segunda-feira, julho 18, 2005

A GRANDE MENTIRA

por VASCO PULIDO VALENTE, 17 de Julho de 2005

Anteontem, houve uma greve do funcionalismo, polícias que extravagantemente ameaçaram cortar as pontes de Lisboa e um protesto de militares no activo que se declaram em resistência até ao limite da legalidade, seja ela qual for. Ver isto pela fórmula simples da "agitação social" não ajuda muito. Esta espécie de "agitação", mesmo que varie o seu grau de sucesso, não vai acabar. Por uma razão simples. Desde o 25 de Abril que o Estado-Providência se tornou, com trinta anos de atraso, no fundamento do futuro e da vida de milhões de portugueses. Directamente, porque lhes dá emprego, ou indirectamente porque, em teoria pelo menos, se encarrega de lhes pagar a educação dos filhos, de os tratar na doença e de os sustentar na velhice. Bem sabemos que mal. Mas de qualquer maneira o ponto está em que o Estado-Providência substituiu a responsabilidade de cada indivíduo por si próprio e que hoje quase todos nós dependemos dele.
O que, em princípio, não seria trágico, se ele fosse indefinidamente sustentável. Quando na Europa, depois da II Guerra, o começaram a organizar a sério, não passou pela cabeça de ninguém que as funções do Estado-Providência crescessem como cresceram e que o preço dos seus serviços chegasse onde chegou. O ensino "universal e gratuito" era sumário, a medicina primitiva e os reformados morriam economicamente por volta dos setenta anos. Ainda por cima, uma população jovem podia financiar facilmente tudo isso. Agora, não. A população envelheceu, os cuidados médicos são cada vez mais caros para cada vez mais gente e o ensino alastrou, sem lógica nem senso, do pré-escolar à universidade. O Estado-Providência está virtualmente falido.
Só que a "Europa" e Portugal com ela, reconhecendo vagamente a realidade, se recusam a agir em consequência. Vivemos numa ficção política ou, se quiserem, numa grande mentira. Como Barroso e Sócrates, na Alemanha, em França e em Itália, vários governos tentaram pôr remendos por aqui e por ali para atenuar ou disfarçar as coisas. Não resolveram nada e ficaram a ser cordialmente odiados. Sempre alimentada pela irresponsabilidade e pelo medo, a grande mentira não se desfaz sem dor. A nossa história já é hoje a história da ruína do Estado-Providência, que de medida em medida em medida e de orçamento em orçamento irá desaparecendo. Não é a história de um acidente ou de um "mau bocado". É a história de um mundo que se extingue. Não sem desespero.