terça-feira, dezembro 13, 2005

Confecções Corgo O fim do sonho cooperativo

Ângelo Teixeira Marques, Público, 13 de Dezembro de 2005

Falta a electricidade e acumulam-se salários em atraso. Plenário de sexta-feira pode pôr fim à experiência

Há mais de uma semana que as cerca de 180 trabalhadoras das Confecções Corgo se dirigem para as instalações da unidade fabril, em Azurara, Vila do Conde, para cumprir o horário das 8h00 às 17h00. Mas ficam de braços cruzados. Não trabalham porque não recebem salários desde o meio de Outubro (o subsídio de férias também está em falta e o de Natal será uma miragem) e agora, mesmo que quisessem trabalhar, as máquinas estão paradas. Não há electricidade, cortada por falta de pagamento.
Passam, assim, o dia na fábrica cuja fachada decoraram com um pano negro e um lençol branco onde há inscrições críticas para a gestão. Esperam impacientemente que os dias passem rápido até à próxima sexta-feira, dia da assembleia geral da empresa que, estimava ontem a maioria, vai "acabar com isto de vez" e mandar todas as funcionárias para o desemprego.
O caso da Confecções Corgo tem características semelhantes às de outras indústrias do têxtil que balançaram até caírem, mas também possui aspectos pouco comuns no meio empresarial. Desde logo, a larga maioria das trabalhadoras integra o lote de cooperantes, o que faz com que a gestão da Confecções Corgo esteja atribuída à assembleia geral de funcionários. É nesses plenários que se elege a direcção e tomam-se as principais decisões.
Ora, ontem, nas conversas à porta da empresa, foi notório que o clima entre as cooperantes está longe de ser um mar de rosas. Mal o PÚBLICO chegou à firma, as trabalhadoras indicaram uma porta-voz "capaz de contar tudo", mas esta estabeleceu uma condição: "Não revela o nome de nenhuma de nós", disse. Mais tarde, confidenciaram que os receios de fornecerem a identificação radicava no facto de a cooperativa ter andado em bolandas ao ponto de ter sido movido um processo judicial contra a direcção que antecedeu a actual.

Carta para o Fundo
do Desemprego
As trabalhadoras afirmam não estar nada interessadas em mergulhar nas malhas da justiça, mas tão-só receber o que têm direito e a carta para o Fundo de Desemprego. Muitas já estão na unidade fabril praticamente desde a sua formação, em 1979, e, por isso, julgam-se "velhas para arranjar emprego e novas de mais para ir para a reforma".
A indicação que receberam do sindicato e do Ministério do Trabalho é a de que que devem comparecer nos postos de trabalho e não temerem ser penalizadas por serem cooperantes, uma vez que tinham um estatuto semelhante a operárias: horário certo e jamais viram um tostão de lucros ou pagaram prejuízos. Bem, pelo contrário, no início entraram com cem, quinhentos escudos e, mais tarde, 500 escudos em três levas. Mas "esse [montante] voou".

Sindicato à defesa
O fecho da Confecções Corgo não é uma boa notícia para o espírito cooperativo. Daí que, contactada pelo PÚBLICO, Manuela Sá, dirigente do Sindicato do Têxtil e do Vestuário, tenha tratado a situação sem a tradicional efervescência oral a que os sindicalistas costumam recorrer para explicar o que se passa numa empresa com a corda na garganta. "Esta é uma das situações que não gosto muito de abordar", confessou.
Seja como for, o sindicato vai reunir-se depois de amanhã com as trabalhadoras para tentar analisar as possíveis saídas para uma crise que, na assembleia da próxima sexta-feira, pode redundar na morte da cooperativa.
A realidade é dura para as trabalhadoras, que, quando falam na direcção anterior à actual, ficam de cabeça quente e disparam uma série de acusações graves. Sobre a presente direcção (que entrou em Junho), dizem acreditar que não haja má-fé, mas sobretudo pouca preparação dos elementos escolhidos para orientar uma fábrica que trabalhava a feitio um pouco para todo o lado.
O certo é que, dizem, a cooperativa deve 1,7 milhões de euros à Segurança Social e, por causa disso, tem penhorado o edifício e a carrinha da empresa. Terá, também, por pagar 500 mil euros ao Fisco e alguns "trocados grandes" a fornecedores. "Há três anos que não conhecemos as contas", rematou uma das funcionárias.
O PÚBLICO não conseguiu falar com elementos pertencentes à actual e anterior direcção