segunda-feira, outubro 31, 2005

Turismo religioso minhoto perde para Porto e Santiago

JN, 30 de Outubro de 2005

Solução deve passar por um plano que associe a religiosidade à cultura Estudioso defende criação de "cluster" termal para captar visitantes do Norte da Europa

Com resultados aquém das expectativas, os promotores do turismo religioso procuram formas de contornar a crise que também atinge o sector. Ontem, realizaram-se em Braga as Jornadas luso-galaicas de turismo cultural e religioso, promovidas por uma entidade (Turel) que congrega elementos das Igreja, do comércio e do turismo. Fácil foi chegar à conclusão que a região minhota está a perder visitantes para o Porto e Santiago de Compostela. O património religioso do Minho não tem sido bem preservado e a oferta assenta ainda em pressupostos antigos, mas a partilha de experiências e a apreensão das melhores técnicas desenvolvidas na Galiza, podem revitalizar os santuários minhotos.
"O sul da Galiza e o norte de Portugal podem assumir-se como uma região interessante do ponto de vista do turismo termal, capaz de atrair turistas do norte da Europa." A afirmação foi proferida por Xosé Santos Solla, director do Centro de Estudos Turísticos de Santiago de Compostela. Mas falta uma acção congregada em estratégias comuns. Nas diferentes posturas de promoção turística, além do forte investimento em acções no estrangeiro, a Galiza desenvolveu uma nova lei para o sector e apostou forte na formação. O Caminho de Santiago afigura-se como o principal "produto" a vender, dando origem ao fenómeno Jacobeu, em 1993.
E o sucesso galego bem deve ser aproveitado por Portugal. Como considera Vítor Ambrósio, da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, o "turismo religioso apenas é interessante enquanto integrado no turismo cultural". Em Espanha, o também denominado "turismo espiritual", enquadra-se nos percursos culturais. São um complemento.
É que os grandes operadores turísticos europeus e mesmo mundiais, colocam as visitas ao Minho como "facultativas". O Porto tem vindo a assumir-se como o principal destino e a deslocação aos templos minhotos aparece como opção num dos dias livres do programa.
Porque, "nas cidades-santuário, quem estabelece as prioridades é a Igreja", lembrou Vítor Ambrósio, a oferta deve cativar os visitantes, através de programas complementares que fixem as pessoas na região.
Nessa contextualização, Vítor Ambrósio até exemplificou com os problemas que encontram sistematicamente os operadores em celebrar serviço religioso em Braga.
"Os grupos de turistas vinham por aqui e tentávamos proporcionar um serviço religioso, mas havia sempre dificuldades. Fosse na Sé ou no Bom Jesus". Durante a semana, na Sé, há celebração litúrgica às 8,30 horas, às 11,30 e às 17,30. Ao domingo esta última é substituída pela das 18, com uma missa suplementar às 19,30 horas.

Fixar turistas na região
Entre as ideias avançadas pelos participantes nas jornadas, surge a necessidade de criar programas que obriguem à fixação dos turistas na região. O exemplo de Fátima, com as procissões de velas nocturnas foram avançadas.
Entre os operadores presentes em Braga, houve quem defendesse a necessidade de estabelecer acções conjuntas, com percursos regionais onde a oferta seja aliciante e haja um interesse comum em bem receber os turistas. "Não podemos continuar a defender o nosso cantinho. Temos de pensar de forma global."

Defendido itinerário entre Fátima e Santiago


É no Minho onde se situam muitos dos santuários marianos existentes no país, distribuindo-se por zonas de montanha (como o da Senhora da Peneda, em Arcos de Valdevez) e espaços urbanos. De modo a revitalizar este património, o presidente da Região de Turismo do Alto Minho, Francisco Sampaio, aludiu à criação de um itinerário religioso que ligasse Fátima a Santiago de Compostela, percurso esse que privilegiasse os santuários.

Considerando tratar-se de proposta "há muito formulada", disse que os interessados optariam, assim, por circuitos paralelos, em detrimento das estradas nacionais, "onde se verificam, todos os anos, acidentes com peregrinos". Ao precisar que o número de romarias marianas realizadas este ano na área de abrangência da Comissão Regional de Turismo (13 municípios) "foi superior" ao do ano passado, disse que cabe, também, aos operadores turísticos a dinamização do circuito destinado ao turismo religioso. Segundo disse, de um total de 892 festas realizadas, este ano, na região, 343 decorreram em santuários marianos.

Também apostados em divulgar o património da região e, com isso, dinamizar o sector turístico, estão os municípios do Vale do Minho, que relançam o programa "Rio de Emoções". A proposta, que estará em vigor até meados do próximo ano (com descontos de até 20% na hotelaria e 10% na restauração), compreende visitas a locais de interesse religioso, caso da dezena de igrejas e capelas que integram o Roteiro do Românico da Ribeira Minho, templos esses que foram construídos entre os séculos X e XIII.