sexta-feira, outubro 28, 2005

Cavaco, vintage 2005

por José Manuel Fernandes, Público, 28 de Outubro de 2005

Cavaco disse que não quer governar, antes fortalecer as condições da governabilidade. Ao lado de Sócrates...

Tal como Mário Soares, o principal activo e o principal problema de Cavaco Silva é os portugueses conhecerem-no muito bem. E, por o conhecerem muito bem, é natural que se interroguem: como actuará em Belém, sendo eleito, um "homem que faz"? Ou, por outras palavras, como se adaptará alguém que sempre preferiu realizar, dirigir, num lugar sem poderes executivos?
O candidato presidencial procurou ontem responder a estas dúvidas - e, também, à linha de ataque dos seus adversários, que o acusam de querer exorbitar os poderes que a Constituição estipula para o Presidente da República. Fê-lo a três níveis.
Primeiro, reafirmando o que já parece tomar forma como lema da campanha: repetindo a frase "eu não me resigno". É um mote que tem condições para encaixar no actual estado de espírito do país e é coerente com a imagem de teimosia e persistência que, no passado, marcou, para o pior e para o melhor, o seu longo consulado como primeiro-ministro.
Depois, detalhando, de uma forma muito mais clara do que Mário Soares, qual a sua visão do futuro do país. Era algo que não podia deixar de fazer, já que de alguém como Cavaco não se pode esperar apenas uma atitude, mas também um programa. Mas é simultaneamente algo que lhe levanta um problema: onde é que termina a "visão" - ou, como lhe chamou, a sua "ambição" - e começa um programa de acção equiparável a um programa de Governo? O caminho que escolheu foi o de se colocar no lugar geométrico dos consensos, isto é, o de apresentar como ambições aquilo que a grande maioria dos portugueses subscreve sem dificuldade. Não propôs medidas, preferiu antes falar de desígnios e de grandes objectivos, na sua grande maioria, senão na totalidade, facilmente sobreponíveis a boa parte dos programas do PS e do PSD. Esqueceu a ideologia? Deixou de ser quem era? No fundo, não. Cavaco Silva é mais social-democrata - no sentido europeu do termo, que o aproxima mais do socialismo do que do liberalismo - do que muitos pensam, e assim actuou enquanto foi primeiro-ministro. E Cavaco sabe, como o país sabe, que no Governo o PS e o PSD têm sido muito mais parecidos do que diferentes, bastando para tal olhar para o primeiro orçamento de Ferreira Leite e para o que actualmente está em discussão. Por outras palavras: o que Cavaco ontem procurou desenhar com o seu manifesto foi o perfil de um candidato "de todos os portugueses", isto é, retratar-se como o Presidente que antes de o ser já o é.
Por fim, ocupou-se da explicitação do que é a sua visão dos poderes presidenciais, repetindo a sua fidelidade à Constituição mas acrescentando detalhes importantes. O principal deles foi o de afirmar que o Presidente não tem só de ser um "moderador", um "árbitro", um "ouvidor" ou até um "mobilizador", termos de Soares que nunca citou mas a quem respondeu por contraponto: para ele, não cabe apenas ao Presidente "evitar crises políticas e expressar solidariedade e cooperação institucional aos outros órgãos de soberania", mas "desenvolver uma cooperação estratégica com a Assembleia da República e com o Governo, de modo a assegurar a coerência, a consolidação e a clarificação das grandes linhas de orientação política exigidas pela realização dos objectivos nacionais".
Esta é, porventura, a principal novidade do seu discurso. Corresponde à promessa de que, não querendo governar, quer criar condições acrescidas de governabilidade. E dela se infere que se propõe colaborar com José Sócrates, ajudá-lo porventura. Aqui assume o risco quer de recusar a alguns dos seus apoiantes a esperança de que os levará de volta ao poder, quer de alimentar a discussão sobre os poderes do Presidente. Contudo, o que disse não soou a falso. Soou a Cavaco.