terça-feira, agosto 23, 2005

O fogo de Colónia

por Graça Franco
in Público, 22 de Agosto de 2005

Se a Igreja fosse uma multinacional, e a eleição papal correspondesse à escolha de um novo Chairman, Bento XVI nunca teria sido Papa. Segundo os critérios de gestão puramente humanos ele seria provavelmente o último da lista dos candidatos à sucessão de João Paulo II. As suas intervenções, enquanto braço-direito do anterior pontífice, correspondiam à face mais "antipática" de um pontificado absolutamente excepcional e podiam até ser vistas como tendo contribuído para isentar o anterior Papa de uma parte substancial da responsabilidade no alegado "retrocesso" em termos de doutrina e moral.
A figura de "pastor-alemão", com toda a carga mais ou menos pejorativa associada, servia-lhe, seguindo os vários critérios mediáticos, como uma luva. No seu currículo ressaltava o cargo de prefeito para a doutrina da fé, que é como quem diz, o zelador máximo da ortodoxia ou uma espécie de "inquisidor" dos tempos modernos. Numa lógica humana, a figura de número dois seria afastada com um pragmático voto de louvor pelos bons serviços prestados.
A assembleia-geral passaria depois à busca da renovação da liderança, maximizando o potencial dos candidatos provenientes das zonas "em expansão", capazes de desencadear estratégias conducentes a atrair cada vez "mais clientes", capitalizando uma nova onda de simpatia mediática. Surgiriam, então, os nomes dos cardeais africanos, da América Latina ou asiáticos (para apanhar o ar dos tempos das novas lideranças mundiais). Nem os católicos conseguiam fugir a este tipo de análise "politica" na fase pré-conciliar.
Não foi assim. Porque não é assim. Mas se dúvidas existissem... aí estava a confirmação! Imagino que para um não crente deve ser difícil aceitar a participação do Espírito Santo. Sobretudo, tendo em conta a história da Igreja recheada de uma extensa e infeliz sucessão de "erros" na escolha papal. É difícil perceber que essa inspiração divina não se sobrepõe à liberdade individual dos cardeais eleitores. É, no entanto, essa a mais absoluta prova da divindade de Deus. Nenhum de nós se "fosse Deus" admitiria uma Criação livre, com aquele chorrilho de asneiras bem à vista no mundo actual, resultante de múltiplas escolhas erradas. Nunca arriscaríamos o escrutínio livre das pobres criaturas. Haviam de ser obrigadas a adorar-nos. Ponto final.
O Espírito Santo não decide "em vez de...", e ao inspirar a escolha torna-se dependente da rectidão de intenção dos que participam na reunião. Eles são co-responsáveis. Deus conta com o seu discernimento humano para que a escolha seja a melhor. A obediência na Igreja nunca pode ser cega nem acrítica.
À luz desse discernimento humano, cedo se ouviram as vozes dos que diziam que Bento XVI era, como o seu antecessor, um homem de superior inteligência e, tal como ele, um homem de uma inquebrantável fé. Capaz de debater a sua própria religião com ousada abertura mas sem subserviências intelectuais. Sobretudo, alertavam para o facto de o novo Papa ser um "grande crente".
Os últimos três dias foram o primeiro grande teste. E, até os mais críticos começam a baixar a guarda perante uma apoteótica consagração pela juventude. João Paulo II convocara os jovens para Colónia e ao novo papa restava o desafio de confirmar o convite ou optar pela desmobilização. Confirmou-o. Colónia viveu a grande jornada de dois papas.
A mais difícil. No coração da velha Europa descristianizada, gélida e triste. Ali, exactamente, no seio da Comunidade Católica mais "crítica" e dividida. Os que, como eu, viveram nos países do norte sabem bem o que isso significa de desafio. Ali, até o abraço da Paz se transforma num distante aperto de mão, numa respeitosa inclinação de cabeça. É difícil entrar no coração dos nórdicos com o calor do sul. Os alemães não são como os polacos. A simples noção de festa, tal como a encaramos com naturalidade, parece-lhes sinónimo de um desajustado destempero. Não há comparação com a América ou com a vivência multicultural de Paris. Colónia é Alemanha pura...
Afinal a festa foi tão grande que os jornais a compararam às digressões dos Beatles e ao Woodstock. O que não se perguntaram, os analistas que assim se precipitaram a explicar o fenómeno do ponto de vista sociológico, foi o porquê deste "ídolo" não corresponder ao ideal de identificação dos próprios jovens. Bento XVI só canta na missa. Ninguém dorme a sonhar que se fosse ele passeava de descapotável, ganharia milhões, e teria todas as pequenas aos seus pés. Neste festival não são as drogas, o sexo fácil, e os rios de cerveja a principal atracção. Aqueles jovens estão ali para rezar. Passam noites a rezar pela Paz. Dirão alguns que isso é apenas uma nova "liturgia" das velhas manifs pró-Love... Erro fatal.
Oitocentos mil ou um milhão (mais do dobro dos inicialmente previstos...) vieram de duzentos países. Conheço alguns que trabalharam todo o ano juntando dinheiro para estarem lá. Outros que trocaram ofertas de visitas a lugares de sonho para convergirem para ali. Para ir ao encontro de um Homem que os remete para Cristo e lhes diz que é possível ser fiel à mensagem de salvação, lançada há dois mil anos, por um outro homem que acabou crucificado por se dizer filho de Deus. Por testemunhar teimosamente que Ele existe e ama por igual os justos e os pecadores.
Não são umas velhinhas beatas, afogadas em negro, que o aclamam. Em rigor, ninguém aclama este velho de branco de quase 80 anos. Os que ali estão não estão por ele. Tal como os dois mil e quinhentos, jovens e crianças, que acompanhavam a oração do irmão Roger (de 90 anos!) no momento em que foi assassinado, ainda há poucos dias, em Taizé. É essa a grande diferença com as estrelas de rock. Aqueles jovens estão ali para partilhar a festa e responder presente ao desafio de testemunho que ele representa. Por que a sua figura de "avô capaz dos ouvir" remete para a figura um Pai capaz de os amar. E como o novo Papa ontem lembrava, o que pode salvar-nos senão o Amor? Não um amor qualquer. Não os vários amores. O próprio Amor.
Agradeço a João Paulo II ter aparecido na minha vida no momento de profunda solidão dos jovens crentes. Éramos um bando de loucos a remar contra uma corrente que embarcara na certeza absoluta da inexistência de Deus. O yupismo dos anos oitenta foi apenas o mais rasteiro dos ateísmos-materialistas. Não sei se é herético afirmá-lo mas acho, tal como Bénard da Costa, que cada um de nós terá vários papas ao longo da sua vida mas um deles acabará por ser o papa das nossas vidas! João Paulo II será provavelmente o meu.
Mas a Bento XVI posso já agradecer a alegria de ter conseguido que esta juventude não se sinta só. Por ter ajudado a recuperar o sentido de festa que é inerente à própria fé. Um milhão estava em Colónia. Muitos outros milhões ficaram por aí. A Igreja pode continuar a ser merecidamente criticada, mas é com inexplicável orgulho que a vemos não abdicar da liderança no combate pelas boas causas. Nas suas redes - como reconheceu o Papa em Colónia - há peixes bons e peixes maus. Cristo já avisara os do seu tempo, que nos seus campos e até ao fim dos tempos Deus deixaria crescer, a par e passo, o trigo e o joio.
Há um novo fogo de esperança que abrasou a gélida e velha Europa. Talvez possamos todos aprender com este milhão de jovens que é possível salvar o mundo em que vivemos. Que os confrontos (de religiões ou de civilizações) não são inevitáveis nem fazem parte do pacote do futuro. A Paz é possível Aquela Paz que os anjos prometeram numa noite em Belém. Reservada aos homens de Boa Vontade. Sejam eles crentes ou não.
João Paulo II gritou aos jovens: Levantai-vos e vamos! Provando que confiava neles. Bento XVI veio dizer-lhes agora "Segui a Cristo custe o que custar!" O martírio dos jovens padres brasileiros assassinados nas últimas semanas dá uma pálida visão da dimensão do sacrifício. Quem disse que os jovens preferem o facilitismo? Jornalista