segunda-feira, setembro 12, 2005

Nova Orleães ou o outro lado da América

Fernando Rosas, Público, 7 de Setembro de 2005

Há duas ideias feitas sobre as catástrofes da natureza que os efeitos do furacão no estado da Luisiana e, em particular, na cidade de Nova Orleães desmentem cruelmente.
Primeira: a dimensão do desastre nesta cidade não se deve nem principalmente, nem directamente, à fúria dos elementos, mas à incúria dos responsáveis locais e estaduais que descuraram a reparação do dique que sustinha as águas nessa cidade, em grande parte construída abaixo do nível do mar. O Katrina rebentou com o dique, porque ele há muito precisava do reforço estrutural que não lhe deram. Jamais o furacão teria os efeitos que teve, apesar da sua grande violência, se o dique se não tivesse rompido. É um desastre cujas causas têm responsáveis. E há muita gente nos EUA a exigir que se apurem essas responsabilidades.
Segunda: ao contrário do mito corrente, a tragédia de Nova Orleães não tratou todos por igual, não foi nem social, nem racialmente cega. Foram os mais pobres e os negros, sendo a esmagadora maioria dos mais pobres negros, que sofreram mais duramente a tragédia da cheia e do abandono. Cerca de 70 por cento do meio milhão de habitantes da cidade são afro-americanos e, desses, cerca de 15 por cento viviam abaixo do nível de sobrevivência. Das sete zonas da cidade mais atingidas pelas águas, cinco são de maioria negra, com índices de pobreza de mais de um terço da população. Em certos bairros, as condições de pobreza atingiam os 50 por cento dos habitantes.
Acontece que nestas zonas, mesmo quando se conheceu a inexplicavelmente tardia ordem de evacuação das autoridades, as pessoas não tinham como sair pelos seu próprios meios, não tinham carro, não tinham dinheiro para os alugar e não houve nem um simulacro de meios públicos postos à sua disposição para poderem abandonar os bairros onde a água subia. Os pobres - ao contrário do que se passou nas zonas de população mais abastada - não tiveram alternativa, ficaram encurralados: pendurados nas árvores, nos telhados das casas a ameaçar ruírem, nos espaços imersos das auto-estradas ou das pontes, ou pura e simplesmente foram tragados pela espantosa inundação. E ficaram assim, totalmente abandonados sem qualquer auxílio durante dias a fio, implorando por ajuda, água ou comida aos que os observavam à distância, a morrer ou a ver morrer os seus mais próximos, aos poucos, de inanição, de sede, de doença, de cansaço, até que o protesto da opinião pública e o espanto indignado do mundo obrigaram o Presidente Bush a sair do rancho do Texas e a tomar medidas de socorro urgentes e em massa, enquanto sobrevoava a cidade mártir sem nela ousar aterrar.
Mesmo os que, em Nova Orleães, lograram alcançar e proteger-se nos grandes espaços do Centro de Convenções e do pavilhão Superdome cedo viram esses lugares de abrigo transformar-se em verdadeiros infernos concentracionários, com milhares de pessoas sem água, sem instalações higiénicas, sem comida, sob um calor abafador, onde, à míngua de os assistirem ou de os tirarem de lá, explodiram agressões, assassinatos, violações e se instalou o pânico generalizado. Enquanto cá fora, nas ruas devastadas, bandos de gente desesperada se entregavam à pilhagem e ao saque ou aos assaltos.
De repente, no país mais rico do mundo, na América do esplendor da tecnologia, da arrogância do império, da capacidade da guerra sem fim em qualquer parte do mundo, das sondas espaciais, na América da livre iniciativa, da concorrência sem limites, das mil oportunidades, na América do neoliberalismo sem barreiras, a tragédia de Nova Orleães fazia aparecer o Bangladesh, revelava a miséria, o horror e o caos dos piores cenários de desastre do Terceiro Mundo. Descobria o reverso da medalha. Sintomaticamente, a única garantia que se terá ouvido às autoridades locais nesses dias de horror foi que disparariam à vista sobre os saqueadores, como se fossem coelhos.
De repente, surpreendemos a América capaz de montar e financiar a mais mortífera máquina de guerra para bombardear a população civil de Falluja no outro lado do mundo, mas que não tinha, quando foi preciso ter, nem helicópteros, nem autocarros, nem transportes para resgatar, socorrer e defender as dezenas de milhares de negros pobres de Nova Orleães abandonados à sua sorte. A América que deixava apodrecer os diques de que dependia a vida de centenas de milhares de cidadãos, como se fosse o governo de um Duvalier qualquer.
A América gravemente ferida do desamor pelo próximo, das profundas e crescentes desigualdades e discriminações sociais e étnicas, da exclusão sem remédio, da progressiva e implacável desestruturação comunitária, da violência quotidiana para com os mais pobres, a América de um capitalismo impiedoso, recoberto, cada vez mais, de fanatismo religioso, onde acontecimentos como este revelam dramaticamente a essencial fragilidade da fronteira que separa a civilização da barbárie, a dignidade e o direito da miséria e do caos.
Mas confirmou-se, também, a força da América da indignação perante os revoltantes contornos da tragédia, da solidariedade que forçou literalmente a Administração Bush, ainda que com vários dias de atraso, a adoptar um programa de ajuda às vítimas, a América que pede contas e quer explicações para a incúria e a demora. O futuro do clã Bush e da sua corte, epígonos da América do cinismo e da indiferença, não ficou, seguramente, facilitado com o ambiente de protesto contra a forma como geriram a presente crise.
O certo é que a imensa tragédia de Nova Orleães e da Luisiana nos ensinaram mais sobre a ética e a lógica do capitalismo dos dias de hoje do que bom número dos discursos que sobre ele se tenham feito. Professor universitário