segunda-feira, outubro 31, 2005

Apostar na cultura e no ambiente

Céu Salazar, JN, 30 de Outubro de 2005

Mário de Almeida tomou ontem posse para o seu sétimo e último mandato à frente da Câmara Municipal de Vila do Conde. Um perídodo em que reivindicará o estatuto de "Município da Cultura e do Ambiente", direccionando as políticas locais no sentido do conhecimento e da inovação.
"Vila do Conde tudo merece. Orgulhosa do seu passado histórico e do seu pujante presente, aposta no futuro, visando potenciar as condições existentes, que nos transformarão no Município da Cultura e do Ambiente, direccionando-o no sentido do conhecimento e da inovação", disse o autarca, durante o dicurso.
Será o seu sétimo e último mandato, como disse o autarca, perante uma plateia de centenas de vilacondenses, que assistiram à tomada de posse dos novos órgãos do município, marcada pela entrada de dois novos vereadores, Pacheco Ferreira e Victor Costa.
Mário de Almeida ainda não definiu a distribuição de pelouros, algo que só vai acontecer na reunião de Câmara, marcada para a próxima quinta-feira, mas tem já definido o programa.
"Somos um município com uma actividade cultural relevante, fruto do trabalho das nossas associações e com iniciativas de grande envergadura, que projectam o nome do concelho além fronteiras", justificou.
Quanto ao ambiente, compromete-se a finalizar "um objectivo de longa data, a rede de abastecimento de água e a drenagem de efluentes, transformar a degradada Reserva Ornitológica de Mindelo numa Área de Paisagem Protegida, com características nacionais ou regionais e que permita o lazer e a formação".
O autarca recordou os projectos em curso a intervenção do metro, com as obras de inserção urbana; a requalificação da zona ribeirinha e da frente marítima da cidade; e a construção do novo centro de saúde.
Lembrou ainda a crise económica que o país atravessa e os seus reflexos para as finanças locais, "limitando a nossa capacidade de intervenção". Contudo, mostrou-se convicto que obras como o Hospital da Póvoa/Vila do Conde, a esquadra para uma secção da PSP, os quartéis para a GNR e as novas escolas E.B. 2,3 e Secundária terão luz verde do Governo.

Turismo religioso minhoto perde para Porto e Santiago

JN, 30 de Outubro de 2005

Solução deve passar por um plano que associe a religiosidade à cultura Estudioso defende criação de "cluster" termal para captar visitantes do Norte da Europa

Com resultados aquém das expectativas, os promotores do turismo religioso procuram formas de contornar a crise que também atinge o sector. Ontem, realizaram-se em Braga as Jornadas luso-galaicas de turismo cultural e religioso, promovidas por uma entidade (Turel) que congrega elementos das Igreja, do comércio e do turismo. Fácil foi chegar à conclusão que a região minhota está a perder visitantes para o Porto e Santiago de Compostela. O património religioso do Minho não tem sido bem preservado e a oferta assenta ainda em pressupostos antigos, mas a partilha de experiências e a apreensão das melhores técnicas desenvolvidas na Galiza, podem revitalizar os santuários minhotos.
"O sul da Galiza e o norte de Portugal podem assumir-se como uma região interessante do ponto de vista do turismo termal, capaz de atrair turistas do norte da Europa." A afirmação foi proferida por Xosé Santos Solla, director do Centro de Estudos Turísticos de Santiago de Compostela. Mas falta uma acção congregada em estratégias comuns. Nas diferentes posturas de promoção turística, além do forte investimento em acções no estrangeiro, a Galiza desenvolveu uma nova lei para o sector e apostou forte na formação. O Caminho de Santiago afigura-se como o principal "produto" a vender, dando origem ao fenómeno Jacobeu, em 1993.
E o sucesso galego bem deve ser aproveitado por Portugal. Como considera Vítor Ambrósio, da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, o "turismo religioso apenas é interessante enquanto integrado no turismo cultural". Em Espanha, o também denominado "turismo espiritual", enquadra-se nos percursos culturais. São um complemento.
É que os grandes operadores turísticos europeus e mesmo mundiais, colocam as visitas ao Minho como "facultativas". O Porto tem vindo a assumir-se como o principal destino e a deslocação aos templos minhotos aparece como opção num dos dias livres do programa.
Porque, "nas cidades-santuário, quem estabelece as prioridades é a Igreja", lembrou Vítor Ambrósio, a oferta deve cativar os visitantes, através de programas complementares que fixem as pessoas na região.
Nessa contextualização, Vítor Ambrósio até exemplificou com os problemas que encontram sistematicamente os operadores em celebrar serviço religioso em Braga.
"Os grupos de turistas vinham por aqui e tentávamos proporcionar um serviço religioso, mas havia sempre dificuldades. Fosse na Sé ou no Bom Jesus". Durante a semana, na Sé, há celebração litúrgica às 8,30 horas, às 11,30 e às 17,30. Ao domingo esta última é substituída pela das 18, com uma missa suplementar às 19,30 horas.

Fixar turistas na região
Entre as ideias avançadas pelos participantes nas jornadas, surge a necessidade de criar programas que obriguem à fixação dos turistas na região. O exemplo de Fátima, com as procissões de velas nocturnas foram avançadas.
Entre os operadores presentes em Braga, houve quem defendesse a necessidade de estabelecer acções conjuntas, com percursos regionais onde a oferta seja aliciante e haja um interesse comum em bem receber os turistas. "Não podemos continuar a defender o nosso cantinho. Temos de pensar de forma global."

Defendido itinerário entre Fátima e Santiago


É no Minho onde se situam muitos dos santuários marianos existentes no país, distribuindo-se por zonas de montanha (como o da Senhora da Peneda, em Arcos de Valdevez) e espaços urbanos. De modo a revitalizar este património, o presidente da Região de Turismo do Alto Minho, Francisco Sampaio, aludiu à criação de um itinerário religioso que ligasse Fátima a Santiago de Compostela, percurso esse que privilegiasse os santuários.

Considerando tratar-se de proposta "há muito formulada", disse que os interessados optariam, assim, por circuitos paralelos, em detrimento das estradas nacionais, "onde se verificam, todos os anos, acidentes com peregrinos". Ao precisar que o número de romarias marianas realizadas este ano na área de abrangência da Comissão Regional de Turismo (13 municípios) "foi superior" ao do ano passado, disse que cabe, também, aos operadores turísticos a dinamização do circuito destinado ao turismo religioso. Segundo disse, de um total de 892 festas realizadas, este ano, na região, 343 decorreram em santuários marianos.

Também apostados em divulgar o património da região e, com isso, dinamizar o sector turístico, estão os municípios do Vale do Minho, que relançam o programa "Rio de Emoções". A proposta, que estará em vigor até meados do próximo ano (com descontos de até 20% na hotelaria e 10% na restauração), compreende visitas a locais de interesse religioso, caso da dezena de igrejas e capelas que integram o Roteiro do Românico da Ribeira Minho, templos esses que foram construídos entre os séculos X e XIII.

domingo, outubro 30, 2005

Entrevista a Rui Rio

JN, 30 de Outubro de 2005

Carla Sofia Luz, Pedro Ivo Carvalho e Rafael Barbosa

Rui Rio foi reeleito com maioria absoluta. Na sua primeira entrevista evita esclarecimento sobre o futuro presidente da Junta Metropolitana, deixa antever que Valentim Loureiro deverá continuar à frente da Metro, realça a coragem de Sócrates, rejeita eleições no PSD e abre a porta a negociações sobre as construções no Parque da Cidade.

[Jornal de Notícias] Durante a campanha não pediu maioria absoluta. Ficou surpreendido com o resultado?

[Rui Rio] Não pedi maioria absoluta porque não achei que as pessoas votariam em função disso. Mas estava à espera dela.

Um dos seus apoiantes, o escritor Mário Cláudio, dizia no JN que tinha ficado satisfeito com a sua vitória, mas não com a sua dimensão absoluta, por impedir a diversidade…

Quando li isso telefonei-lhe para o sossegar (risos). O pressuposto só estaria correcto se a oposição olhasse sempre para os interesses da cidade.

Defendeu muitas vezes uma alteração à lei eleitoral para que os executivos pudessem ser monocolores. Uma forma de contornar o "incómodo" provocado pela oposição?

Não tenho nada contra o facto da oposição estar no executivo, mas não deve ser maioritária. Pode estar presente, ter acesso à informação, intervir, ter um papel fiscalizador, mas não, através do voto, inviabilizar as medidas de um executivo.

Mas isso não é desvirtuar o poder local, retirar-lhe alguma da sua vocação de proximidade democrática?

Não acho que seja mais democrático por estar mais próximo. Na República Portuguesa também há um Conselho de Administração, que é o Governo, e uma Assembleia Geral, onde estão os representantes dos 10 milhões de "accionistas". Deve haver um órgão executivo e um órgão parlamentar.

Outra das leituras que se pode fazer da sua maioria absoluta é a de que também sai reforçado como líder regional. Tem vontade de presidir à Junta Metropolitana do Porto (JMP)?

Não vou dizer nada sobre a próxima JMP. A solução deve ser encontrada pelos autarcas com tranquilidade. Sublinho, no entanto, que as pessoas exageram naquilo que é o papel desta JMP. Toda a gente sabe que não tem poderes nem orçamento. É sobretudo um espaço de diálogo.

Se a JMP tivesse mais poder seria mais atractiva, é isso?

Também temos de ter em atenção que haverá um limite a partir do qual não fará sentido que o presidente da JMP acumule com a presidência de uma Câmara, mesmo que não haja eleições directas.

Valentim Loureiro já fez saber, discretamente, que o seu mandato na presidência da Metro do Porto só termina em 2007. Acha que ele tem condições políticas para continuar?

Essa questão não é fácil, porque interagem dois factores: o político e o empresarial. Há um mandato em curso e tem de ser respeitado. Embora a eventual saída de Narciso Miranda possa levar a tomar decisões…

Acha que vai conseguir explicar a Marques Mendes por que é que os autarcas do PSD mantêm a confiança em Valentim Loureiro, tendo em conta, nomeadamente, os insultos que ele dirigiu ao líder do PSD na noite das eleições autárquicas?

Se eu começar a dar a minha opinião sobre essas matérias estou a dar um péssimo contributo para uma solução serena.

Partilha da opinião de Filipe Menezes de que os autarcas devem unir-se e serem inflexíveis nas negociações com o Governo sobre a gestão da empresa?

Este modelo de gestão está bem como está.Mas se o Governo tiver uma alternativa não devemos tapar os ouvidos. A contestação que se ouviu teve mais a ver com a campanha. Passadas as eleições, há condições para acertar o diálogo. O único problema são constrangimentos de carácter financeiro, dado o estado das finanças públicas. Mas acho que o Governo percebeu que em torno do metro há uma grande sintonia dos autarcas. É uma bandeira da Área Metropolitana.

Já teve resposta de José Sócrates ao desafio que lhe lançou sobre o túnel de Ceuta?

Já tive oportunidade para falar longamente com o ministro do Estado (António Costa) e um pouco com o primeiro-ministro. As conversas correram bem.

Isso quer dizer que as partes vão ceder qualquer coisa?

Ninguém ganha com a situação presente. Significa que há um ambiente para resolver o problema. Antes das eleições, não havia vontade de o solucionar. O "buraco" propriamente dito vamos fazer o mais depressa possível. Mas não está só na minha mão. Vamos ver…

Se conhecesse a factura pesada que a Câmara pode pagar pela revogação das frentes urbanas no Parque da Cidade, voltaria a tomar essa decisão?

Tinha de revogar. Quanto mais não fosse por uma questão de seriedade. Havia uma unanimidade entre os candidatos contra as construções no Parque da Cidade naquelas circunstâncias.

Onde é que a Câmara vai buscar dinheiro para pagar as indemnizações? As avaliações, feitas por peritos judiciais, apontam para um custo de 23 milhões só pela expropriação de dois terrenos...

Naturalmente que é um custo muito pesado para a Câmara do Porto. Mas não posso eliminar as acções. Estou sujeito ao valor que o tribunal vier a estipular.

Admite negociar uma solução intermédia com as empresas?

Houve já alguns contactos ao longo deste tempo no sentido de encontrarmos uma solução. E espero que haja mais.

Fora dos tribunais?

Sim, sim.

Mas continua a dar a garantia de que não vai haver construções no Parque da Cidade?

É uma garantia que tem de ser entendida de uma forma equilibrada e com bom-senso. Quando digo que não há construções, estou a referir-me à especulação imobiliária. Não estou a imaginar, mas pode haver um qualquer pormenor, um remate… Neste mandato tenho condições para tentar uma solução.

Acha que é altura de lançar o debate que nunca foi feito?

Vou dar uma resposta arriscada: admita que aparecem outros pressupostos que me levem a equacionar outro raciocínio. É evidente que para chegarmos a outra solução, tinha sempre de passar pelo maior debate que alguma vez foi feito no Porto.

Dada a polémica surgida após as declarações de Paulo Morais sobre as pressões no Urbanismo, não seria mais sensato ter assumido o pelouro neste mandato?

Não. A questão das declarações resume-se a um problema de gestão de campanha eleitoral. Em campanha não há seriedade para nada. Temas de grande importância e polémica devem ser evitados. Entendo que, em Portugal, devíamos combater a corrupção de forma mais eficaz e, neste mandato, vou ter atenção a esse problema.

Por que escolheu um especialista em Educação, Lino Ferreira, para o Urbanismo?

O que falta ao Urbanismo do Porto é organização. O perfil de Lino Ferreira dá-nos garantias, porque ao longo da sua vida geriu serviços. É sobretudo isso que está em causa e não ser técnico de Urbanismo.

É verdade que vai pedir aos serviços jurídicos para reavaliar alguns dos processos urbanísticos mais polémicos?

Não sei quais são, mas o que acontecerá é que, se há pessoas que sentem que estão a ser lesadas, não deixarão de falar com este vereador.

Como analisa o que está a passar-se com a Casa da Música?

A forma como foi gerido o processo nos últimos sete meses [desde a tomada de posse do novo Governo] foi muito negativa. Mas vou ficar aquém daquilo que me apetecia dizer, porque podem pensar que só pretendo atacar politicamente a ministra da Cultura. O actual Governo arrastou a situação, destruiu o que estava feito e não construiu uma solução alternativa e, ainda por cima, quebrou a relação com os parceiros privados. Neste momento não há Conselho de Administração, há uma Comissão Liquidatária, sem quórum para reunir. O director artístico já terminou o contrato em Setembro, mas mantém-se no cargo para que as coisas possam funcionar. Desconfio que há alguma intenção política de haver controlo governamental da Casa da Música. Vai resultar em mais um instituto público em que o Governo colocará uns amigos do Partido Socialista.

Se desconfia que isso vai acontecer, o que vai fazer para o impedir?

Não tenho poder para o impedir. A única intervenção que posso ter é política. Vou procurar que o modelo de gestão seja semelhante ao que estava prevista, equivalente ao de Serralves. Se a ideia for criar uma empresa pública para colocar mais uns amigos e uns militantes socialistas, na altura própria direi qualquer coisa.

Dado o actual contexto político - maioria PSD nas autarquias e previsível vitória nas presidenciais - ainda faz sentido testar a liderança de Marques Mendes e promover eleições directas?

Tenho a consciência de que estou em minoria, mas não faz sentido, nem directa nem indirectamente. Não sou favorável a eleições directas porque o partido não está capaz de responder com eficácia. Teria de haver cadernos eleitorais em todas as concelhias, regras iguais para todos...

Está a querer dizer que, com eleições directas, ganharia, não o melhor candidato, mas o que melhor controlasse as estruturas partidárias?

Não nos podemos esquecer que, ainda hoje, infelizmente, as pessoas se queixam, no PS como no PSD, que há militantes que pagam quotas de outras militantes, que alguns nem sabem que ainda são militantes... As regras não são claras nem são cumpridas.

Mas faz sentido questionar a liderança de Marques Mendes?

Não, não faz, mesmo que a vitória nas autárquicas não tivesse sido tão clara. Não era ele que estava em causa em caso de vitória, como não seria em caso de derrota. Mas se o quiserem fazer - até porque a minha posição não deve valer mais do que 20% do partido -, não deveria ser através de eleições directas.

Já deu conta dessa opinião a Luís Filipe Menezes, que continua a dar sinais de que vai recandidatar-se?

Ele tem uma posição diferente. Presumo, porque não sei se continua com intenções de se recandidatar.

Ou seja, se Menezes avançar, não vai apoiá-lo?

Essa pergunta…. (risos) tem a ver com a necessidade de criar a ruptura num ambiente em que tem havido um esforço de parte a parte no sentido de as coisas funcionarem melhor….

… "sim" ou "não"…

Respondo-lhe de uma forma simples: se estou a dizer que não faz sentido que se questione a liderança de Marques Mendes de forma nenhuma, se por acaso a quisessem questionar, eu apoio o dr. Marques Mendes. Independentemente de quem for o candidato, porque não faz sentido criar instabilidade.

Um apoio que será extensível até 2009, ou o trunfo Manuela Ferreira Leite não deve ser descartado da equação?

Se as coisas correrem normalmente, e eu espero que corram, será Marque Mendes o líder do partido nessa altura. Se não for é porque alguma coisa menos boa aconteceu ao PSD.

E Rui Rio dava um bom candidato a primeiro-ministro?

Não sei o que é que Rui Rio dava, mas vou lembrar-lhes que acabei o curso e fui dez anos economista, depois fui dez anos deputado e agora vou ser oito anos presidente da Câmara do Porto, um ciclo que…

… que curiosamente acaba em 2009, ano de eleições legislativas...

Pois, mas também é ano de eleições autárquicas...

Nas sua últimas intervenções tem optado por um discurso mais nacional. Está ou não apostado em alargar a sua influência política?

Faço um discurso mais nacional porque o presidente da Câmara do Porto é mais um parceiro nacional do que um líder regional. Deve ser alguém que cuida dos problemas do Porto, mas que tenha um discurso e influência nacionais. É a minha lógica.

José Sócrates está a ser um primeiro-ministro corajoso?

Há medidas que, gostemos ou não delas, requerem coragem. Seria hipócrita se não o dissesse.

É um bom primeiro-ministro?

Não, isso também não. Pode ser-se corajoso e não se ser um bom primeiro-ministro. Na componente coragem, merece nota positiva. Muita gente concorda com muitas das medidas do Governo, discorda é daquelas que lhe tocam a si. Mas dou nota má à forma como o Governo geriu, quer a relação com a cidade do Porto, quer a questão orçamental. José Sócrates fez promessas na campanha que sabia não serem exequíveis. Não foi eleito para executar a política que agora propõe.

sexta-feira, outubro 28, 2005

O sebastianismo

Francisco José Viegas, in JN, 28 de Outubro de 2005

O dr. Soares acha, com discutível sinceridade, que há por aí um "sebastianismo revanchista de Direita" que ameaça a nossa existência e que pode, portanto, subverter o essencial do regime. Não é só ele a dizê-lo. A lengalenga vai ser repetida durante semanas.

Na verdade, o "sebastianismo revanchista de Direita" existe no discurso do dr. Soares e de alguma parte mais obsoleta dos seus apoiantes. O papão vai ser agitado sem parcimónia. Se ele existir, deve combater-se com palavras, e devem ser palavras duras, escolhidas - não importa que não queiram dizer nada, ou que não tenham correspondência na realidade, desde que causem esse efeito irremediável de estarmos perante um perigo fatal. Com um bom inimigo pela frente, o combate será mais vibrante; à falta dele, invente-se um.

O que pretende o "sebastianismo revanchista de Direita"? Subverter o regime, derreter o semipresidencialismo, castigar os portugueses, ameaçar a liberdade, acabar com a "coesão social". Ora, ninguém acredita numa única das ameaças, a começar pelos próprios. Vivemos num país normal em que há um governo que resulta de uma maioria absoluta no Parlamento e cuja taxa de aprovação é bastante superior à média dos últimos cinco anos; José Sócrates só não renovará o mandato se malbaratar esse capital de confiança. Vamos a pormenores as aulas começaram a horas e a contestação social (leiam os jornais europeus) não é maior do que a registada em outros países da União; a guerra das corporações profissionais cessará, mais tarde ou mais cedo, quer por meios legais quer por falta de apoio popular (fundamental para a sua visibilidade); o Orçamento de Estado vai, necessariamente, passar na Assembleia com críticas da Esquerda e da Direita; o agravamento da taxa de desemprego estará muito próximo dos índices de países próximos; o "combate ao défice" é uma realidade incontornável de qualquer programa de Governo por muito que a expressão esteja gasta e adulterada. Existem as chamadas questões endémicas e históricas: os números dramáticos da pobreza, a taxa de alfabetização, os problemas da produtividade e a reforma e modernização da Administração Pública. Para isso, existem os governos e existe o tempo.

O dr. Soares não pode, com honestidade, repetir a afirmação de que, se não fosse dar-se o caso de Portugal ser membro da União Europeia, os militares já tinham organizado um golpe. Foi uma brincadeira, todos acreditam. Mas a vida não está para brincadeiras, por muito que se possa apreciar a herança que o ex-presidente da República deixou ao fim de dois mandatos e de uma vida dedicada à política. Sinceramente, quase ninguém sucumbe a ameaças desse género. A dramatização, a invocação permanente da ameaça do fascismo, a má-fé contra Cavaco e a sua demonização, as acusações de "saudosistas de Salazar", são argumentos de sociedade recreativa e não merecem ser usados por alguém com a sua biografia.

O discurso de Mário Soares foi o anúncio de um novo tipo de sebastianismo a declaração de que vem para unir os portugueses e para nos salvar de uma catástrofe. Só que poucos acreditam no desenho dessa catástrofe. E, quanto a estarmos todos unidos, parece-me um exagero.

P.S. Almeida Santos dizia, à TSF, que Cavaco tinha sido bom primeiro-ministro, mas que não tinha nenhuma experiência como presidente da República; isso era mau. Pelo contrário, Mário Soares tinha dois mandatos como presidente da República, o que significava mais experiência; e que isso era bom para "a mudança". Não sei o que mais hão-de inventar.

Greve? Qual greve?

João Miguel Tavares, in DN, 28 de Outubro de 2005

Professores em greve transtorna. Camionistas em greve chateia. Médicos em greve incomoda. Juízes em greve? Aborrece, com esforço, um ministro, e recebe a mais olímpica indiferença por parte do resto da população.

A justiça fazer greve em Portugal é uma redundância e, por isso, uma decisão pouco inteligente. OK, fica tudo parado durante dois dias - e então? Se fossem dois anos, talvez algum cidadão mais arguto, que tivesse um processo a correr nos tribunais, pudesse concluir após longa reflexão "isto está a atrasar um bocadinho". Agora, dois dias, ou até dois meses, são uma pinga de água no imenso oceano de atrasos, incompetências e má organização da nossa máquina judicial.

Há um mês escrevi aqui um texto crítico sobre os efeitos desta anunciada greve na justiça, que deu origem a uma longa resposta, muito simpática mas indignada, de uma magistrada. Ela dizia recusar-se a ser "bode expiatório de um sistema que está inquinado", acusava-me de "ideias preconcebidas e desrespeito pelas instituições" - duas grandes verdades - e aconselhava-me a investigar mais antes de emitir opiniões públicas.

Eu segui o conselho e fui investigar. Cheio de empenho, lancei-me às 137 páginas do relatório sobre o sistema judicial europeu elaborado pela Comissão Europeia para a Eficiência da Justiça (encontra-se em www.coe.int/cepej), que traça comparações entre dezenas de países. Aí descobri, por exemplo, estes dois factos deliciosos 1) Portugal tem 14,9 juízes por 100 mil habitantes, mais do triplo da Inglaterra (esse país subdesenvolvido). 2) Entre 33 países europeus analisados, Portugal é, de longe, aquele que, tendo em conta o salário médio, melhor paga aos seus juízes. Isto são números oficiais. Lidos, digeridos, investigados. A justiça portuguesa é efectivamente privilegiada. O que nós lhe pagamos é muito, mas muito mais do que aquilo que ela nos está a oferecer.

E se desistisse?

por Eduardo Prado Coelho - o fio do horizonte - Público, 28 de Outubro de 2005

De acordo com a sondagem publicada ontem pela Marktest (DN, TSF), Cavaco Silva terá num primeira volta 48,8%, Alegre terá 13,8%, Soares 10,3 % e Louçã, ultrapassando Jerónimo de Sousa, 5,3% (mais um ponto o primeiro do que o segundo). Numa segunda volta, os resultados são bastante curiosos: na hipótese de Cavaco/Alegre, o primeiro tem 57,2% e o segundo 29,6%. Se fosse Cavaco/Soares, daria 60 % a Cavaco contra 21,6% de Soares.
Embora apoiante explícito de Alegre desde a primeira hora, vou tentar pegar nestes temas com a maior objectividade. A verdade é que todos nós temos a mais viva admiração por Soares. É um homem que teve um papel decisivo em múltiplas circunstâncias da vida portuguesa, que cumpriu as suas funções nos mais elevados cargos do país, e que, depois, não se deixou adormecer, manteve-se vivo, activo, promovendo colóquios, publicando livros, escrevendo artigos, participando em programas de televisão ou em debates públicos. Mas devemos dizer mais: manteve-se extremamente actualizado, seguiu posições da alterglobalização, compreendeu a política de Sócrates, a quem tinha feito (como eu próprio) críticas iniciais, desenvolveu uma ideia da Europa e reforçou o seu prestígio internacional.
Daí que ninguém entendesse muito bem o que o levou agora a candidatar-se. Na versão de Miguel Veiga (que não é a que eu tenho), teria sido Sócrates a implorar-lhe que fosse candidato, dado que as sondagens de Alegre seriam desastrosas, Nessas circunstâncias, Soares dispôs-se a candidatar-se.
Seja como for, se alguma vez se pensou que Soares era a resolução de um problema do PS, hoje é evidente que não. Pelo contrário, Soares é o maior problema que o PS tem. Porque, se a candidatura entusiasma alguns bonzos do PS, orquestrados pela batuta agitada de Jorge Coelho, provoca o maior cepticismo no homem comum, e não suscita o menor entusiasmo na maior parte das pessoas. Eles são sensíveis à sensação do déjà vu e à questão da idade. E as confusões que Soares sempre fez e que as pessoas até achavam graça tornaram-se inquietantes, porque mais do que palavras sobre o país as pessoas querem rigor. Antigamente, trocar o porta-voz pelo mandatário passava sem consequências, mas agora aparece como um indício de que a idade tem destas coisas.
A convicção mítica de que em campanha Soares arranca e ninguém o agarra tem um desmentido óbvio: quanto mais aparece mais perde votos nas sondagens (quatro pontos percentuais de Setembro para cá). Soares faz um percurso ao contrário. Cada aparição em público confirma o que já se sabia. O que leva muita gente, incluindo altos responsáveis do PS, a colocarem a questão: não seria melhor desistir? Todos aqueles que admiram a personalidade de Soares e que querem o melhor resultado para a esquerda e o PS dirão que sim. Mesmo que alguns ainda não tenham a coragem de dizer o que já começaram a pensar. Professor universitário

Cavaco, vintage 2005

por José Manuel Fernandes, Público, 28 de Outubro de 2005

Cavaco disse que não quer governar, antes fortalecer as condições da governabilidade. Ao lado de Sócrates...

Tal como Mário Soares, o principal activo e o principal problema de Cavaco Silva é os portugueses conhecerem-no muito bem. E, por o conhecerem muito bem, é natural que se interroguem: como actuará em Belém, sendo eleito, um "homem que faz"? Ou, por outras palavras, como se adaptará alguém que sempre preferiu realizar, dirigir, num lugar sem poderes executivos?
O candidato presidencial procurou ontem responder a estas dúvidas - e, também, à linha de ataque dos seus adversários, que o acusam de querer exorbitar os poderes que a Constituição estipula para o Presidente da República. Fê-lo a três níveis.
Primeiro, reafirmando o que já parece tomar forma como lema da campanha: repetindo a frase "eu não me resigno". É um mote que tem condições para encaixar no actual estado de espírito do país e é coerente com a imagem de teimosia e persistência que, no passado, marcou, para o pior e para o melhor, o seu longo consulado como primeiro-ministro.
Depois, detalhando, de uma forma muito mais clara do que Mário Soares, qual a sua visão do futuro do país. Era algo que não podia deixar de fazer, já que de alguém como Cavaco não se pode esperar apenas uma atitude, mas também um programa. Mas é simultaneamente algo que lhe levanta um problema: onde é que termina a "visão" - ou, como lhe chamou, a sua "ambição" - e começa um programa de acção equiparável a um programa de Governo? O caminho que escolheu foi o de se colocar no lugar geométrico dos consensos, isto é, o de apresentar como ambições aquilo que a grande maioria dos portugueses subscreve sem dificuldade. Não propôs medidas, preferiu antes falar de desígnios e de grandes objectivos, na sua grande maioria, senão na totalidade, facilmente sobreponíveis a boa parte dos programas do PS e do PSD. Esqueceu a ideologia? Deixou de ser quem era? No fundo, não. Cavaco Silva é mais social-democrata - no sentido europeu do termo, que o aproxima mais do socialismo do que do liberalismo - do que muitos pensam, e assim actuou enquanto foi primeiro-ministro. E Cavaco sabe, como o país sabe, que no Governo o PS e o PSD têm sido muito mais parecidos do que diferentes, bastando para tal olhar para o primeiro orçamento de Ferreira Leite e para o que actualmente está em discussão. Por outras palavras: o que Cavaco ontem procurou desenhar com o seu manifesto foi o perfil de um candidato "de todos os portugueses", isto é, retratar-se como o Presidente que antes de o ser já o é.
Por fim, ocupou-se da explicitação do que é a sua visão dos poderes presidenciais, repetindo a sua fidelidade à Constituição mas acrescentando detalhes importantes. O principal deles foi o de afirmar que o Presidente não tem só de ser um "moderador", um "árbitro", um "ouvidor" ou até um "mobilizador", termos de Soares que nunca citou mas a quem respondeu por contraponto: para ele, não cabe apenas ao Presidente "evitar crises políticas e expressar solidariedade e cooperação institucional aos outros órgãos de soberania", mas "desenvolver uma cooperação estratégica com a Assembleia da República e com o Governo, de modo a assegurar a coerência, a consolidação e a clarificação das grandes linhas de orientação política exigidas pela realização dos objectivos nacionais".
Esta é, porventura, a principal novidade do seu discurso. Corresponde à promessa de que, não querendo governar, quer criar condições acrescidas de governabilidade. E dela se infere que se propõe colaborar com José Sócrates, ajudá-lo porventura. Aqui assume o risco quer de recusar a alguns dos seus apoiantes a esperança de que os levará de volta ao poder, quer de alimentar a discussão sobre os poderes do Presidente. Contudo, o que disse não soou a falso. Soou a Cavaco.

Zeitgeist

por Vasco Pulido Valente, 28 de Outubro de 2005

O mal foi Bruxelas. Não falando inglês, fatalmente farto dos portugueses, perto de Paris, Mário Soares ficou entregue à esquerda francesa, a facção política mais perniciosa e estúpida do Ocidente. Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és. Soares voltou mais radical, obcecado com a "Europa" e antiamericano até a uma espécie de ódio pessoal a Bush. Terça-feira, no manifesto e na conferência de imprensa, lá saiu a lengalenga do PC (do "politicamente correcto", claro está): a "coesão", o direito à diferença, o horror obrigatório ao "neoliberalismo" e a angústia do beato com a santíssima "União", agora supostamente "à deriva" e sem "rumo" certo. Não que isto tenha qualquer importância ou que Belém não pudesse curar. Mas mostra que Soares (como, aliás, Louçã, Jerónimo e até Cavaco) não vê ou não percebe a falência absoluta da social-democracia, ou seja, do igualitarismo e do Estado protector, e continua decididamente num outro mundo.
Não esqueceu nada e aprendeu o que não devia. O que também é óbvio na tentativa para reproduzir a campanha de 85-86. Primeiro, no esforço para ligar Cavaco a um "messianismo revanchista" e à "subversão do regime"; e, segundo, no absurdo apelo ao "laço afectivo", que imaginariamente o une ao país. Para bem dele, espero que não persista nesse caminho. Mesmo diluído, o "antifascismo" já não pega, e menos contra o respeitoso e respeitável Cavaco; e o país, falando francamente, já não o conhece. Supor que a memória o ajudará é errar sobre o essencial, porque a essência do espírito do tempo é precisamente a falta de memória. Se Soares não acredita, pergunte hoje a Santana ou amanhã a Carrilho.
E nem vale a pena perguntar a estranhos. Basta que pense na extraordinária aparição de Alegre, que ninguém, nem o próprio Alegre, consegue explicar. Um homem que na prática acabou em 76 e que as sondagens põem à frente dele? Como? Porquê? Porque Alegre passa por poeta e escreve letras de fados; porque a pose, a ênfase, a mediocridade o fazem popular; porque ele pertence a um universo demótico, a uma "praça da canção", a que Soares não pertence e nunca pertenceu; e, sobretudo, porque uma parte do Partido Socialista e arredores, que detesta Sócrates, prefere perder com a "boa imagem" de apoiante de Alegre a perder com a "má imagem" que lhe daria o candidato oficial e convencional Soares. É o Zeitgeist, que Soares não compreende, nem partilha.

Bastas razões de vergonha

por Miguel Sousa Tavares, Público, 28 de Outubro de 2005

1. "Democraticamente" absolvida nas urnas, como era de esperar, a D.ª Fátima Felgueiras está agora em vias de se ver alijada dos seus problemas judiciais, como também era de esperar. A senhora merece que se lhe tire o chapéu: fez uma sábia gestão dos seus trunfos e dos seus timings e, entre a demissão cívica do seu povo e a demissão institucional da justiça, descobriu o caminho para a impunidade. "Dei uma lição ao país!", exclamou ela, triunfante, na noite de 9 de Outubro. E deu mesmo. A lição foi esta: o único crime que não se perdoa é o da falta de esperteza.
O Tribunal da Relação de Guimarães liquidou, de facto, o processo de Fátima Felgueiras, mandando refazer o essencial da instrução e, com isso, remetendo o julgamento para as calendas do ano vindouro. Os desembargadores de Guimarães entenderam que o Ministério Público e o juiz de instrução não fizeram senão asneiras na construção da acusação: as escutas telefónicas são ilegais porque o juiz não as foi validando dentro de "um prazo razoável", e os principais testemunhos acusatórios são nulos porque os depoentes foram ouvidos como testemunhas e não como arguidos, como o deveriam ter sido (e embora, posteriormente, ouvidos como arguidos, tenham confirmado o que haviam dito antes). Pouco importa, todavia, o conteúdo de umas e outras provas: para a justiça portuguesa, a fórmula é tudo, a substância é um estorvo.
Longe de mim - valha-me Deus! - contestar a lógica irrebatível dos argumentos dos senhores desembargadores de Guimarães. Limito-me a observar que uma magistratura passou aqui um atestado de incompetência à outra e que tudo se encaminha, uma vez mais, para que os formalismos processuais conduzam à denegação de justiça. Mas, juntas e unidas nas suas lamentações, ambas as magistraturas estão em greve contra o "desprestígio" que o Governo lança sobre elas.
Parece que a redução das férias de Verão dos magistrados de dois para um mês e a supressão do regime especial de saúde de que beneficiavam, em troca do regime geral, afectam gravemente as "condições de independência" da classe e indiciam mesmo uma tentativa de controlo político sobre a justiça. Ouvido pela TSF, o presidente do Sindicato dos Juízes, Baptista Coelho, esclareceu que, enquanto órgão de soberania, os magistrados se batem pela sua independência; e, enquanto "carreira profissional", estão em greve por condições privilegiadas de dependência do Estado. Fiquei esclarecido - como, aliás, fico sempre que o dr. Baptista Coelho e o dr. Cluny, do Sindicato do Ministério Público, expõem as suas razões. Talvez alguém com mais senso lhes devesse explicar que o país já não é assim tão estúpido quanto eles imaginam.
2. Preparada "durante um ano", ensaiada ao pormenor, de véspera e por mais de 60 pessoas envolvidas, a "mega-operação" de "flagra" sobre a banca cobriu-se de ridículo à nascença. Numa operação capaz de abalar todo o sistema bancário, onde tudo deveria ser tratado com pinças e total discrição, logo a abrir, as autoridades apresentaram-se no primeiro banco sem um mandado de busca em condições; depois, mandaram-no vir por fax para o próprio banco a rebuscar, esquecendo-se de apagar do cabeçalho o nome dos restantes alvos a surpreender e das suspeitas que sobre eles recaíam. Como é óbvio, meia hora depois, Lisboa inteira já sabia o que estava em curso, e, perante tão chocante incompetência dos seus serviços, o senhor procurador-geral da República não encontrou melhor maneira de disfarçar a vergonha do que mandar instaurar um processo por violação do segredo de justiça... aos jornalistas!
Digamo-lo tranquilamente: num país a sério, o senhor procurador-geral e a senhora procuradora adjunta que dirigiu a operação teriam apresentado a sua demissão ou estariam demitidos no dia seguinte. Aqui, estão em greve, pelo seu "prestígio" e, sobretudo, para que ninguém ouse beliscar esta santa impunidade funcional de que gozam e a que gostam de chamar "independência".
3. Nomeados pelo governo PSD, alguns administradores da CP e outros da Refer descobriram a fórmula genial de se porem ao abrigo das flutuações políticas e garantirem um emprego de futuro, muito para além dos três anos normais dos mandatos dos gestores públicos: os da CP foram nomeados para o quadro da Refer, com o cargo de directores e o lugar reservado até saírem da CP, e os da Refer fizeram o mesmo na CP.
Descoberta a esperteza, chamados a explicarem-se e instaurados os respectivos processos de averiguações, os senhores administradores mantiveram a bola baixa, a ver se a coisa passava. Mas, concluídas as averiguações e na iminência de um despedimento com mais do que justa causa, os da Refer convocaram uma conferência de imprensa para despejar o saco: o que fizeram tratava-se de "um processo normal", que, aliás, tinham tido o cuidado de validar previamente junto do Partido Socialista, então oposição, e da senhora que depois viria a ser a secretária de Estado da tutela, no governo PS. Em seu entender, estaríamos assim perante um "saneamento pessoal e político", inclusive confirmado por suspeitíssimas informações circulando entre a Refer, o governo PS e as suas autarquias - de que só agora lhes ocorrera suspeitar.
À noite, e depois de grandes cerimónias, o ministro despediu-os de vez. Mas eu aposto, infelizmente, que, por irregularidades processuais ou qualquer outro pretexto espúrio, e devidamente escudados em "pareceres" dos mestres de Direito sempre disponíveis, as vítimas hão-de ver a razão ser-lhes reconhecida por algum tribunal e tudo isto há-de acabar na conta dos contribuintes. Salve-se, ao menos, o desabafo: que país sem vergonha!
4. Está aberta a época sazonal de um desporto típico da cena portuguesa: a caça ao intelectual/artista/músico/jornalista/desportista, por ocasião das presidenciais.
De cinco em cinco anos, aí temos a lista, actualizada diariamente, das novas adesões aos candidatos. É um espectáculo digno de lástima: nomes consagrados, nomes ainda na infância da arte e nomes de absolutos desconhecidos ou falhados sem remissão possível acotovelam-se para ganhar meia linha de destaque no jornal do dia. Nunca percebi por que é que esta gente - a que tem valor - não é capaz de ficar quieta em casa e sente uma tamanha compulsão de aderência, como se o facto de o seu nome não constar de lista alguma fosse sinal de morte prematura. Ó, senhores artistas, intelectuais, desportistas: guardem-se para o 10 de Junho! Jornalista

terça-feira, outubro 25, 2005

'French factory' surgeon cuts NHS queues

Jonathon Carr-Brown, Health Correspondent-Sunday Times, 23rd October 2005

A SURGEON in the National Health Service has more than doubled his work rate by introducing a French-style “production line” under which he carries out overlapping operations in different theatres.

John Petri, a consultant orthopaedic surgeon, introduced the system after finding himself frustrated at spending time “drinking tea” while patients were being made ready for operations at his Norfolk hospital.

He operates on one patient while the next is prepared in a second theatre. Petri moves on to the second patient while leaving a junior to finish the first. By the time the second operation is nearing completion, a third patient is waiting for him in the original theatre.

The system enables him to perform as many as five hip and knee replacements in a single shift, compared with one or two typically carried out by surgeons who use one theatre. They have to stop and wait after each operation for the next patient to be prepared.

Petri’s initiative has been welcomed by his hospital managers who believe it could become a model to cut NHS waiting lists. It is being shunned, however, by his colleagues some of whom, he believes, may be deterred by “the sheer hard work” involved in the new system.

Petri, who is Italian and has worked extensively in France, moved to Britain in 1994. “It took me some time to understand how the British system worked but I could not understand why it had waiting lists. When I asked, people would talk about resources. What I saw was that surgeons spent chunks of their time idle waiting to operate,” he said.

“If you were running a factory, you wouldn’t allow your most important and most expensive machine to stand idle. The same is true in a hospital.”

He persuaded his chief executive to carry out a trial of his “dual operating” idea in 2001 and to build a new theatre.

Petri convinced anaesthetists and theatre staff to change the way they worked but was unable to persuade fellow surgeons to join the initiative. He now operates for five hours at a time instead of the standard 3½-hour session.

He uses two anaesthetists so there is always another patient waiting for him and the gap between operations is the five minutes that it takes to scrub himself down. He believes the system has reduced the time he is idle by between 40% and 60%.

Petri has been nominated for the 2005 Medical Futures Innovation Awards by his hospital, the James Paget healthcare trust in Gorleston, Great Yarmouth.

David Hill, chief executive of the trust, said that for a small increase in costs it was now able to treat many more patients. “This won’t work in every speciality but Petri’s approach is leading to discussions throughout the trust,” he said.

“What is important is that clinicians like Petri produce innovative ideas and we demonstrate that they are effective.”

Trial figures show that over 50 operating sessions, Petri performed 270 major and minor operations using the dual theatre system. Two colleagues using the traditional single theatre approach together performed only 225 operations.

Petri can now operate on patients within two weeks of their first consultation. “I don’t drink tea between operations any more. My waiting list is zero,” he said.

Across the NHS similar productivity growth could reduce waiting lists and help the government to meet its 18-week treatment target. At present the 1,530 NHS orthopaedic surgeons each have about 140 patients waiting three to nine months for surgery.

There could be drawbacks for surgeons employing Petri’s methods. As his NHS waiting list has been cut, so the incentive for patients to employ him privately has diminished.

He estimates that his private income has fallen 10% in the past year and he expects it to fall further next year.

Petri said: “I care about my private practice but I care more about people who have no money getting their operation tomorrow and not having to wait a year.”

A survey by the British Medical Association found that one in eight consultants earned at least £100,000 a year from private practice. Anne Moore, of the Royal College of Surgeons, said lack of resources meant “dual operating” was not always viable: “There is nothing to stop surgeons operating Petri’s system. In America surgeons move between as many as 12 theatres but in the UK there are not enough anaesthetists, theatres or other staff to make it work.”

domingo, outubro 23, 2005

PCP da Póvoa de Varzim diz que Governo quer "deitar ao lixo" a construção de novo hospital

Ângelo Teixeira Marques, in Público, 23 de Outubro de 2005

Comunistas vão propor alterações para garantir verbas para esta e outras obras, como a de recuperação do molhe-sul do porto de pesca

A Concelhia da Póvoa de Varzim do PCP acusou ontem o Governo de se preparar para deixar cair a construção de um novo hospital que substitua a unidade local e a de Vila do Conde. O líder da secção comunista e deputado na Assembleia da República, Jorge Machado, frisou que, na proposta do Plano de Investimentos e Despesas para o Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC), o Ministério da Saúde "não inscreveu um cêntimo" para essa unidade hospitalar que constituiu "uma promessa na última campanha autárquica do Partido Socialista nos dois concelhos".
Uma dessas iniciativas no recente período eleitoral foi inclusive caucionada por Maria de Belém Roseira, que enquanto ministra da Saúde do Governo de António Guterres concordou com a premência de serem substituídas as duas unidades que estão instaladas em edifícios antigos e apertados. Foi feito o programa funcional do futuro hospital, criado um centro hospitalar (conselho de administração único), o arquitecto Tomás Taveira chegou a executar o anteprojecto do edifício e as verbas necessárias foram, na ocasião, inscritas no PIDDAC. Os Governos do PSD desistiram de avançar com um hospital estritamente público, passando a incluí-lo no lote das dez novas unidades de iniciativa público-privada, mas o actual ministro ordenou a elaboração de um estudo para que seja estabelecida uma lista de prioridades das novas construções.
"O ministro prepara-se para deitar ao lixo o projecto", acusa Jorge Machado, que, na conferência de imprensa de ontem, considerou que a fatia destinada à Póvoa na proposta de PIDDAC do próximo ano (325 mil euros para o centro de emprego e obras em escolas) é um "valor vergonhoso". José Rui Ferreira, líder da bancada da CDU na assembleia municipal, exemplificou com uma imagem: "Só dá para pagar meia escola".
O concelho está no penúltimo lugar do PIDDAC distrital e Jorge Machado anunciou que na discussão na especialidade vai propor, entre outros assuntos, a inscrição de verbas para o hospital, para a recuperação do molhe-sul do Porto da Póvoa (reivindicada também pelo executivo social-democrata), para a aquisição de um veículo auto-escada dos bombeiros, para diversas construções como um heliporto para auxílio da comunidade piscatória e um novo quartel da GNR.

Autarca de Vila do Conde minimiza PIDDAC
A Câmara de Vila do Conde, liderada pelo socialista Mário Almeida, afirmou em comunicado que o PIDDAC para a Área Metropolitana do Porto "traduz a realidade económica e financeira do país, havendo uma contenção que afecta tudo e todos". Ainda assim, a edilidade está convicta de que, em Vila do Conde, a "diminuição de verbas é aparente, já que há obras em curso que vão exigir elevados recursos financeiros por parte do Governo". A esse propósito, Mário Almeida exemplifica com os trabalhos na zona ribeirinha, no centro de saúde, em escolas e jardins-de-infância e destaca três "intervenções fundamentais": o Centro Educativo de Santa Clara, que libertará o mosteiro para ser adaptado a uma pousada, o investimento no Laboratório de Investigação Veterinária, que contribui "para que Vila do Conde seja um núcleo importantíssimo no distrito do Porto", e as beneficiações na quinhentista igreja matriz.
O autarca acrescenta, contudo, que a câmara vai "continuar a insistir na necessidade de serem edificadas" escolas na zona sul do concelho e a nova esquadra - prevista há quase uma década - da PSP.

terça-feira, outubro 18, 2005

Estará o poder político refém do poder judicial?

António Marinho e Pinto, Público, 20 de Outubro de 2005

E se algumas destacadas figuras políticas tivessem sido demandadas criminalmente só para tornar o poder político refém dessa circunstância? A instauração desses processos não seria a melhor forma de a corporação judicial se preparar para o combate que se avizinhava, contra as inevitáveis reformas na justiça portuguesa? Poderá o poder político levar a cabo essas reformas, quando alguns políticos estão ou estiveram envolvidos em processos judiciais?

Num recente debate na RTP sobre a justiça em Portugal (Prós e Contras do dia 3 de Outubro), o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) afirmou que as medidas decretadas pela actual maioria política sobre a justiça eram uma retaliação contra o poder judicial por este ter demandado criminalmente algumas destacadas figuras do Partido Socialista.
O autor das insinuações ainda tentou recuar, perante a indignação que elas suscitaram no ministro da Justiça (presente no debate) e a estupefacção de muitos dos presentes, incluindo a própria moderadora do programa. Pretendeu, então, fazer crer que as insinuações não eram dele, mas sim da maioria dos magistrados, que ele, enquanto sindicalista, ali representava - ou seja, ele não era o autor daquela infame suspeita, mas sim muitos ou a maioria dos procuradores inscritos no SMMP. E ele só apresentara tal suspeita enquanto presidente do sindicato e não a título pessoal. Chegou a este ponto a conduta pública de alguns magistrados. Analisemos o caso mais em pormenor.
1. Não é novo este tipo de atitudes. Atirar uma pedra e em seguida desculpar-se alegando que foram outros que mandaram ou de que foi em nome de outros é uma prática muito antiga e já bem caracterizada.
2. A experiência da vida e a história da humanidade já demonstraram suficientemente que, muitas vezes, as piores infâmias são sempre feitas sob a forma de suspeitas, sobretudo quando ampliadas por terceiros. O próprio Código Penal previne, no seu art. 180º, nº 1, essas situações, estatuindo que comete o crime de difamação não só quem imputar a outra pessoa, "mesmo sob a forma de suspeita", um facto ofensivo ou formular sobre essa pessoa um juízo igualmente ofensivo, mas também quem "reproduzir uma tal imputação ou juízo". Não é crível que o magistrado em causa ignorasse essa disposição legal. Também não é crível que ignorasse o carácter altamente ofensivo das suas afirmações para a honra pessoal e funcional do ministro da Justiça e do primeiro-ministro, enquanto principais promotores das tais medidas "retaliadoras".
3. Não foi a primeira vez que o presidente do SMMP trouxe essa questão a público. Já antes, nas páginas deste mesmo jornal (ver edição de 13 de Julho de 2005, pag. 9), o mesmo magistrado fizera exactamente as mesmas insinuações.
Num artigo intitulado Magistratura: Itália e Portugal, o magistrado insurgia-se contra a chamada "Lei Castelli", que o Governo de Silvio Berlusconi pretendia fazer publicar em Itália. Depois de concitar várias opiniões para evidenciar os malefícios da referida lei, o articulista sugeria que tal iniciativa mais não era do que um puro acto de vingança contra as magistraturas italianas por causa dos processos judiciais em que tem estado envolvido o primeiro-ministro Silvio Berlusconi. E o magistrado/articulista concluía: "Em Portugal, nada de semelhante se poderia passar (...), porque entre nós governa um partido de esquerda, que, por o ser, nunca pensaria em vingar-se das magistraturas em geral, por causa de concretos processos que tivessem afligido militantes seus [sic]." A comparação não podia ser mais grossa. Só faltou mesmo dizer os nomes dos militantes socialistas e os processos em causa. Mas também não era necessário, porque uns e outros continuam periódica e sintomaticamente a ser lembrados em alguns órgãos de comunicação social.
4. Pior do que as insinuações públicas do presidente do SMMP (e a atabalhoada desresponsabilização que tentou fazer de si próprio no referido programa da RTP) só o silêncio dos magistrados. Tal só pode significar concordância com o dirigente sindical, ou seja, que os magistrados do MP inscritos no respectivo sindicato concordam que as medidas legislativas sobre a justiça constituem uma retaliação do Governo pelo facto de o poder judicial ter perseguido criminalmente alguns dirigentes socialistas. O silêncio dos magistrados coonesta, assim, a conduta do seu dirigente sindical. É bom saber o que pensam os magistrados para melhor compreender como agem.
5. A presteza com que a insinuação foi arremessada publicamente, mal surgiram as primeiras medidas da actual maioria política, levanta ela própria uma outra suspeita. E se algumas destacadas figuras políticas portuguesas tivessem sido demandadas criminalmente unicamente para tornar o poder político refém dessa circunstância? Ou seja, a instauração de processos judiciais contra importantes dirigentes partidários não seria a melhor forma de a corporação judicial se preparar para o combate que já se avizinhava, contra as inevitáveis reformas na justiça portuguesa? Poderá o poder político levar a cabo verdadeiras reformas na justiça, quando alguns políticos estão ou estiveram envolvidos em processos judiciais?
E se nos recordarmos de como surgiram alguns desses processos, da forma como os arguidos foram tratados, da leviandade com que cidadãos foram transformados em suspeitos e logo incriminados publicamente (até cartas anónimas tentando envolver o Presidente da República, entre outras figuras do Estado, foram acolhidas no processo); se nos recordarmos das indiscriminadas escutas telefónicas, sobretudo a membros de órgãos de soberania, da negação dos direitos mais elementares aos arguidos e do verdadeiro linchamento de carácter a que alguns foram sujeitos; se nos lembrarmos do comportamento de alguns magistrados, não só dos que nunca deram a cara, mas sobretudo daqueles cujas conversas com jornalistas ficaram gravadas em memoráveis documentos históricos; se nos lembrarmos de tudo isso, então teremos muitas razões para crer (e temer) que a segunda hipótese é bem mais credível do que a que foi arremessada pelo o presidente do SMMP. Advogado

quarta-feira, outubro 12, 2005

Edição de Astérix, o Gaulês em mirandês já está esgotada

Edição de Astérix, o Gaulês em mirandês já está esgotada

Ana Fragoso, Público, 8 de Outubro de 2005

Obra esgotou em apenas 15 dias. Tradutor gostaria que o livro servisse como instrumento para o ensino do mirandês
nas escolas

A primeira edição de Astérix, o Gaulês, traduzida em língua mirandesa esgotou muito rapidamente. "A procura excedeu todas as nossas expectativas, pela receptividade e interesse que as pessoas têm demonstrado e porque há um dado objectivo muito importante - em menos de 15 dias, esgotaram todos os exemplares", confirmou ao PÚBLICO Amadeu Ferreira, o responsável pela tradução da obra de René Goscinny e Albert Uderzo para a segunda língua oficial portuguesa (o mirandês), com cerca de 10 mil falantes. "Nunca um livro escrito em mirandês tinha tido tanta procura", acrescentou.
A publicação desta aventura em mirandês é da responsabilidade das Edições ASA, que, esgotados os primeiros quatro mil exemplares, se prepara para fazer uma segunda publicação de mais 1500 exemplares. Com esta segunda edição, o tradutor espera também um segundo lançamento, não em Lisboa, como aconteceu no passado dia 15 de Setembro, mas em Miranda do Douro, "e junto das crianças das escolas do concelho, porque esta obra é-lhes especialmente dedicada", refere.
Apesar de já existirem algumas dezenas de publicações de obras literárias em língua mirandesa, ainda existem poucos livros para crianças. Amadeu Ferreira admite que gostaria de ver esta obra utilizada no ensino da língua mirandesa. "Não vejo nenhum inconveniente. A linguagem é de qualidade reconhecida, à aventura estão associados aspectos históricos formativos para as crianças, e valores como a amizade e a solidariedade são extremamente importantes", argumenta.
O livro Asterix, L gaulês (título em mirandês) não é uma simples adaptação do texto, originalmente francês, para a língua mirandesa. O tradutor e os seus colaboradores (Domingos Raposo e Carlos Ferreira) adaptaram todo o contexto da aventura do pequeno gaulês à realidade mirandesa, inclusive o nome das personagens, com excepção dos personagens principais. "Por exemplo, no caso do chefe da tribo dos gauleses, nós demos-lhe o nome de Regidorix, que vem de regedor, o homem que mandava lá na aldeia. Ao bardo chamamos Cantadorix, por andar sempre a cantar", exemplifica. De igual forma foram adaptadas, ao contexto local, algumas onomatopeias: "Essa foi a parte mais complicada, porque tivemos de auscultar o som das coisas, uma pedra que cai, um martelo a bater numa bigorna, um grito", explica. O latir de um cão, por exemplo, que, em português, se identifica como "béu béu", em mirandês foi reproduzido como "gau gau". Uma adaptação que torna a história de 42 páginas única, apesar de a mesma aventura já estar traduzida em 110 línguas.
Antes do lançamento da obra, Amadeu Ferreira manifestou o desejo de traduzir "pelo menos uma ventura do Astérix por ano". Face ao sucesso da primeira edição, o tradutor acredita que essa "é uma expectativa fundada", manifestando a sua disponibilidade para continuar este trabalho, ressalvando que a palavra final "é da editora".

Parque de lazer e desporto nasce no porto de pesca da Póvoa

Iniciativa da Câmara de vila do conde
Parque de lazer e desporto nasce no porto de pesca da Póvoa
por Ângelo Teixeira Marques, Público, 8 de Outubro de 2005

A câmara vila-condense avançou com o projecto, depois da desistência de construir uma ETAR no local, transferida para a margem do Ave

A Câmara de Vila do Conde quer construir um parque desportivo e de de lazer no interior do porto de pesca da Póvoa de Varzim (assim designado, mas parte da sua área integra território do município vila-condense). O presidente da autarquia local, Mário de Almeida, garante que já tem a autorização do Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos (entidade gestora do porto) para avançar com a execução do projecto e do lançamento do concurso de obra.
A edilidade já possui uma "memória descritiva e justificativa" da intervenção a efectuar no local e, pela consulta desse documento, fica-se a saber que o complexo, "com uma área de quatro hectares", terá um recinto de futebol de onze (em relvado sintético com "um conjunto de quatro balneários e estruturas de apoio, tais como bancadas, portaria e vedações"), "um campo de futebol e andebol de praia, com piso em areia, e um campo de jogos polivalente". "Será ainda criado um anfiteatro, montado no talude que absorve o desnível entre a avenida [do Infante D. Henrique] e a cota de implantação dos equipamentos [praticamente ao nível do mar]", um parque infantil e um espaço para actividades "radicais". Haverá ainda espaços para jogos de cartas, da péla (espécie de bowling, mas com um banco deitado a fazer o papel dos pinos) e áreas verdes.

Custo da obra não é
muito elevado
Mário de Almeida desconhece o custo exacto da obra, mas admite que "não seja muito elevada" em comparação com o aproveitamento de um espaço que nesta altura está degradado e que destoa da remodelação feita na marginal - mediante um projecto do arquitecto Alcino Soutinho - no âmbito do programa Polis. O estaleiro de construção de embarcações de pesca em madeira será "transferido um pouco mais para poente" da zona que receberá o complexo de desporto e lazer, ou seja, ficará praticamente encostado à marina gerida pelo Clube Naval Povoense.

Um parque em vez
de uma ETAR
A ideia de avançar com a remodelação daquela parte do interior do porto de pesca só pôde ir avante porque as câmaras municipais da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde desistiram de construir nesse espaço uma estação de tratamento de águas residuais (ETAR) que sirva os dois concelhos.
A empresa Águas do Ave, que vai fazer a candidatura do projecto de saneamento "em alta" a fundos comunitários, já adiantou que, por razões técnicas e de custos, a ETAR ficará na margem do rio Ave. Assim, a edilidade vila-condense poderá recuperar parte do interior do porto, que, nos últimos anos, tem recebido diversas infra-estruturas ligadas a diversas actividades dissociadas da razão que esteve na sua origem - a pesca. A esta situação não será alheio o facto de o sector pesqueiro estar a atravessar uma crise de venda de peixe - segundo os dados da Docapesca, nos primeiros quatro meses deste ano a actividade portuária diminuiu 13 por cento em relação ao mesmo período do ano passado - e do êxodo de muitos membros da comunidade piscatória poveira.
No interior do porto de pesca, já existem dois parques de estacionamento, um auditório, restaurantes, bares, uma lota, um posto do Instituto de Socorros a Náufragos, zonas de lazer, de desporto e de actividades radicais construídas pela autarquia da Póvoa de Varzim.
Agora, chegou a vez da de Vila do Conde fazer o mesmo no lado sul da bacia portuária, onde existem uma marina (paga pela Câmara da Póvoa), uma escola profissional de pesca (estatal) e um estaleiro naval privado.

WORDS AND PICTURES

The New Yorker

WORDS AND PICTURES
by PETER SCHJELDAHL
Graphic novels come of age.
Issue of 2005-10-17
Posted 2005-10-10

You can tell the graphic-novels section in a bookstore from afar, by the young bodies sprawled around it like casualties of a localized disaster. There were about a dozen of them at the Barnes & Noble at Union Square one recent afternoon, in a broad aisle between graphic novels and poetry. Not one was reading poetry, but the proximity of the old ragged-rightmargined medium piqued me. Graphic novels—pumped-up comics—are to many in their teens and twenties what poetry once was, before bare words lost their cachet. The nineteen-sixties decided that poet types would thenceforth wield guitars; the eighties imposed percussive rhythm and rhyme; the two-thousands favor drawing pens. Like life-changing poetry of yore, graphic novels are a young person’s art, demanding and rewarding mental flexibility and nervous stamina. Consuming them—toggling for hours between the incommensurable functions of reading and looking—is taxing. The difficulty of graphic novels limits their potential audience, in contrast to the blissfully easeful, still all-conquering movies, but that is not a debility; rather, it gives them the opalescent sheen of avant-gardism. Avant-gardes are always cults of difficulty—Cubism, “The Waste Land”—by which a rising generation exploits its biological advantages, of animal health and superabundant brain cells, to confound the galling wisdom and demoralize the obnoxious sovereignty of age.

Start with Chris Ware, the thirty-seven-year-old Chicagoan Picasso /Braque and young Eliot of graphic novels, whose “Jimmy Corrigan: The Smartest Kid on Earth” (2000, Pantheon) is, besides being viciously depressing, the first formal masterpiece of a medium that he has proved to be unexpectedly complex and fertile. Set aside, for now, the graphic novelists you probably most like, if you like only a few: Art Spiegelman, Marjane Satrapi, Daniel Clowes. Their peculiar literary qualities are distracting. The same goes for Robert Crumb, for whom there is the added problem of a historical significance: he is the father of art comics. Keep lightly in mind the ever-teeming regions of genre: superhero, action, horror, goth-girl. Give a respectful but wide berth to Japanese manga, which occupy most of the shelf space allotted to graphic novels in bookstores, their bindings as uniform as lined-up vials of generic, obviously addictive pharmaceuticals. Dutifully paging, right to left, through a score or so of translated manga, I register the buzz of platter-eyed characters engaged in well-designed, pointless violence. I pause at frames in which, amid suddenly silent ruins, some liquid or another drips with a sound that is invariably rendered plp plp plp. It’s not that styles of sheer sensation are contemptible, but once you’ve said “Wow,” you are close to having exhausted the subject. It is even a point of honor with action comics—as with action movies and action anything, like roller coasters—to leave us with only a suffusive, endorphin glow. As for the dizzying byways of shojo, kinky romance manga for girls, I throw up my hands in Caucasian senior-male bewilderment.

“Jimmy Corrigan” tells of a potato-headed, hypersensitive office worker—“a lonely, emotionally-impaired human castaway,” the author terms him—who lacks any notable personal resource except a limitless capacity for mental suffering. Several interlocking stories, many of which involve the miserable eighteen-nineties childhood of Jimmy’s doppelgänger grandfather, center on Jimmy’s first meeting, at the age of thirty-six, with his absentee father, a figure of crushing banality. (Jimmy’s mother, who lives in a retirement home, is a monster of self-absorption.) Ware’s visual style recalls the clean-lined perfectionism of “Tintin,” the classic adventure strip by the Belgian Hergé (Georges Rémi, 1907-83), whose book-length stories qualify as graphic novels avant la lettre, but it is far more varied in design, with densely rhythmic layouts of small and large panels and of close-up and long views, and it is subtler in color, with moody, volatile pastels. Ware exercises an encyclopedic command of literary and cinematic tactics—stream of consciousness, montage—with tropes that are peculiar to graphic art: often effects of stillness, such as a character’s blank takes, in which you sense mental wheels turning (never to any very propitious end, in this case), and landscapes and cityscapes infused with a droning dailiness. He speeds and slows time, stops it, and can even seem to run it backward, revisiting and revising recent events, or sideways, incorporating alternative accounts of what’s happening. All this is done with utmost precision. Reading “Jimmy Corrigan” is like operating an intricate machine whose function is not immediately apparent. Gradually, meanings emerge and emotions crystallize. None gladden. Let one gross example stand for the book’s innumerable bummers: Jimmy wanders outdoors, struggling to compose, in his mind, his first-ever letter to his father. (“Dear Dad, Hi! How are you? I’m your son . . .” “Dear Dad, Hi! My name is Jimmy. You might not remember me, but . . .”) A mail truck makes its rounds in the background. Jimmy sees deer behind a gas station across the street. After trying to remember whether deer bite, and assuring himself that they’re harmless, he steps toward them, happily. The mail truck hits him.

The masochistic tenor of “Jimmy Corrigan,” while extreme, is typical of serious graphic novels and, in fact, of most of the modern comic strips that influence graphic novelists, at least of the male kind. Comics heroines, from Little Orphan Annie to Wonder Woman, are as a rule resiliently upbeat, however beset. (In a preface to “Jimmy Corrigan,” Ware issues a questionnaire that’s meant to gauge the relative grimness of the reader’s childhood. It begins, “1. You are a. male. b. female. If b, you may stop . . .”) A painfully humiliated hero is essential even—or especially—to “Superman” and its vast spawn. Disregarded Clark Kent is the figure readers identify with; his transformation into the Man of Steel nurses the hopes and fulfills the rage of all underestimated boys, but it can’t cure his loneliness. “Spider-Man” twists the knife by making Peter Parker’s superpowers an added torment to him: he’d rather be an ordinary guy. The theme of a publicly misjudged character’s private anguish has grown, in comics history, to dominate the form. Who today still relishes the pure ridicule of “Li’l Abner,” or the convivial folk wisdom (brilliant wordplay aside) of “Pogo”? Both were immensely popular before the ascendance of “Peanuts,” the most important comic strip of the past half century. Charlie Brown is Clark Kent without the colorful underwear, and with all the possibly compensatory qualities split off and given to other characters, mainly Snoopy. Jimmy Corrigan, in turn, is Charlie Brown without the eternal childhood in an Arcadian neighborhood. Ware teases out a nightmarish aspect of “Peanuts” that Charles Schulz cushioned in whimsy: Charlie Brown is incorrigibly mediocre, incapable of satisfactory relationships or achievements, doomed to obloquy. His generous and trusting heart sets him up for mishap and betrayal—which, in his little four-panelled world, where nothing changes, he meets with a sigh. Jimmy’s world is big—Chicago’s Sears Tower looms in misty silhouette outside his window—and events in it have consequences. They give him nosebleeds. They make him cry.

The influence of “Peanuts” pervades one variety of graphic novel, the influence of the early MAD magazine another. In 1964, Marshall McLuhan astutely called MAD, which first appeared in 1952, “a kind of newspaper mosaic of the ad as entertainment, and entertainment as a form of madness.” Bill Gaines, Harvey Kurtzman, and the magazine’s other inventors counterattacked the manipulative forms and messages of mass culture with a none too subtle parodic wit that was angry at its root. It fed a furious, slightly scared cynicism in its readers that was born of perceptions of falseness in advertising, certainly, and in perhaps, well, everything with which “they” presumed to know and affect our thoughts. What “they” imagined we must be like, to swallow it all, was caricatured in the sunnily moronic countenance of Alfred E. Neuman. MAD was almost as significant a cultural depth charge of the nineteen-fifties as Elvis was. (I came across my first issue in 1956 or so and immediately phoned two friends. All they heard on the line, before they hung up, was convulsive laughter.) Blending with the popularization of Beat literature and the comedy of Lenny Bruce, MAD’s attitude entered into the great generational joke of the sixties: feigned idiocy, faux innocence, the put-on, camp. (Cogito: people over thirty don’t get it, therefore I am.) Cartooning acquired a new, prevalently drug-enhanced function configuring madness as entertainment. Its new paragon—a writer-artist whose greatness still defies conventional description—was R. Crumb, who inaugurated “Zap Comix” in 1968 in San Francisco, at the center of a countercultural circus that was going rancid around the edges. Crumb regrounded comics in the experience of aging youths who, having embraced lives of antic alienation, were stuck with them.

Even full-on, Crumb’s drawings tend to have an up-from-under feel. The fat shoes of the striding character in his iconic “Keep on Truckin’ ” image suggest a ground-level viewpoint, as does the physiognomy of his feminine ideal: girlish above the waist, rolling thunder below. (His unedifying sexual penchants and frankly jerkish attitudes are inseparable from the truths he tells, unfortunately.) Crumb’s contributions to the physics of comics recall Giotto’s (yes, Giotto’s) to Western painting: acknowledging material mass and the force of gravity. In a Crumb, when something or someone falls the occasion doesn’t require a helpfully lettered “thud,” though he might provide one; feeling the weight, you register its impact. It’s a small matter of emphasis with big correlatives, ushering comics from stylized backgrounds for fantasy to projections of tactile space. The effect needn’t entail anything like realism. Its precedents include, in comics history, the topography of Coconino County, in George Herriman’s “Krazy Kat” (1910-44). In that pocket immensity, as indifferent as the universe, a mouse might hit a cat with a brick, and a cat might enjoy it though a dog objects. After Crumb, a widespread rediscovery of Herriman became crucial to several styles of the nascent graphic novel, in particular that of Spiegelman’s “Maus” (1986, Pantheon). The Jewish mice, German cats, and Polish pigs of that extraordinary epic live their fates in surroundings that not only contain but witness and reflect on the action: the kitchen in which Spiegelman interviews his father, a setting of safety in the here and now, emotionally frames the all but unbelievable ghastliness of the there and then. To become novelistic, comics needed capacious structures of space and time in which their characters could come and go.

Graphic novels induce an enveloping kind of emotional identification that makes them only too congenial to adolescent narcissism, in the writing no less than in the reading. Why arduously muster the persona of a Charlie Brown or a Jimmy Corrigan when your own fascinating self is right at hand? A problem for the autobiographical graphic novel is that its author’s life experience may consist mainly in compulsive cartooning. But the trailblazer of this mode, Harvey Pekar, is not a cartoonist at all, barely a writer, and well past adolescence, at least chronologically. Pekar, a lumpish Cleveland file clerk, came to public notice in several appearances on the David Letterman show, in the mid-nineteen-eighties, and was portrayed by Paul Giamatti in “American Splendor” (2003), a movie based on comics that Pekar wrote and others drew. A jazz and comics buff blessed with a connoisseur’s taste and remarkable powers of persuasion, Pekar met Crumb in Cleveland in the sixties and enlisted him to illustrate long, grumpy monologues that told the story of his shambling existence. (Desultory personal content in a bravura visual form quickly became fashionable among younger artists, most of it quite bad.) Pekar has since dragooned several other cartoonists to his exquisitely tedious ends. The latest is Dean Haspiel, who performs with virtuoso flair in “The Quitter” (2005, DC Comics/Vertigo), relaying Pekar’s confessions as a working-class dude who grew up with little in his favor except a knack for beating up other dudes. Pekar reviews the futilities of his life with humorless fixation and zero insight. He is the accidental minimalist of the graphic novel.

The best first-person graphic novel to date, “Persepolis” (2003), and the second-best, “Persepolis 2” (2004, both Pantheon), are by a woman, Marjane Satrapi. They suggest a number of rules for the form: have a compelling life, remember everything, tell it straight, and be very brave. “Persepolis” is about Satrapi’s childhood in Tehran during the Islamic Revolution of 1979 and the Iran-Iraq War. “Persepolis 2” follows her to school in Vienna, then back to Iran, and again to Europe, perhaps for good. Her parents are upper-middle-class Marxists, whose extensive family and social connections and political involvement exposed her to the full tumult of the times. Her uncanny way of incorporating exposition, with nary a stumble in her pell-mell narrative momentum, immerses us in the lore of Iranian history and culture. Drawn in an inky and crude visual style that is as direct as a slap, the books track her imaginings and her passions, which are wonderfully responsive, though usually inadequate to the realities of the situation. It’s a comic strategy that maintains buoyancy even in the face of the oppression, torture, and death of people dear to her, without for a moment treating the ordeals of others as secondary to her own. Satrapi’s unforced empathy contrasts with the self-pitying tendencies that are common to firstperson comics written by men. Her stubborn ingenuousness may cloy (she has said, “Instead of putting all this money to create arms, I think countries should invest in scholarships for kids to study abroad”), but we don’t go to graphic novels for political philosophy.

At least one artist, however, raises hopes for the graphic novel as a vehicle of political journalism. The Maltese-born Seattle resident Joe Sacco’s much lauded “Safe Area Gorazde: The War in Eastern Bosnia, 1992-95” (2000) and “Palestine” (2001, both Fantagraphics) are personalized explorations of those terrible imbroglios, packed with illuminating information and peopled with hurting, raging, sometimes hilarious denizens. The raucous, tumbling visuals commandeer the reader’s attention; we’re along for the ride, and we hang on tight. But Sacco’s success in combining the nerve and the savvy of war correspondence with the infectious rhetoric of comics may be not only inimitable but sui generis. In the new “Pyongyang: A Journey in North Korea,” by Guy Delisle (2005, Drawn & Quarterly), the French-Canadian cartoonist describes, in a twee drawing style without a whisper of emotional force, a recent two-month stint during which he supervised animators of children’s cartoons in the world’s most disheartening capital city. Confined to an office and a nearly deserted hotel, and shadowed by taciturn guides and interpreters, Delisle adds only topical highlights to what might otherwise serve as a standard account of an unusually boring work assignment anywhere. Steve Mumford’s “Baghdad Journal: An Artist in Occupied Iraq” (2005, Drawn & Quarterly) disappoints in another way: it offers realist watercolors that are accomplished but no more expressive than photographs, and the writing that accompanies them is pedestrian and prolix. If it weren’t for Sacco, the lately alluring idea of fully engaged and engaging illustrated reportage would be a chimera.

Will Eisner’s “A Contract with God,” a book of stories finished in 1978, is regularly termed “the first graphic novel,” at the instigation of the author himself, who died this year at the age of eighty-seven. Eisner created a masked-crime-fighter comic book, “The Spirit,” in his youth; he was not a modest man, but legions of admirers forgave him that, as they forgive his work’s cornball histrionics. Rooted in German Expressionism but more reminiscent of MAD-type burlesque than of George Grosz, his characters rub their hands, tear their hair, and, if they happen to fancy something, slaver. Next month, “A Contract with God” will be reissued with two other collections—“A Life Force” and “Dropsie Avenue”—as “The Contract with God Trilogy” (Norton). All the tales, which take place on a single block of the fictional Dropsie Avenue, in the Bronx, concern mostly Jewish characters and are set largely in the Depression era. The title story tells of a Russian immigrant, Frimme Hersh, who promises God a life of service in return for his favor. He is a beloved member of his synagogue community until the death of his adopted daughter embitters him, whereupon he curses God and becomes a rapacious real-estate tycoon. Heartsick in old age, he asks the rabbis to write a new contract, committing him to philanthropy. That night, Hersh dies, and lightning immediately strikes Dropsie Avenue—never leaving well enough alone is apparently a principle for Eisner. Over-the-topness is endemic to the comics, of course—an industry standard for popular action and horror titles, as well as for manga, and the default setting for Crumb’s work. But it is ill suited to serious subjects, especially those that incorporate authentic social history.

Comics used to inhabit a world separate from that of grownup cartooning (a specialty of this magazine), which exploits the clownish and melodramatic proclivities of comics in reverse, and with studied understatement Daniel Clowes closes the gap. To winkle out meaning from indirect or muted expression flatters and delights our intelligence; it is a cynosure of urbanity. Clowes extends it to realms of middle-class comedy, set in small cities, with admixtures of the surreal and the gaudily neurotic—“Peanuts” with grievous tics. His “Ghost World” (1998, Fantagraphics)—transposed to the screen by Terry Zwigoff, in 2001, with flat compositions and an all but affectless acting style faithful to the original—is about the coming of age of two high-school girlfriends, in glum and often sinister circumstances, and involves a good deal of snappy patter, considerable cruelty, and an ultimate betrayal that would make you feel like a sucker if you hadn’t observed the author’s abundant warnings not to identify too poignantly with the heroines. Clowes plays crisp, bland cartooning, at times reminiscent of the old “Can You Draw This?” matchbook ads, against stealthily nuanced writing; reading him, it’s as if someone or something, nonchalant and a trifle bored, had invaded the control room of my thoughts and feelings, and were flipping switches. The short but replete “Ice Haven” (2005, Pantheon), a pageant of twisty characters and subplots, tells of what seems to be a murder along the lines of Leopold and Loeb but isn’t, although there’s plenty of psychological collateral damage to all.

One character, a “comic book critic,” ruminates over his breakfast cereal, “While prose tends toward pure ‘interiority,’ coming to life in the reader’s mind, and cinema gravitates toward the ‘exteriority’ of experiential spectacle, perhaps ‘comics,’ in its embrace of both the interiority of the written word and the physicality of image, more closely replicates the true nature of human consciousness . . .” Well put, though it’s rubbish. (Clowes’s critic is a figure of fun.) If the true nature of human consciousness were replicable, the art form that succeeded in doing it would crowd out all others. The true nature of human consciousness—in the time that can be spared from the quest for food, sex, and whatnot—is to enjoy itself by every means possible, an aim enhanced by aesthetic inventions from the “Ring” cycle to Cracker Jack prizes.

A certain theoretical frenzy about comics today is understandable, as it has been in other art forms in periods of their rapid development—think of the debates about painting that roiled Renaissance Italy. But such intellectual arousal rarely precedes creative glory. On the contrary, it commonly indicates that an artistic breakthrough, having been made and recognized, is over, and that a process of increasingly strained emulation and diminishing returns has set in. Nearly all art movements are launched by work that, when the dust clears, turns out to have been their definitive, peak contribution. “Les Demoiselles d’Avignon” looms over the busy ramifications of Cubism as “The Waste Land” looms over the modern poetry that it inspired. Accordingly, there may never be another graphic novel as good as “Jimmy Corrigan,” even by Ware himself—whose current serial in the Times Magazine, though tangy, bespeaks a style on cruise control. But if the major discoveries of the graphic novel’s new world of the imagination have already been accomplished, its colonizing of the territory, like its threat to foot traffic in bookstore aisles, has only just begun.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Jardim instrumentaliza na Madeira único jornal estatizado do país

TOLENTINO DE NÓBREGA, Público, 1 de Outubro de 2005

Presidente do governo regional "orienta" Jornal da Madeira nos ataques aos seus adversários políticos e na promoção da sua imagem

"Mando-lhe umas notas", "trate o assunto como puder". A ordem sai da Quinta Vigia, sede da presidência do Governo Regional, directamente para o Jornal da Madeira (JM), assinada por Alberto João Jardim com "um abraço e obrigado" ao director adjunto do matutino.
"Lembra-se do que combinámos sobre a estratégia da antecipação?", pergunta o presidente madeirense num cartão pessoal, datado de 9 de Fevereiro de 2001, e que tem apensas as instruções para os ataques a desferir contra determinados alvos políticos.
Entre os visados estão uma sua parente que - considerada "completamente maluca, é mesmo doente, como outros casos de família, infelizmente" - entrara em ruptura com o PSD de que era militante, e um seu antigo colaborador indefectível, que agora trata por "execrável "empregado doméstico" (para não dizer outro nome)".
A preparar o lançamento da sua própria candidatura à liderança do PSD e a Belém, o governante insular pede que o jornal "denuncie" estar a ser "preparado ataque feroz - a Jardim e governo regional" - nele envolvendo "jornais, rádios, revistas e TV dos grupos Lusomundo (coronel Silva [sócio de Blandys no Diário de Notícias funchalense] e na TSF [local], mantida apesar de projecto economicamente falhado), Balsemão, Pais do Amaral e Belmiro".
A cabala - a recordar outras atribuídas a Bush (pai), Maçonaria e Trilateral, inventadas na Madeira quando se debatia a existência do "défice democrático" na região - surgiria, segundo o memorando presidencial, devido às "posições de Jardim na denúncia da oposição PSD e CDS serem uma montagem destes grupos económicos editoriais que apoiam o governo do Partido Socialista, bem como contra a Maçonaria".
Uma vez lançado o fantasma do "inimigo externo", Jardim pede para que se sugira em tais textos que "uma vitória nas regionais, pode dar novo fôlego para uma investida no Continente contra o jogo montado para o controlo do país - razão do incómodo que a Madeira constitui".
Na sua estratégia de "vitimização" para lhe "dar novo fôlego", o governante solicita a referência a "dez meses de ataque permanente, com o apoio dos conhecidos "correspondentes", encarregando-se o Diário de Notícias, a RTP/Madeira, a RDP/Madeira e a TSF, dirigida por um primo do eng. David Caldeira, de "transcrever" no território madeirense as cabalas editadas em Lisboa".
Na sua "estratégia de antecipação", recomenda que o jornal refira que "o congresso do PSD-Madeira, em Março e nos moldes avançados [incluindo uma espécie de "estados gerais"], colheu de surpresa adversários, pelo que houve que antecipar a "mobilização nacional anti-Jardim", incluindo com acções do PCP sobre o terreno, já para o fim do ano, que começaram com a Meia Serra", numa referência ao pedido de inquérito àquela estação de tratamento de resíduos, que viria a ser recusado pelo PSD no parlamento. Com a demissão de Guterres e a subida de Barroso ao governo, Jardim viu gorado o seu plano que abria o caminho da sucessão a Cunha e Silva antes das regionais de 2004.

"Dá uma porrada
ao ministro"...
Especialista em "acção psicológica" no serviço militar, Jardim recorre também ao seu assessor de imprensa, Paulo Pereira, para transmitir as suas instruções ao antigo órgão da diocese funchalense, de que foi director, por nomeação do bispo Francisco Santana, entre 1974 e 1978, ano em que ascende à presidência do Governo Regional. Sobre uma fotocópia de um artigo do PÚBLICO (26/9/2001), intitulado A "sujeira" segundo Santana Lopes, o referido assessor de Jardim escreve que "o sr. Presidente pede para que o jornal publique estas denúncias do Pedro Santana Lopes", sobre a alegada falta de transparência de sondagens desfavoráveis à sua candidatura, pedindo que seja feita "referência ao DN/Madeira, que também recorre aos serviços desta empresa de sondagens".
"Caro amigo, vê se publicas esta "história" dando uma porrada no ministro da Saúde. Este texto confirma o ódio e o desprezo deste governo socialista pelos madeirenses", escreve o assessor de Jardim noutra missiva dirigida à chefia do JM, recomendando "atenção: não divulgues a origem destes documentos". Quando Correia de Campos (casado com uma madeirense familiar do chefe de gabinete de Jardim) voltou ao Governo, por discordar do curso de Medicina na Madeira, o presidente insular comentou que o ministro "se calhar até se engana nas pastilhas que toma". Outras "porradas" dadas surgem no cartoon Boca Pequena que o JM publica diariamente com textos de Jardim contra adversários politícos e jornalistas, ilustrados por Élia Faias, sob o pseudónimo Urtigas.

Directores comentem
desvios editoriais
Ao ser indigitado novo director do jornal, em Abril de 2005, o jornalista Henrique Correia garantiu perante a Alta-Autoridade para a Comunicação Social - à qual compete emitir parecer sobre a nomeação de directores de órgãos de comunicação pertencentes ao Estado - que enquanto assumiu interinamente tal cargo "não foi submetido a quaisquer pressões ou interferências com vista a violar a independência da sua actividade, quer por parte da diocese do Funchal, quer por parte do Governo Regional". Anteriormente, quando foi exonerado do cargo de director adjunto, em Maio de 2002, Rui Fino reconheceu perante aquele mesma entidade a falta de autonomia e de independência do jornal perante o poder regional, relacionando a sua destituição "com os dois anos de continuadas, intoleráveis e insuportáveis pressões" do vice-presidente do governo, com a tutela de comunicação social.
Também ao cessar funções em Abril de 2000, Tomé Veloza, o último director sacerdote, confirmou os desvios ao estatuto editorial do jornal "criado pela diocese, essencialmente, como instrumento de evangelização". O JM "já não é católico" e "podia viver sem os apoios do governo", denunciou.

Oposição contra
"jardinização" do JM
Receando que idêntica "governamentalização" ou "jardinização" ocorra na RTP e RDP locais - que a serem "transformados em espaços de propaganda do governo" colocariam em causa "o pluralismo, rigor e objectividade, bem como a sua independência perante os poderes públicos, a que o serviço público de rádio e televisão estão constitucionalmente vinculados" -, partidos da oposição rejeitaram a regionalização destes centros acordada entre Jardim e Durão Barroso, processo entretanto congelado pelo actual Governo da República.
O "desejo de intervencionismo e condicionamento do conteúdo editorial", por parte de Jardim, tem sido igualmente condenado pela direcção regional do Sindicato dos Jornalistas, segundo o qual "não estão reunidas as condições democráticas e de liberdade de informação mínimas para o Executivo madeirense assumir a tutela" daquelas empresas. "Só nos regimes ditatoriais é que os presidentes dos governos interferem nos critérios editoriais e impõem a censura aos jornalistas", justifica.

Memória curta

João Cândido da Silva
in Público, 30 de Setembro de 2005

Francisco Assis já foi vítima de violência por motivos políticos. O rasto de intolerância e incivilidade deixado pelos seus agressores, durante uma visita a Felgueiras, causou justa indignação e repugnância na mesma proporção dos elogios que se escutaram e escreveram sobre a coragem e a dignidade demonstradas na altura pelo actual líder socialista do Porto. Por já ter sofrido na pele um vexame inadmissível num regime democrático, Assis deveria, também, ter sido o primeiro a condenar de forma veemente o triste episódio em que Rui Rio se viu envolvido esta semana durante a visita a um bairro da cidade.
É verdade que o candidato do PSD se terá precipitado ao acusar o PS de ter agitado o ambiente fazendo-o aquecer até ao ponto de degenerar em tentativas de agressão. Dificilmente se imagina que um dirigente com as responsabilidades de Francisco Assis nas estruturas socialistas se possa considerar culpado directo do que sucedeu. Mas a completa ausência de espírito democrático por parte de apoiantes e militantes que comprometem, com as suas bandeiras e autocolantes, a imagem de todo um partido, devia merecer dos respectivos dirigentes uma condenação enérgica e inequívoca. Nada disto sucedeu.
No momento em que era suposto revelar a sua expectável revolta pelo episódio, Assis optou pelo contra-ataque, ameaçando Rui Rio com um processo e exigindo provas das acusações que proferiu. Quando se esperava que ajudasse a arrefecer os ânimos, optou por lançar mais achas para a fogueira. Em campanha eleitoral não deve valer tudo o que aparente ser um factor de enfraquecimento do adversário. Mas Francisco Assis não esteve à altura dos acontecimentos, nem do respeito que lhe foi legitimamente reconhecido quando ele próprio se viu ameaçado pela fúria popular. No mínimo, a memória do dirigente socialista é muito curta.


Parece mas não é

anuel Alegre hesitou no anúncio da sua candidatura à Presidência da República, alegando que os partidos decidem tudo, não deixando qualquer espaço para iniciativas que surjam à margem das opções dos seus dirigentes. Depois de muitos ziguezagues, acabou por avançar, queixando-se, desde logo, do facto de não poder contar com qualquer máquina partidária para apoiar a sua campanha. Em todo este processo, o grande drama de Manuel Alegre é fácil de perceber. Quer aparecer como alguém que surge na corrida liberto das lógicas asfixiantes que se tem dedicado a denunciar. Mas, no fundo, aquilo que mais teria apreciado seria uma declaração de apoio do PS, com a consequente colocação do respectivo aparelho de propaganda ao serviço dos seus objectivos eleitorais.
Não deixa de espantar que Alegre revele tanta mágoa por um sistema de funcionamento da democracia portuguesa que conhece por dentro. É militante histórico de um dos partidos que, para o bem e para o mal, maior influência teve no desenho do sistema partidário nacional, sabe o que significa a expressão "disciplina partidária" e conhece a estreita margem de manobra que este princípio impõe sobre quem a ele voluntariamente se sujeite.
Também não deve ser surpresa para o deputado socialista que agora entrou na competição pelo Palácio de Belém que, quando se trata de decidir sobre quem mandar a votos, as direcções partidárias preferem os candidatos que lhes parece terem hipóteses de ganhar, secundarizando qualquer outra razão de escolha. Um previsível mau presidente, mas que se apresente com a aparência de bom candidato, é preferível à hipótese inversa, quando, na óptica de quem decide, não é possível fazer o pleno nos dois critérios. Impera a perspectiva de que os partidos existem para ganhar eleições. Ao apoiar Mário Soares, a liderança do PS limitou-se a fazer a sua aposta no ensinamento da velha máxima.
O discurso crítico de Manuel Alegre em relação às fracas possibilidades competitivas de quem decida correr por sua conta e risco acompanhou as suas indecisões. O deputado perdeu o tempo de reacção que poderia ter mobilizado apoios e, embora as sondagens indiquem que seria capaz de fazer melhor figura do que Soares numa eventual segunda volta contra Cavaco Silva, a sua solidão parece evidente. A disciplina persegue-o. Na sequência do anúncio de que estava na disposição de se lançar na batalha, os notáveis do PS que compareceram a jantares de apoio apressaram-se a revelar que, no fim de contas, obedeceriam aos ditames do partido.
Se Manuel Alegre precisava de mais provas de que a direcção do seu partido é que manda, não poderia ter encontrado melhores provas. Afinal, os indícios estavam sentados mesmo ao seu lado durante os repastos que lhe foram alimentando a ilusão de poder contar com apoios com impacto público como Vera Jardim, Maria de Belém ou Alberto Martins. Na política, por vezes aquilo que parece não é.
A constipação
da Autoeuropa

fábrica de Palmela da Volkswagen perdeu a corrida para a produção de um novo modelo da marca e a Yahoo! decidiu não instalar a sua sede na zona franca da Madeira. Os motivos que justificam estas opções são diversos. No primeiro caso, uma feroz competição interna entre unidades de produção da multinacional teve um desfecho que deixa interrogações sobre o futuro de uma empresa que tem um peso elevado na economia portuguesa. Na segunda situação, razões puramente fiscais, ligadas ao aumento da taxa normal do IVA para 21 por cento, estiveram na base da escolha do Luxemburgo. Em ambos os casos, o país ficou a contar com mais dois exemplos que ilustram a incapacidade actual para conquistar novos projectos.
Os temas foram notícia esta semana, poucos dias antes de ficar a saber-se que Portugal tinha registado uma evolução positiva na classificação global do World Economic Forum (WEF) sobre a competitividade. Teoricamente, o país estaria mais atraente para o investimento estrangeiro, mas a realidade prática mostra-se contraditória com aquela conclusão. Desafiado a comentar a questão, Fernando Teixeira dos Santos, actual ministro das Finanças, mostrou-se prudente ao declarar haver ainda um longo caminho a percorrer. Fez bem. Por detrás da boa notícia incluída no relatório do WEF permanecem os mesmos obstáculos de sempre ao objectivo de fazer do país um destino favorito para quem tenha planos de investimento.
No topo dos entraves está o Estado e a sua máquina burocrática, sempre disponível para erguer ineficiências, demoras e atrasos onde eles são absolutamente dispensáveis. Uma maioria relativa dos gestores e empresários inquiridos pelo WEF identifica este mal crónico do país como o principal factor de desmotivação para quem pretenda montar um negócio em território nacional. E colocam esta situação à frente de matérias como a rigidez da legislação laboral ou a fraca qualificação dos recursos humanos em relação a concorrentes que, neste ponto específico, não só se revelam mais bem preparados, como até apresentam menores custos.
Caso se junte a estes alertas o facto de um trabalho da consultora Ernst & Young ter revelado que o sistema judicial e a instabilidade das políticas são dois outros fortes empecilhos ao aumento do interesse dos investidores estrangeiros por Portugal, fica completo o quadro de problemas que necessitam de ser ultrapassados se o país quiser reduzir a perigosa sensibilidade que demonstra a tudo o que se passa na Autoeuropa. Se a empresa se constipa, o país fica ameaçado de contrair uma pneumonia. O que mais impressiona é que nada disto é novo ou desconhecido.
Jornalista