domingo, julho 17, 2005

Disputa eleitoral em Amarante suja águas do Tâmega

por Jorge Marmelo, Público, 16 de Julho de 2005


Presidente da câmara acusa apoiante de Ferreira Torres de poluir deliberadamente o rio. Administrador da Petrotâmega desmente acusações

O presidente da Câmara Municipal de Amarante, Armindo Abreu, acusou ontem, em declarações ao PÚBLICO, a empresa Petrotâmega de estar a efectuar descargas poluentes de hidrocarbonetos para o rio Tâmega. De acordo com o autarca, a Brigada do Ambiente da GNR terá mesmo levantado um auto de contra-ordenação durante a madrugada de ontem, após a fonte poluidora ter sido detectada por um dos vereadores da edilidade e por dois presidentes de junta.
O episódio assume contornos que excedem a esfera da poluição ambiental, uma vez que o proprietário da empresa acusada é Jorge Pereira da Silva, um dos fundadores do movimento Amar Amarante, pelo qual o ex-presidente da Câmara do Marco de Canaveses, Avelino Ferreira Torres, se candidata à autarquia amarantina em Outubro próximo, contra Armindo Abreu.
Segundo o edil socialista, o rio Tâmega tem sido objecto, este Verão, de várias descargas poluentes, as quais provocam um "cheiro intensíssimo". "As pessoas que estão nas esplanadas têm sido obrigadas a retirar-se para o interior dos cafés, uma vez que o cheiro a gasóleo é insuportável", disse Armindo Abreu ao PÚBLICO. Para tentar combater os efeitos da poluição, a autarquia adquiriu já um composto químico capaz de absorver os hidrocarbonetos, tendo igualmente reforçado a vigilância no sentido de detectar os prevaricadores.
"Casualmente", segundo Abreu, três eleitos locais terão, na noite de anteontem, detectado a realização de descargas no posto de abastecimento de combustíveis da Petrotâmega, na margem esquerda do rio, junto à zona do Queimado. Acompanhados por militares da GNR, os autarcas recolheram amostras do produto poluente, o que foi confirmado ao PÚBLICO por Jorge Pereira da Silva. "Vi-os lá e prestei-me a dar todos os esclarecimentos necessários", disse, rejeitando "absolutamente" que tenha ocorrido qualquer descarga poluente a partir do referido posto de abastecimento de combustíveis.
O comandante do posto da GNR de Amarante, tenente Babo Nogueira, confirmou, em declarações à agência Lusa, que "a GNR esteve a recolher uma amostra de águas no canal que desagua no Tâmega e a fazer uma reportagem fotográfica" da mancha poluidora. "A situação vai ser agora relatada ao tribunal", disse, acrescentando que se tratará de um aditamento a uma queixa apresentada anteriormente sobre o mesmo problema. Quanto às causas e aos motivos destas descargas, aquele responsável disse que "não compete à GNR tirar qualquer tipo de ilação, estando o inquérito a cargo do tribunal".
Armindo Abreu, porém, aponta o dedo ao conhecido apoiante de Avelino Ferreira Torres e fala mesmo em "acto premeditado de sabotagem", tendo em conta a quantidade e a repetição dos episódios de poluição. "Tem havido actuação dolosa. Em alguns dias, creio que para despistar, as descargas têm ocorrido na margem oposta do rio, a partir de locais onde não existe nenhuma bomba de gasolina", acusa o autarca. "Vamos ver se a câmara tem competências para selar o posto", adiantou Abreu, para quem as descargas têm também um objectivo económico, reduzindo os custos com a lavagem dos filtros do posto e com o transporte dos resíduos.
Jorge Pereira da Silva garante, porém, que nem sequer tem conhecimento oficial de que tenha sido levantado qualquer auto contra a empresa, garantindo que tudo não passa de um caso de "vingança política", no âmbito de uma "perseguição" que dura há 16 anos. "É que eu sou socialista, mas não sou "chuchalista"", disse ao PÚBLICO. "As amostras foram retiradas na via pública e não nas instalações da empresa", argumenta, acrescentando que, aquando da visita da GNR, o posto já estava fechado "há meia hora". "Estão a confundir isto com política, mas creio que não deve funcionar", disse.
O administrador da Petrotâmega garante ainda que aquele posto de abastecimento está dotado com "equipamentos actualizados e devidamente legalizado". "Se todos fizessem o mesmo, não havia tantos problemas de poluição", contra-ataca, referindo que há vários anos vem alertando para a deficiente concepção da rede de esgotos do concelho. "O rio está permanentemente poluído, devido à existência de infra-estruturas desadequadas", alega.
Armindo Abreu, por seu lado, afirma esperar que o "esclarecimento público da situação" contribua para o fim das descargas para o rio Tâmega.