segunda-feira, outubro 03, 2005

Memória curta

João Cândido da Silva
in Público, 30 de Setembro de 2005

Francisco Assis já foi vítima de violência por motivos políticos. O rasto de intolerância e incivilidade deixado pelos seus agressores, durante uma visita a Felgueiras, causou justa indignação e repugnância na mesma proporção dos elogios que se escutaram e escreveram sobre a coragem e a dignidade demonstradas na altura pelo actual líder socialista do Porto. Por já ter sofrido na pele um vexame inadmissível num regime democrático, Assis deveria, também, ter sido o primeiro a condenar de forma veemente o triste episódio em que Rui Rio se viu envolvido esta semana durante a visita a um bairro da cidade.
É verdade que o candidato do PSD se terá precipitado ao acusar o PS de ter agitado o ambiente fazendo-o aquecer até ao ponto de degenerar em tentativas de agressão. Dificilmente se imagina que um dirigente com as responsabilidades de Francisco Assis nas estruturas socialistas se possa considerar culpado directo do que sucedeu. Mas a completa ausência de espírito democrático por parte de apoiantes e militantes que comprometem, com as suas bandeiras e autocolantes, a imagem de todo um partido, devia merecer dos respectivos dirigentes uma condenação enérgica e inequívoca. Nada disto sucedeu.
No momento em que era suposto revelar a sua expectável revolta pelo episódio, Assis optou pelo contra-ataque, ameaçando Rui Rio com um processo e exigindo provas das acusações que proferiu. Quando se esperava que ajudasse a arrefecer os ânimos, optou por lançar mais achas para a fogueira. Em campanha eleitoral não deve valer tudo o que aparente ser um factor de enfraquecimento do adversário. Mas Francisco Assis não esteve à altura dos acontecimentos, nem do respeito que lhe foi legitimamente reconhecido quando ele próprio se viu ameaçado pela fúria popular. No mínimo, a memória do dirigente socialista é muito curta.


Parece mas não é

anuel Alegre hesitou no anúncio da sua candidatura à Presidência da República, alegando que os partidos decidem tudo, não deixando qualquer espaço para iniciativas que surjam à margem das opções dos seus dirigentes. Depois de muitos ziguezagues, acabou por avançar, queixando-se, desde logo, do facto de não poder contar com qualquer máquina partidária para apoiar a sua campanha. Em todo este processo, o grande drama de Manuel Alegre é fácil de perceber. Quer aparecer como alguém que surge na corrida liberto das lógicas asfixiantes que se tem dedicado a denunciar. Mas, no fundo, aquilo que mais teria apreciado seria uma declaração de apoio do PS, com a consequente colocação do respectivo aparelho de propaganda ao serviço dos seus objectivos eleitorais.
Não deixa de espantar que Alegre revele tanta mágoa por um sistema de funcionamento da democracia portuguesa que conhece por dentro. É militante histórico de um dos partidos que, para o bem e para o mal, maior influência teve no desenho do sistema partidário nacional, sabe o que significa a expressão "disciplina partidária" e conhece a estreita margem de manobra que este princípio impõe sobre quem a ele voluntariamente se sujeite.
Também não deve ser surpresa para o deputado socialista que agora entrou na competição pelo Palácio de Belém que, quando se trata de decidir sobre quem mandar a votos, as direcções partidárias preferem os candidatos que lhes parece terem hipóteses de ganhar, secundarizando qualquer outra razão de escolha. Um previsível mau presidente, mas que se apresente com a aparência de bom candidato, é preferível à hipótese inversa, quando, na óptica de quem decide, não é possível fazer o pleno nos dois critérios. Impera a perspectiva de que os partidos existem para ganhar eleições. Ao apoiar Mário Soares, a liderança do PS limitou-se a fazer a sua aposta no ensinamento da velha máxima.
O discurso crítico de Manuel Alegre em relação às fracas possibilidades competitivas de quem decida correr por sua conta e risco acompanhou as suas indecisões. O deputado perdeu o tempo de reacção que poderia ter mobilizado apoios e, embora as sondagens indiquem que seria capaz de fazer melhor figura do que Soares numa eventual segunda volta contra Cavaco Silva, a sua solidão parece evidente. A disciplina persegue-o. Na sequência do anúncio de que estava na disposição de se lançar na batalha, os notáveis do PS que compareceram a jantares de apoio apressaram-se a revelar que, no fim de contas, obedeceriam aos ditames do partido.
Se Manuel Alegre precisava de mais provas de que a direcção do seu partido é que manda, não poderia ter encontrado melhores provas. Afinal, os indícios estavam sentados mesmo ao seu lado durante os repastos que lhe foram alimentando a ilusão de poder contar com apoios com impacto público como Vera Jardim, Maria de Belém ou Alberto Martins. Na política, por vezes aquilo que parece não é.
A constipação
da Autoeuropa

fábrica de Palmela da Volkswagen perdeu a corrida para a produção de um novo modelo da marca e a Yahoo! decidiu não instalar a sua sede na zona franca da Madeira. Os motivos que justificam estas opções são diversos. No primeiro caso, uma feroz competição interna entre unidades de produção da multinacional teve um desfecho que deixa interrogações sobre o futuro de uma empresa que tem um peso elevado na economia portuguesa. Na segunda situação, razões puramente fiscais, ligadas ao aumento da taxa normal do IVA para 21 por cento, estiveram na base da escolha do Luxemburgo. Em ambos os casos, o país ficou a contar com mais dois exemplos que ilustram a incapacidade actual para conquistar novos projectos.
Os temas foram notícia esta semana, poucos dias antes de ficar a saber-se que Portugal tinha registado uma evolução positiva na classificação global do World Economic Forum (WEF) sobre a competitividade. Teoricamente, o país estaria mais atraente para o investimento estrangeiro, mas a realidade prática mostra-se contraditória com aquela conclusão. Desafiado a comentar a questão, Fernando Teixeira dos Santos, actual ministro das Finanças, mostrou-se prudente ao declarar haver ainda um longo caminho a percorrer. Fez bem. Por detrás da boa notícia incluída no relatório do WEF permanecem os mesmos obstáculos de sempre ao objectivo de fazer do país um destino favorito para quem tenha planos de investimento.
No topo dos entraves está o Estado e a sua máquina burocrática, sempre disponível para erguer ineficiências, demoras e atrasos onde eles são absolutamente dispensáveis. Uma maioria relativa dos gestores e empresários inquiridos pelo WEF identifica este mal crónico do país como o principal factor de desmotivação para quem pretenda montar um negócio em território nacional. E colocam esta situação à frente de matérias como a rigidez da legislação laboral ou a fraca qualificação dos recursos humanos em relação a concorrentes que, neste ponto específico, não só se revelam mais bem preparados, como até apresentam menores custos.
Caso se junte a estes alertas o facto de um trabalho da consultora Ernst & Young ter revelado que o sistema judicial e a instabilidade das políticas são dois outros fortes empecilhos ao aumento do interesse dos investidores estrangeiros por Portugal, fica completo o quadro de problemas que necessitam de ser ultrapassados se o país quiser reduzir a perigosa sensibilidade que demonstra a tudo o que se passa na Autoeuropa. Se a empresa se constipa, o país fica ameaçado de contrair uma pneumonia. O que mais impressiona é que nada disto é novo ou desconhecido.
Jornalista