sexta-feira, outubro 28, 2005

E se desistisse?

por Eduardo Prado Coelho - o fio do horizonte - Público, 28 de Outubro de 2005

De acordo com a sondagem publicada ontem pela Marktest (DN, TSF), Cavaco Silva terá num primeira volta 48,8%, Alegre terá 13,8%, Soares 10,3 % e Louçã, ultrapassando Jerónimo de Sousa, 5,3% (mais um ponto o primeiro do que o segundo). Numa segunda volta, os resultados são bastante curiosos: na hipótese de Cavaco/Alegre, o primeiro tem 57,2% e o segundo 29,6%. Se fosse Cavaco/Soares, daria 60 % a Cavaco contra 21,6% de Soares.
Embora apoiante explícito de Alegre desde a primeira hora, vou tentar pegar nestes temas com a maior objectividade. A verdade é que todos nós temos a mais viva admiração por Soares. É um homem que teve um papel decisivo em múltiplas circunstâncias da vida portuguesa, que cumpriu as suas funções nos mais elevados cargos do país, e que, depois, não se deixou adormecer, manteve-se vivo, activo, promovendo colóquios, publicando livros, escrevendo artigos, participando em programas de televisão ou em debates públicos. Mas devemos dizer mais: manteve-se extremamente actualizado, seguiu posições da alterglobalização, compreendeu a política de Sócrates, a quem tinha feito (como eu próprio) críticas iniciais, desenvolveu uma ideia da Europa e reforçou o seu prestígio internacional.
Daí que ninguém entendesse muito bem o que o levou agora a candidatar-se. Na versão de Miguel Veiga (que não é a que eu tenho), teria sido Sócrates a implorar-lhe que fosse candidato, dado que as sondagens de Alegre seriam desastrosas, Nessas circunstâncias, Soares dispôs-se a candidatar-se.
Seja como for, se alguma vez se pensou que Soares era a resolução de um problema do PS, hoje é evidente que não. Pelo contrário, Soares é o maior problema que o PS tem. Porque, se a candidatura entusiasma alguns bonzos do PS, orquestrados pela batuta agitada de Jorge Coelho, provoca o maior cepticismo no homem comum, e não suscita o menor entusiasmo na maior parte das pessoas. Eles são sensíveis à sensação do déjà vu e à questão da idade. E as confusões que Soares sempre fez e que as pessoas até achavam graça tornaram-se inquietantes, porque mais do que palavras sobre o país as pessoas querem rigor. Antigamente, trocar o porta-voz pelo mandatário passava sem consequências, mas agora aparece como um indício de que a idade tem destas coisas.
A convicção mítica de que em campanha Soares arranca e ninguém o agarra tem um desmentido óbvio: quanto mais aparece mais perde votos nas sondagens (quatro pontos percentuais de Setembro para cá). Soares faz um percurso ao contrário. Cada aparição em público confirma o que já se sabia. O que leva muita gente, incluindo altos responsáveis do PS, a colocarem a questão: não seria melhor desistir? Todos aqueles que admiram a personalidade de Soares e que querem o melhor resultado para a esquerda e o PS dirão que sim. Mesmo que alguns ainda não tenham a coragem de dizer o que já começaram a pensar. Professor universitário