sexta-feira, outubro 28, 2005

Zeitgeist

por Vasco Pulido Valente, 28 de Outubro de 2005

O mal foi Bruxelas. Não falando inglês, fatalmente farto dos portugueses, perto de Paris, Mário Soares ficou entregue à esquerda francesa, a facção política mais perniciosa e estúpida do Ocidente. Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Soares voltou mais radical, obcecado com a "Europa" e antiamericano até a uma espécie de ódio pessoal a Bush. Terça-feira, no manifesto e na conferência de imprensa, lá saiu a lengalenga do PC (do "politicamente correcto", claro está): a "coesão", o direito à diferença, o horror obrigatório ao "neoliberalismo" e a angústia do beato com a santíssima "União", agora supostamente "à deriva" e sem "rumo" certo. Não que isto tenha qualquer importância ou que Belém não pudesse curar. Mas mostra que Soares (como, aliás, Louçã, Jerónimo e até Cavaco) não vê ou não percebe a falência absoluta da social-democracia, ou seja, do igualitarismo e do Estado protector, e continua decididamente num outro mundo.
Não esqueceu nada e aprendeu o que não devia. O que também é óbvio na tentativa para reproduzir a campanha de 85-86. Primeiro, no esforço para ligar Cavaco a um "messianismo revanchista" e à "subversão do regime"; e, segundo, no absurdo apelo ao "laço afectivo", que imaginariamente o une ao país. Para bem dele, espero que não persista nesse caminho. Mesmo diluído, o "antifascismo" já não pega, e menos contra o respeitoso e respeitável Cavaco; e o país, falando francamente, já não o conhece. Supor que a memória o ajudará é errar sobre o essencial, porque a essência do espírito do tempo é precisamente a falta de memória. Se Soares não acredita, pergunte hoje a Santana ou amanhã a Carrilho.
E nem vale a pena perguntar a estranhos. Basta que pense na extraordinária aparição de Alegre, que ninguém, nem o próprio Alegre, consegue explicar. Um homem que na prática acabou em 76 e que as sondagens põem à frente dele? Como? Porquê? Porque Alegre passa por poeta e escreve letras de fados; porque a pose, a ênfase, a mediocridade o fazem popular; porque ele pertence a um universo demótico, a uma "praça da canção", a que Soares não pertence e nunca pertenceu; e, sobretudo, porque uma parte do Partido Socialista e arredores, que detesta Sócrates, prefere perder com a "boa imagem" de apoiante de Alegre a perder com a "má imagem" que lhe daria o candidato oficial e convencional Soares. É o Zeitgeist, que Soares não compreende, nem partilha.