sexta-feira, novembro 18, 2005

Albino Aroso na lista dos médicos "mais dedicados" do mundo

Alexandra Campos, Público, 17 de Novembro de 2005

Aos 82 anos, o ex-secretário de Estado da Saúde foi escolhido para figurar
numa obra sobre a excelência em medicina pelo papel desempenhado na inversão das taxas de mortalidade materna e infantil em Portugal

O homem conhecido como o "pai" do planeamento familiar em Portugal, o antigo secretário de Estado da Saúde Albino Aroso, é o único português a figurar num livro recentemente lançado pela Associação Médica Mundial (AMM), naquela que é uma selecção dos 65 médicos "mais dedicados" do mundo. Foi um dos sete filhos do ginecologista que ontem divulgou a notícia à Lusa, apesar de a obra ter sido apresentada há mais de um mês, em Santiago do Chile, e de a notícia ter passado despercebida em Portugal. Pedro Aroso adiantou que o pai foi escolhido pelo júri da AMM (que agrega 84 associações profissionais de clínicos de todo o mundo e é conhecida por emitir recomendações éticas), depois de a Ordem dos Médicos (OM) portuguesa ter indicado três nomes para o efeito.
"Pediram-nos que sugeríssemos o nome de três médicos que, no século XX, se destacaram pela sua qualidade e do ponto de vista social", explicou ao PÚBLICO o bastonário Pedro Nunes. Para além de Albino Aroso, a OM indicou Linhares Furtado, pioneiro dos transplantes hepáticos, e Jacinto Simões, que introduziu a hemodiálise e o transplante renal no país.
Os candidatos foram entrevistados e avaliados por um júri e Albino Aroso acabaria por ser o escolhido para figurar no livro, devido ao papel que desempenhou na inversão das taxas de mortalidade materna e infantil em Portugal - que se encontrava na cauda da Europa e hoje está entre os melhores, à frente de países como a Inglaterra, a França e os EUA. Em nenhuma outra área da saúde no país se atingiram indicadores tão bons. Graças a isto, Portugal tornou-se "num case-study", lembra Pedro Nunes.
No livro, enviado para várias entidades e recentemente posto à venda, o ginecologista português surge ao lado de médicos como o espanhol Pedro Alonso, nomeado pelo seu trabalho no desenvolvimento da vacina contra a malária, e de Jasuhiko Morioka, cirurgião que fez uma operação ao último imperador japonês. São 65 médicos de 55 países. "Apesar das enormes diferenças de circunstâncias e contextos, todos são um claro exemplo das três tradições mais duradouras da profissão médica: humanismo, ética e ciência", explica a AMM.
Aos 82 anos, Albino Aroso diz que recebeu a notícia com surpresa e, irónico, sugere que a razão da escolha talvez tenha sido a idade. "Sou o mais velho...". Mas não disfarça o orgulho pelos indicadores obtidos, ainda que destaque o papel do grupo de trabalho criado em 1987 - a Comissão de Saúde Materno-Infantil.
O certo é que, na qualidade de secretário de Estado da Saúde por duas vezes, produziu legislação determinante para alterar o panorama nesta área, nomeadamente a Lei do Planeamento Familiar, em 1976. E, sete anos antes, abrira já no Hospital Geral de Santo António a primeira consulta pública de planeamento familiar.
Reformado há 13 anos do Serviço Nacional de Saúde, o médico permaneceu sempre muito activo. Continuou a dar consultas até ao princípio deste ano e, há três anos, voltou a ser nomeado presidente da Comissão de Saúde Materna Neo-Natal, cargo de que pediu a demissão este ano. Agora tem mais tempo para dedicar a uma das suas grandes paixões, cuidar das "orquídeas, camélias e buganvílias" em Guilhabreu, Vila do Conde, onde tem uma quinta. Mas não desiste da intervenção pública.