tabaco e nos transportes.
Grande parte dos produtos consumidos em Lisboa e no resto do país vêm de Espanha, o maior fornecedor de Portugal (29,3 por cento das importações) e o maior cliente (24,9 por cento das exportações). Os dados do comércio externo espanhol apontam para outra direcção, já que Portugal aparece apenas em oitavo lugar entre os seus fornecedores (3,2 por cento das importações), o primeiro parceiro é a Alemanha. E apenas 9,6 por cento das exportações espanholas se destinam ao seu vizinho peninsular (19,2 por cento são compras de França). E Portugal depende mais da UE em termos de vendas ao exterior (78 por cento) do que a Espanha (70 por cento).
Para serem mais ricos os espanhóis não precisam de trabalhar mais: em média, os portugueses reformam-se aos 62,1 anos, enquanto os seus vizinhos o fazem aos 61,4 anos, ligeiramente acima dos 61 anos da generalidade dos europeus. A explicação tem a ver com a produtividade. No sector secundário, em 2004, cada trabalhador luso produziu a preços correntes 20 mil euros, contra os 41,5 mil euros de cada espanhol (45,3 mil euros na UE). No comércio, a produtividade aparente era 18,1 mil euros em Portugal, 26,4 mil euros em Espanha e 32,6 mil euros na UE. Já nos sectores imobiliárias, alugueres e serviços às empresas era de 21,6 mil euros em Portugal, 33,3 mil euros em Espanha e 45,8 mil euros na UE.

Portugueses
preferem Letras
Diferenças que reflectem níveis de instrução diferentes. Em 2004, apenas um em cada quatro patrões lusos ostentava formação superior ou completara o ensino secundário (24 por cento do total), ou seja, metade do registado no país vizinho (49 por cento). E muito longe do patamar médio de referência registado na UE, onde 71 por cento dos patrões apresentam habilitações superiores. E em Espanha, 55 por cento dos empregados possuía curso superior ou ensino secundário completo, valor que por cá não ultrapassa 27 por cento (na EU é de 72 por cento).
A análise dos indivíduos com curso superior, independentemente de serem patrões ou empregados, revela que 22 por cento dos portugueses (o dobro de Espanha) diplomados, optarem por seguir a via da educação, em detrimento das áreas da engenharia, da indústria e da construção (13 por cento), que são escolhidas por 17 por cento dos espanhóis. E apenas quatro por cento dos diplomados lusos optaram pela via do Direito. Portugal destaca-se ainda por apresentar a terceira taxa mais elevada de mulheres com ensino superior, 67,2 por cento, mais 13 por cento do que em Espanha, e muito acima da média europeia.
Maior produtividade e mais qualificação tem um preço: custos laborais mais caros. De acordo com as estatísticas, em 2003, o emprego luso associado à indústria e aos serviços (excluindo a administração pública) custava mensalmente (incluindo salários) 1343 euros, verba que em Espanha era de 2017. O diferencial aumenta quando está em causa o sector da indústria: em Portugal o custo do trabalhador situava-se em 1162 euros e em Espanha em 2306 euros.