sexta-feira, agosto 19, 2005

Voos Paris-Bragança enchem aviões da Aerocondor

ligações garantidas só até 18 de setembro
Voos Paris-Bragança enchem aviões da Aerocondor

por Ana Fragoso, in Publico, 18 de AGosto de 2005


O êxito da ligação está a mudar hábitos dos emigrantes. Continuação da linha depende da certificação do aeródromo local

Aos 81 anos de idade, Carolina Cremilde, de São Pedro de Sarracenos, viu pela primeira vez, de perto e ao vivo, um avião de média dimensão e sem sair do concelho onde sempre viveu, Bragança. Um ATR 42, com 49 lugares, da Aerocondor, que desde o passado dia 27 de Julho efectua, a título experimental, ligações Bragança-Agen-Paris (Orly). Na passada sexta-feira, o avião chegou de França lotado. Aliás, nos dois últimos voos com partida de Paris as taxas de ocupação situaram-se entre os 80 e os 100 por cento, o que "excedeu as expectativas da empresa", confessou Fernando Lopes, director comercial da Aerocondor.
Entre os passageiros que utilizaram esta ligação no passado dia 12, encontrava-se uma das filhas de Carolina, que vive e trabalha em Paris: "Vem por poucos dias. Se tivesse de vir de carro, era mais difícil", conta a octogenária, já emocionada e ansiosa depois de ver o avião aterrar, mas ainda à espera que a filha entrasse na sala de espera do aeródromo municipal. Também por poucos dias, "apenas para passar o fim-de-semana", chegou Bruno Tainha, de 33 anos. "Venho para ver a família; se não existisse esta ligação, era impossível ter vindo nesta altura", disse. Virgínia, mãe de duas meninas de dois e seis anos, contava aos familiares como é bom "chegar em apenas quatro horas" de Paris a Bragança. "Nós costumamos vir de avião, mas sempre até ao Porto; depois ainda tínhamos de alugar um carro e fazer uma viagem de três horas até chegar a Bragança e com as miúdas é complicado", explicou. O marido, que não gosta "de vir de carro", referiu que "há muito tempo que os emigrantes esperavam por esta linha".
A viagem de carro de Paris até Bragança demora, em média, 16 horas, sem contar com os engarrafamentos na zona da fronteira que se repetem, ano após ano, no início de Agosto. De autocarro, o percurso é ainda mais demorado. "São 20 a 22 horas, o que é extremamente cansativo", comentou Stephanie Pereira, de 26 anos, residente em Paris, que tem toda a família a viver em Agrochão, perto de Torre de Dona Chama. A família desta jovem não escondia o entusiasmo com a sua chegada e ainda mais porque a própria anunciou que "se o avião continuar" vai vir à região com mais frequência. "Eu, de autocarro, pagava 100 euros pelo bilhete; no avião paguei por volta de 150. Não é muito", considerou.
Os preços agradam aos emigrantes, que fazem contas aos gastos com o combustível, as portagens e as refeições, sem contar com o tempo da viagem de automóvel. "Só me parece mal que as crianças paguem o mesmo preço que os adultos, incluindo uma criança de dois anos", criticou um passageiro.
O avião sai de Paris à sexta-feira, às 15h40, e chega a Bragança às 18h45, regressando a França à segunda-feira, com partida marcada às 9h40 e chegada prevista às 14h40.

Curiosos e potenciais
clientes à espera do avião
O cenário tem-se repetido nas últimas sextas-feiras. Por volta das 18h00, o aeródromo de Bragança começa a receber gente de vários pontos do distrito que quer ver chegar o avião que vem de Paris. De máquina digital na mão, os curiosos recorrem à varanda do bar do aeródromo para registar o momento da aterragem. "É magnífico", exclamou António Fernandes, um emigrante residente em Paris que vem à terra natal, Coelhoso, no concelho de Bragança, pelo menos duas vezes por ano. "A partir de agora vou passar a viajar de avião", garantiu.
Este entusiasmo era partilhado por Rosa Pontes e pelo marido, dispostos a deixar o carro em Portugal e a regressar a Paris de avião. "Quando viemos, fizemos a viagem em dois dias: ficámos uma noite num hotel porque é muito aborrecido fazer o trajecto de uma só vez. Agora, já que existe este serviço, vamos aproveitar e regressamos de avião", explicou. Esta transmontana, residente há 33 anos em França, vem à região apenas uma vez por ano, mas "se o avião continuar, está garantido" que vem "pelo menos no Verão, Natal e Páscoa".
Mas nem todos "os curiosos" tinham o mesmo propósito. Muita gente desloca-se ao aeródromo "só para ver". Maria Elisa, de Bragança, não conseguiu ver o avião "na televisão no dia da inauguração da linha", por isso deslocou-se ao aeródromo com o marido. O casal não tenciona viajar, mas fica satisfeito "com o desenvolvimento da cidade".
Atento a todas estas movimentações está Américo Martins, por enquanto o único taxista do aeródromo, que até agora só conseguiu fazer "um frete" com os passageiros que chegam de Paris, "porque a maioria tem familiares que os vem aqui buscar". Mesmo assim, diz que gosta de "ver o movimento" e espera que as ligações continuem.
Apesar do sucesso das ligações, a Aerocondor não garante a sua continuidade a partir do dia 18 de Setembro. O director comercial, Fernando Lopes, adiantou que estão previstos voos no período do Natal e passagem de ano e na Páscoa. "Estamos a pensar no próximo Verão realizar três voos semanais, mas a regularidade da linha ao longo de todo o ano ainda não a podemos assegurar", admitiu. Estas reservas prendem-se com a certificação definitiva do Aeródromo de Bragança.