quarta-feira, novembro 02, 2005

Trabalhadoras que tomaram fábrica de Arcos de Valdevez a um passo do triunfo

Públcio, 2 de Novembro de 2005
Ana Peixoto Fernandes

Foi um ano difícil, sem dinheiro para matéria--prima e à procura de novos clientes. Mas os salários estão a ser pagos e a Afonso parece encontrar um futuro

Na madrugada de 29 de Novembro de 2004, a administração alemã da empresa Afonso-Produção de Vestuário, instalada na zona industrial de Paçô, em Arcos de Valdevez, tentou pela calada da noite e à revelia dos trabalhadores esvaziar as instalações de maquinaria e matéria-prima com o intuito de a deslocalizar para a República Checa. A operação foi boicotada à força pelas operárias fabris, que desde aí tomaram as rédeas da fábrica de camisas, impedindo-a de encerrar até hoje. Os administradores fugiram para a Alemanha.
Um ano depois e após muitas "lágrimas", sinónimo de "dificuldades, desânimo e vontade de desistir", garante a antiga gerente/nova administradora Conceição Pinhão, a Afonso começa a recuperar o fôlego na produção e encontra-se a um passo do triunfo, depois de a antiga administração ter manifestado verbalmente a sua intenção de vender a empresa a quem não a deixou morrer. Pinhão mostra-se prudente: "Só quando tiver tudo preto no branco é que vou respirar de alívio. Quem fez o que fez, abandonar a fábrica e os trabalhadores como se fossem uma camisa, pode voltar a fazer. Eu sinceramente não confio."
Actualmente, a fábrica apresenta um passivo de cerca de 120 mil euros e a ser comprada por Conceição Pinhão será pelo valor simbólico de um euro. "A compra vai ser efectuada por um euro, mas depois há todo um assumir de responsabilidades que acaba por ser o custo que ela vai ter", explica. Se tudo correr bem, a escritura poderá ser assinada nas próximas semanas.
A responsável da unidade instalada em Paçô lembra que a administração alemã deu pela primeira vez sinal de vida seis meses depois do episódio da tentativa falhada de retirar todo os bens do interior da fábrica.
"Em meados de Maio deram a cara através do advogado deles aqui em Portugal, que me contactou a dizer que era a pessoa que iria tratar dos assuntos relacionados com a fábrica e com a intenção de que não queriam a empresa", conta. Desde aí desenvolveram-se as negociações ainda não concretizadas. "[E, a concretizarem-se], isto no futuro passa por eu encontrar alguém do ramo que adquira a fábrica", adianta Pinhão. "Já tenho vários contactos", nota.

Um ano com
a faca na garganta
"Trabalhámos um ano com a faca na garganta", queixa-se Conceição Pinhão, referindo que foram 12 meses de "altos e baixos" e de "uma instabilidade muito grande, que pesa psicologicamente nas pessoas". Os salários dos 87 trabalhadores "estiveram sempre em dia", pese embora os "meses de aflição", como Março e Abril, que assinalam a mudança das colecções no mundo têxtil.
"Os votos de confiança dos trabalhadores, a vontade de não se deixarem abater e de lutar para que eles [a administração] não conseguissem levar a sua avante, que era fechar a fábrica, e, por outro lado, o conforto de alguns clientes", resume a administradora, foram "determinantes" para que a fábrica continuasse a laborar na ausência dos seus proprietários.
"Muitas vezes cheguei aqui com vontade de desistir, mas ou vinha um telefonema de alguém com mais a possibilidade de um contacto, ou um fornecedor dava mais um alento ou alguém mandava um e-mail de solidariedade, e isso nunca aconteceu", conta.
Um ano volvido, o panorama começa a melhorar. "Para encontrar clientes é preciso toda uma fase de amostragem, de contactos, de provar que temos qualidade até que as encomendas comecem a cair, o que só agora está a acontecer", refere Conceição Pinhão, evidenciando que "as previsões são, neste momento, bastante animadoras para a próxima estação" e "há trabalho assegurado até ao fim do ano".

Aposta no mercado
espanhol
A aposta no mercado espanhol é um dos objectivos traçados pela equipa de trabalhadoras que conduz os destinos da Afonso. Dos dez clientes para os quais trabalham, dois são de Espanha e os restantes alemães, norte-americanos e portugueses. "Estamos bem colocados estrategicamente em termos de localização e, por outro lado, os espanhóis procuram produtos de camisaria", sustenta Pinhão.
Outro objectivo: recuperar a produção "na vertical", perdida devido à incapacidade financeira em que vive a empresa - ou seja, com o reequilíbrio das contas, a unidade pode assumir a produção de camisas por inteiro, o que implica a aquisição de matéria-prima e a criação e execução do produto, em vez de, como até agora, prestar apenas um serviço de mão-de-obra.
"Fomos obrigados a perder clientes, porque não tínhamos dinheiro para comprar matéria-prima, que é um investimento muito grande que tem de ser feito à cabeça", lamenta Conceição Pinhão.