segunda-feira, novembro 28, 2005

Onde estão as elites do grande porto?

ANTÓNIO BARRETO, Público, 27 de Novembro de 2005

Há dias que venho fazendo esta pergunta: onde estão as elites do Norte? As respostas poderiam ser várias.
Não há.
Estão no estrangeiro. Estão em Lisboa.
Estão sempre em movimento, na auto-estrada, nos comboios Alfa ou entre aeroportos do Porto para Lisboa e vice-versa.
Ou estão, simplesmente, no Porto. Isto é, no Norte.
Passo em revista as respostas possíveis. E retenho apenas uma: estão no Norte, sobretudo no Porto. É verdade que algumas pessoas do Norte e do Porto fazem hoje parte das elites nacionais ou de Lisboa. Mas isso nada retira ao essencial: as elites do Porto estão no Porto. Talvez se reproduzam e alarguem dificilmente, dada a distância que as separa das instituições nacionais, da administração central e do Governo. Mas também isso não invalida o facto de a elite do Norte residir e estar activa no Norte.
Comecemos pela definição, para que não haja dúvidas sobre o que falamos. As elites são compostas pelos melhores de cada grupo social, pelos melhores de uma sociedade, os que assumem um papel dirigente, os que lideram, os que detêm prestígio e domínio social, os que sabem mais, os que mostram caminhos...
É assim que podemos falar de elites locais, regionais, nacionais ou mesmo internacionais.
Como podemos falar de elites políticas, sociais, económicas, religiosas, culturais, técnicas, científicas, etc.
Limito-me, pois, a uma definição simples, sem conotações teóricas.
Sendo assim, a resposta parece simples: as elites do Norte estão no Norte. Se olharmos para várias áreas de actividade, rapidamente nos damos conta de que essa resposta é verdadeira.
Na economia, ninguém duvida. Várias grandes empresas têm aqui origem e actividade. O maior grupo económico do país tem aqui sede e origem. Vários bancos surgiram no Norte. A exportação portuguesa depende em grande parte de uma formidável rede de pequenas e médias empresas, mas também algumas grandes, sediadas e activas no Norte.
Na cultura, também há certezas. Do Porto e do Norte vêm grandes nomes e grandes obras em vários domínios. Na literatura e na crítica literária; no ensaio; na poesia; no teatro; nas belas-artes; e na arquitectura. Muitos destes nomes distintos, com influência nacional e por vezes internacional, não só vêm do Norte como aqui trabalham. São do Norte alguns dos escritores mais lidos no país. Vieram para o Norte, se assim se pode dizer, vários prémios importantes, o Pessoa, o Camões e o D. Dinis.
O diário português com maior tiragem é feito no Porto. Um dos dois diários ditos de referência nasceu no Porto. Várias editoras, entre as mais importantes do país, nasceram e vivem no Porto. Pintores, escultores e arquitectos do Norte têm reputação nacional e internacional.
Na ciência, a rede actual de instituições universitárias e politécnicas é de razoável densidade, ou de malha estreita, cobre todas as áreas de conhecimento e de criação e responde às necessidades da população, o que quer dizer que tem de albergar uma quantidade importante de cientistas e professores qualificados.
Como sempre acontece, há áreas de saber e de investigação em que o Norte é talvez mais fraco, mas, globalmente, as principais disciplinas estão bem implantadas e nelas se revelam valores indiscutíveis, como na medicina, nas ciências da vida, na engenharia, na economia, na gestão, no urbanismo, na arquitectura e nas letras.
Existem tradições familiares, sociais, culturais e associativas, próprias das classes dirigentes ou dos grupos de distinção.
Existe também um património histórico e literário sobre a cidade, a região, as suas actividades, as suas famílias proeminentes e as suas linhagens de profissionais distintos. A bibliografia sobre a cidade e a região, assim como sobre as suas figuras de relevo, ou de elite, é muito extensa, das mais extensas de todas as regiões portuguesas.
Há revistas e jornais dedicados à vida no Norte e no Porto.
No mundo religioso, especialmente católico, também o Porto e o Norte se distinguem, dando origem, tradicionalmente, a personalidades de relevo nacional.
No desporto, igualmente, os valores individuais e colectivos são conhecidos.
Se assim é, se o que afirmo é verdade, então por que razão se faz esta pergunta? Por que razão tantas vezes nos interrogamos sobre as elites do Porto, ou do Norte? Não será estranha esta obsessão com a identidade do Norte, o peso do Norte, a existência ou não de elites no Norte? Fazer-se esta pergunta não será já confessar que alguma coisa está errada?
A meu ver, esta obsessão tem razão de ser. Na verdade, ao Norte e ao Porto faltam algumas coisas. Não as elites, mas um papel para essas elites. E falta um factor aglutinante. Em poucas palavras, falta poder político, ou representação aceite dos interesses e das realidades locais e regionais.
Daqui não concluo que a regionalização do país tivesse sido a solução. Em particular, não faz sentido adoptar políticas nacionais e novas divisões administrativas para resolver um problema do Porto!
Além disso, a regionalização significava uma outorga de poderes e competências que, a meu ver, não seria solução. Na verdade, a aglutinação de que falava acima deveria vir de dentro e não de fora.
Por outro lado, o Porto vive uma situação bem conhecida de quase todos os países europeus (ou não), que é a da segunda cidade. A da principal cidade depois da capital.
Tal como noutras cidades segundas, cria-se uma espécie de rivalidade que pode, em certas circunstâncias, diminuir uma das partes, a cidade segunda neste caso. A inveja é frequente. O receio de ser subalternizado é constante. A comparação com a capital e o poder central é uma obsessão.
Pelo seu lado, a cidade capital e o poder central não cessam de se sentir superiores e de certo modo de desprezar ou troçar da cidade segunda. Ou de considerar que o que se aplica na capital é nacional, enquanto o que se aplica à cidade segunda, ao Porto, é local ou regional. Quando a elite nacional ou a elite da capital deseja fazer algo de nacional, a capital é geralmente escolhida.
A cidade capital pensa-se como cabeça de país. A cidade segunda pensa-se como cabeça de região. A relação entre as duas é desigual. A cidade capital tem o Governo central e as instituições nacionais como aliados. Na cidade segunda, Governo e instituições são rivais ou adversários.
Isto não tem de ser assim. Há segundas cidades por esse mundo fora que conseguiram afirmar-se, onde as elites desempenham um papel tanto local e regional como nacional. Os exemplos são muitos. E nem sequer é necessário olhar para Los Angeles, São Francisco, Boston, Dallas, Chicago e tantas outras cidades nos Estados Unidos, cuja dimensão e história colocam numa realidade à parte. Nem para cidades de países de outros continentes, como São Paulo e Rio de Janeiro. Olhemos para a Europa vizinha, onde Edimburgo, Milão, Lyon, Barcelona, Genebra, Zurique, Frankfurt, São Petersburgo e outras demonstram que é possível uma cidade segunda, uma cidade que não é a capital, desempenhar um papel excelente para a comunidade, a nação e o mundo.
Finalmente, por estas e outras razões que veremos adiante, há como que uma abstenção, por parte das elites e das instituições, isto é, uma não-assunção de papéis, funções e protagonismo que poderiam dar mais força e mais identidade à região e à cidade. O Porto e o Norte têm tudo o que seria necessário para fundar um protagonismo de carácter e de que as populações aproveitariam. Têm dimensão, riqueza, produção económica, emprego, tradições, empresas, património histórico e cultural, ciência, escolas, técnicos e relações comerciais com o mundo suficientes para sustentar uma personalidade citadina que ultrapasse a região.
Têm, mas nem sempre parece que os portuenses ou as gentes do Norte utilizem esses meios e instrumentos. Dentro do Norte e do Porto, há mais rivalidades do que cooperação, mais adversários do que cooperantes.
Ninguém, autarca, sábio, ancião, empresário ou líder político, soube ou conseguiu congregar esforços e instituições a fim de, em certas situações, dar voz à cidade.
A universidade, por exemplo, está estranhamente ausente desse protagonismo imaginável. As câmaras, geralmente adversárias, seja por razões bairristas, seja por motivos partidários, raramente conseguem entender-se à volta de ideias fortes de colaboração e de protagonismo. As grandes empresas estão afastadas dessas ideias de congregação. Hospitais, escolas, tribunais e outras instituições deixam-se liderar pela administração central, revelam-se incapazes de assumir, por sua conta, projectos e planos.
O Porto poderia, com valor de experiência e de exemplo para todo o país, organizar serviços, coordenar instituições, melhorar o ensino nas escolas, fazer a sua parte na resolução da famosa questão das filas de espera nos hospitais, ensaiar novas soluções para o trânsito e os serviços públicos de transporte, ter o seu modo de tratar os espaços verdes, os jardins e os parques, ou dar um contributo valioso para aquilo a que se chama hoje parques tecnológicos e científicos ou centros de excelência.
Tudo isto valeria por si. Mas também seria instrumental na fundação de um poder político real. De um poder especifico com que o país tivesse de contar. Seria em certo sentido o contrário da regionalização: em vez de vir como outorga, a fim de coordenar esforços, o poder político viria como conclusão e abóbada do poder real, da força cultural e económica e da boa organização do bem comum.
São estas, a meu ver, as razões pelas quais nos perguntamos: onde estão as elites do Porto? É porque elas estão ausentes no que toca ao empenhamento estratégico e autónomo das forças locais. Em certo sentido, negam-se como elites. Ou abdicam de um dos papéis essenciais das elites que é o de dirigir, orientar e liderar. Fortes e distintas na literatura, na empresa, na medicina, na saúde pública, na arquitectura, no comércio e em tantas outras áreas, estas elites parecem abster-se de olhar pela sua cidade e de, à margem ou apesar do poder central, se sentirem responsáveis pelo bem comum. Parece que os melhores, os mais atentos, os mais empenhados acabam por pensar que o seu contributo deve ser sempre canalizado pelo poder central. Por isso é fácil vermos membros da elite portuense cooperar com o poder central e é difícil vermos os mesmos cooperar entre si pela cidade e pela comunidade do Norte.

Texto que esteve na base da comunicação do autor na conferência/debate subordinada ao tema Onde Estão as Elites do Grande Porto?, realizada no âmbito do ciclo Olhares Cruzados sobre o Porto, promovido pelo PÚBLICO e pela Universidade Católica, em 22 de Novembro.