domingo, julho 17, 2005

E OS CALHAMBEQUES?
factos à medida LÚIS COSTA, Público, 17 de Julho de 2005

A explicação está encontrada: os resultados da sondagem da Universidade Católica que atribuem uma vitória esmagadora a Rui Rio sobre Francisco Assis nas próximas eleições autárquicas foram amplamente condicionados pelo estrondoso êxito do investimento da Câmara do Porto no regresso - que teve uma repercussão assaz planetária - das corridas de calhambeques de há 50 anos.
O pormenor pode ter passado despercebido à maioria das pessoas, mas a ficha técnica da referida sondagem não deixa margem para quaisquer dúvidas: o trabalho de campo foi realizado entre 4 e 6 de Julho, ou seja, nos dias subsequentes ao monumental desfile de donas-elviras que passou a figurar no livro Guinness dos recordes, e na antevéspera da realização do Grande Prémio da Boavista, numa altura em que os potenciais inquiridos da sondagem já fervilhavam de expectativa face à proximidade temporal do monumental evento.
Tal como se esperava, e a Câmara Municipal do Porto havia anunciado, a cidade foi literalmente invadida por dezenas de milhares de forasteiros que quase duplicaram a sua população residente. O exemplo é singular e pode parecer provinciano a quem desdenhe de tão marcante iniciativa, mas vale a pena citar as palavras de Domingos Piedade, figura de proa do mundo automóvel: "Eu não vinha de certeza ao Porto neste fim-de-semana se não fosse por isto". Mas veio. E isso é que conta.
E que dizer da visibilidade mediática do Grand Prix, nomeadamente da sua anunciada transmissão televisiva para 45 países de quatro continentes, o que terá proporcionado a fruição de tão indelével acontecimento a sensivelmente 1600 milhões de pessoas localizadas em mais de 390 milhões de lares de todo o mundo? Felizmente que um desses lares era o meu, que tenho uma parabólica com mais de 150 canais, e desse modo não tive de restringir-me às ligações em directo da SIC Notícias - que era parceira comercial do evento - ou às escassas referências que foram feitas nos noticiários vespertinos da RTPN.
Só foi pena que o portuense Tiago Monteiro não estivesse presente na tenda VIP do ressuscitado circuito (onde se fez notar a presença efusiva de Valentim Loureiro) porque nesse mesmo fim-de-semana estava a chegar ao fim da sua décima primeira corrida consecutiva no Grande Prémio da Grã-Bretanha de Fórmula 1, onde as performances de Fernando Alonso, Kimi Raikkonen e Juan Pablo Montoya não se revelaram suficientes para ocultar o brilho mediático - pelo menos nas estações televisivas que fui picando no meu zapping - proporcionado por Michael Schryver, Urs Eberhardt, Denis Welsh ou Adrian Van der Kroft.
Como é de esperar, porque os invejosos não são magnânimos, o mais recente feito de Rui Rio na liderança da autarquia portuense vai suscitar reacções políticas adversas. Por isso, que ninguém fique admirado se viermos a assistir a uma reedição do braço-de-ferro do túnel de Ceuta, agora a propósito do chumbo governamental à construção da Linha Laranja do metro. Não porque essa linha seja laranja (o que até seria ideologicamente plausível), mas apenas e só porque a sua construção será decisiva para saldar os custos associados ao Grande Prémio da Boavista. A bem da cidade, esperemos que Rui Rio não esmoreça na luta que se antevê, começando desde já a preparar visitas guiadas ao parque de estacionamento do Castelo do Queijo e ao lustroso pavimento que passou a cobrir os paralelos da Rua da Vilarinha.
Em suma, e para gáudio de um tripeiro que se preze, pode afirmar-se sem rebuço que a cidade do Porto se apropriou definitivamente do pódio que os circuitos de Vila Real ou de Vila do Conde ocupavam nesse imenso espaço de afectos que é a nossa memória colectiva.
Acresce que o Porto, graças à persistência deste Rio que não pode parar, acabará por destronar a vila do Caramulo como ícone nacional das velhas relíquias automóveis. Isto apesar de uma comunicação social hostil, ingrata e manipuladora só evocar a importância do património quando está em causa o Palácio dos Carrancas. E os calhambeques, meus senhores, não são património?