quarta-feira, agosto 03, 2005

Videojogo é proibido na Austrália e gera controvérsia política nos Estados Unidos

Público, 3 de Agosto de 2005

GTA San Andreas foi sempre discutido pela sua violência. Agora descobriu-se que tem escondidas cenas de sexo explícito

A comissão de classificação de filmes e literatura da Austrália tomou ontem a decisão radical de proibir um videojogo que na última semana e meia levantou nos Estados Unidos uma tremenda controvérsia moral, judicial e política. O jogo campeão de vendas Grand Theft Auto: San Andreas incorreu em "pecado" há cerca de duas semanas, quando foi revelado que existia um "código" (o mod Hot Coffee) que permitia o acesso a uma área escondida na qual se encontram cenas de sexo explícito.
Nos Estados Unidos, numa primeira reacção, a comissão de classificação de jogos colocou de imediato o GTA: San Andreas na categoria "só para adultos", o que, teoricamente, terá um efeito limitador sobre as vendas.
Na Austrália, onde os "censores" são, por tradição, conservadores nestes casos, esta não é a primeira proibição de um jogo. Já antes tinha acontecido com Manhunt. Simplesmente, como a aplicação da lei é muito mais estrita do que nos Estados Unidos, o GTA: San Andreas ficou efectivamente condenado a uma existência clandestina.
"As lojas que vendem ou alugam jogos de computador devem retirar imediatamente das suas prateleiras este jogo", sentenciou Des Clark, director da comissão de classificação. "E os pais devem agir com cautela ao permitirem o acesso continuado de crianças a este jogo."

Avó pôs processo
O fabricante, a Rockstar, já anunciou estar a criar uma versão do jogo expurgada dos conteúdos escondidos, mas isso não o livrará de responder em tribunal a um processo invulgar apresentado a semana passada em Nova Iorque.
Uma mulher alegando estar perturbada por ter comprado o jogo ao neto de 14 anos sem conhecer o verdadeiro conteúdo pôs em tribunal a Rockstar e a editora, a Two-Way, em nome de todos os consumidores dos Estados Unidos, pedindo uma indemnização não especificada e afirmando que a empresa deve prescindir dos seus lucros sobre o jogo por ter incorrido em crimes de publicidade falsa, engano dos consumidores e práticas comerciais injustas.
A empresa, numa primeira reacção à controvérsia, afirmou que as cenas escondidas não faziam parte dos jogos postos à venda, mas mais tarde admitiu que sim. A Rockstar afirmou depois que a produção do jogo na sua forma "controversa" foi inteiramente suspensa.
O caso GTA: San Andreas tomou uma tal dimensão que chegou às mais altas esferas da política norte-americana. A meio da semana passada, a Câmara de Representantes aprovou uma resolução, com 355 votos a favor e 21 contra, em que pede uma investigação federal à empresa.
Também a senadora por Nova Iorque Hillary Rodham Clinton interveio na polémica, ao pedir que fosse feita essa investigação e sugerindo que a empresa tinha agido de forma a enganar os sistemas de classificação ao esconder as cenas de sexo às quais é possível aceder através de programas de computador disponíveis na Internet. Para Hillary, jogos violentos e cheios de sexo como o GTA afectam "a actividade cerebral [dos jovens], o que os torna, em especial os rapazes, mais agressivos".
Desde o seu lançamento que o jogo (existem versões para computador, PlayStation2 eXBox) conseguiu notoriedade por ser particularmente violento e "picante". A sinopse oficial descreve o regresso de Carl Johnson a San Andreas, uma cidade "arrasada por problemas entre gangs, droga e corrupção, onde as estrelas de cinema e os milionários fazem o seu melhor para evitar os negociantes e os gangs". Estamos no princípio dos anos 90, e a mãe de Carl foi assassinada, a família está "destroçada" e os amigos de infância "arrasados".
Há polícias corruptos e o "herói" nem sempre segue os caminhos da lei - actividades criminosas e violentas são recompensadas. Com tudo isto, o videojogo é desde 2004 um dos grandes best-sellers de 2004 em todo o mundo, Portugal incluído. E isto quando ainda quase ninguém saberia das cenas escondidas.
Em fóruns de debate de videojogos, já se alerta entretanto para o que poderá ser um próximo alvo da ira de sectores mais conservadores. Nada mais, nada menos do que outro best-seller, The Sims 2. Desta vez, a acusação, ainda por formalizar, parte da possibilidade de, com os códigos adequados, ser possível ver personagens do jogo integralmente nuas. Antes que o caso avance, o fabricante, a Electronic Arts, já esclareceu que não há sexos por baixo dos pixels que, pudicamente, tapam as zonas erógenas dos bonecos.