segunda-feira, outubro 03, 2005

Jardim instrumentaliza na Madeira único jornal estatizado do país

TOLENTINO DE NÓBREGA, Público, 1 de Outubro de 2005

Presidente do governo regional "orienta" Jornal da Madeira nos ataques aos seus adversários políticos e na promoção da sua imagem

"Mando-lhe umas notas", "trate o assunto como puder". A ordem sai da Quinta Vigia, sede da presidência do Governo Regional, directamente para o Jornal da Madeira (JM), assinada por Alberto João Jardim com "um abraço e obrigado" ao director adjunto do matutino.
"Lembra-se do que combinámos sobre a estratégia da antecipação?", pergunta o presidente madeirense num cartão pessoal, datado de 9 de Fevereiro de 2001, e que tem apensas as instruções para os ataques a desferir contra determinados alvos políticos.
Entre os visados estão uma sua parente que - considerada "completamente maluca, é mesmo doente, como outros casos de família, infelizmente" - entrara em ruptura com o PSD de que era militante, e um seu antigo colaborador indefectível, que agora trata por "execrável "empregado doméstico" (para não dizer outro nome)".
A preparar o lançamento da sua própria candidatura à liderança do PSD e a Belém, o governante insular pede que o jornal "denuncie" estar a ser "preparado ataque feroz - a Jardim e governo regional" - nele envolvendo "jornais, rádios, revistas e TV dos grupos Lusomundo (coronel Silva [sócio de Blandys no Diário de Notícias funchalense] e na TSF [local], mantida apesar de projecto economicamente falhado), Balsemão, Pais do Amaral e Belmiro".
A cabala - a recordar outras atribuídas a Bush (pai), Maçonaria e Trilateral, inventadas na Madeira quando se debatia a existência do "défice democrático" na região - surgiria, segundo o memorando presidencial, devido às "posições de Jardim na denúncia da oposição PSD e CDS serem uma montagem destes grupos económicos editoriais que apoiam o governo do Partido Socialista, bem como contra a Maçonaria".
Uma vez lançado o fantasma do "inimigo externo", Jardim pede para que se sugira em tais textos que "uma vitória nas regionais, pode dar novo fôlego para uma investida no Continente contra o jogo montado para o controlo do país - razão do incómodo que a Madeira constitui".
Na sua estratégia de "vitimização" para lhe "dar novo fôlego", o governante solicita a referência a "dez meses de ataque permanente, com o apoio dos conhecidos "correspondentes", encarregando-se o Diário de Notícias, a RTP/Madeira, a RDP/Madeira e a TSF, dirigida por um primo do eng. David Caldeira, de "transcrever" no território madeirense as cabalas editadas em Lisboa".
Na sua "estratégia de antecipação", recomenda que o jornal refira que "o congresso do PSD-Madeira, em Março e nos moldes avançados [incluindo uma espécie de "estados gerais"], colheu de surpresa adversários, pelo que houve que antecipar a "mobilização nacional anti-Jardim", incluindo com acções do PCP sobre o terreno, já para o fim do ano, que começaram com a Meia Serra", numa referência ao pedido de inquérito àquela estação de tratamento de resíduos, que viria a ser recusado pelo PSD no parlamento. Com a demissão de Guterres e a subida de Barroso ao governo, Jardim viu gorado o seu plano que abria o caminho da sucessão a Cunha e Silva antes das regionais de 2004.

"Dá uma porrada
ao ministro"...
Especialista em "acção psicológica" no serviço militar, Jardim recorre também ao seu assessor de imprensa, Paulo Pereira, para transmitir as suas instruções ao antigo órgão da diocese funchalense, de que foi director, por nomeação do bispo Francisco Santana, entre 1974 e 1978, ano em que ascende à presidência do Governo Regional. Sobre uma fotocópia de um artigo do PÚBLICO (26/9/2001), intitulado A "sujeira" segundo Santana Lopes, o referido assessor de Jardim escreve que "o sr. Presidente pede para que o jornal publique estas denúncias do Pedro Santana Lopes", sobre a alegada falta de transparência de sondagens desfavoráveis à sua candidatura, pedindo que seja feita "referência ao DN/Madeira, que também recorre aos serviços desta empresa de sondagens".
"Caro amigo, vê se publicas esta "história" dando uma porrada no ministro da Saúde. Este texto confirma o ódio e o desprezo deste governo socialista pelos madeirenses", escreve o assessor de Jardim noutra missiva dirigida à chefia do JM, recomendando "atenção: não divulgues a origem destes documentos". Quando Correia de Campos (casado com uma madeirense familiar do chefe de gabinete de Jardim) voltou ao Governo, por discordar do curso de Medicina na Madeira, o presidente insular comentou que o ministro "se calhar até se engana nas pastilhas que toma". Outras "porradas" dadas surgem no cartoon Boca Pequena que o JM publica diariamente com textos de Jardim contra adversários politícos e jornalistas, ilustrados por Élia Faias, sob o pseudónimo Urtigas.

Directores comentem
desvios editoriais
Ao ser indigitado novo director do jornal, em Abril de 2005, o jornalista Henrique Correia garantiu perante a Alta-Autoridade para a Comunicação Social - à qual compete emitir parecer sobre a nomeação de directores de órgãos de comunicação pertencentes ao Estado - que enquanto assumiu interinamente tal cargo "não foi submetido a quaisquer pressões ou interferências com vista a violar a independência da sua actividade, quer por parte da diocese do Funchal, quer por parte do Governo Regional". Anteriormente, quando foi exonerado do cargo de director adjunto, em Maio de 2002, Rui Fino reconheceu perante aquele mesma entidade a falta de autonomia e de independência do jornal perante o poder regional, relacionando a sua destituição "com os dois anos de continuadas, intoleráveis e insuportáveis pressões" do vice-presidente do governo, com a tutela de comunicação social.
Também ao cessar funções em Abril de 2000, Tomé Veloza, o último director sacerdote, confirmou os desvios ao estatuto editorial do jornal "criado pela diocese, essencialmente, como instrumento de evangelização". O JM "já não é católico" e "podia viver sem os apoios do governo", denunciou.

Oposição contra
"jardinização" do JM
Receando que idêntica "governamentalização" ou "jardinização" ocorra na RTP e RDP locais - que a serem "transformados em espaços de propaganda do governo" colocariam em causa "o pluralismo, rigor e objectividade, bem como a sua independência perante os poderes públicos, a que o serviço público de rádio e televisão estão constitucionalmente vinculados" -, partidos da oposição rejeitaram a regionalização destes centros acordada entre Jardim e Durão Barroso, processo entretanto congelado pelo actual Governo da República.
O "desejo de intervencionismo e condicionamento do conteúdo editorial", por parte de Jardim, tem sido igualmente condenado pela direcção regional do Sindicato dos Jornalistas, segundo o qual "não estão reunidas as condições democráticas e de liberdade de informação mínimas para o Executivo madeirense assumir a tutela" daquelas empresas. "Só nos regimes ditatoriais é que os presidentes dos governos interferem nos critérios editoriais e impõem a censura aos jornalistas", justifica.