segunda-feira, julho 18, 2005

Das Elites

RETRATO DA SEMANA
por ANTÓNIO BARRETO, Público, 17 de Novembro de 2005

Em plena revolução, no Verão de 1975, conheci o Vasco Pulido Valente. Tinha eu pouco mais de trinta anos e exercia, há dias, funções no Governo. Ficámos amigos. O princípio da nossa conversa ficou retido na memória. Ele tinha-me ouvido dizer, uns dias antes, que se deveria "promover o crescimento de novos empresários". Não sei se disse "de uma classe empresarial", mas o espírito deveria ser esse. Ele troçou e disse: "Com essas ideias, você dá-lhes subsídios, ajuda-os e depois vai encontrá-los no Rossio a vender relógios suíços de imitação. Se é que antes não puseram o dinheiro lá fora"! Apesar de já então não ter ilusões quanto à capacidade de "criar" classes sociais através de políticas e de reformas, o dito fazia sentido. Eu estava a pedi-las. A semana passada, neste jornal, Vasco Pulido Valente comentou um artigo meu em que referia o medíocre papel das elites portuguesas na sociedade, no espírito colectivo e naquilo a que se poderá chamar o melhoramento do país. Retive três pontos que merecem resposta. Primeiro, porque não prestam, as elites portuguesas "não merecem esse nome". Segundo, a elite não difere do resto de Portugal. Terceiro, quem se refere à falta de elites logo recorre a uma reforma: a da "mudança de mentalidades".

NO ÚLTIMO ITEM, VPV TEVE O cuidado de dizer que, ao contrário de António Sérgio e tantos outros nossos contemporâneos, não acredito em tal conclusão. Tenho mesmo para mim que, cada vez que alguém, político, empresário ou intelectual, não sabe o que fazer, nem como resolver um qualquer problema colectivo, logo oferece "a reforma de mentalidades" como solução. Esta receita, além de sugerir o clássico problema que consiste em saber quem é que reforma quem, ignora uma realidade básica: a de que as mentalidades são a última coisa a mudar. Antes disso, vêm as auto-estradas, as cidades, a demografia, as fábricas, a banca, o comércio, a imprensa e, sobretudo, as influências externas. Mas também é verdade que existem experiências históricas de programas de "mudança de mentalidades". Se repararmos bem, são sempre próprias de ditadores, de Salazar a Castro, de Estaline a Pol Pot.

MAS A AFIRMAÇÃO MENCIONADA no primeiro item surpreendeu-me. Vasco Pulido Valente é certamente o menos idealista de todos os escritores que conheço. Por isso, estranhei a modo como utilizou uma espécie de "tipo ideal" (as elites seriam cultas, informadas, independentes, actuantes e capazes de dirigir a sociedade, especifico eu), para rapidamente concluir que não merecem tal designação. Em resumo, as elites portuguesas não existem. Este seu entendimento separa-nos. Com esta sua noção de elite, VPV aproxima-se da de Pareto, outro idealista, que só lhes reconhecia existência e sentido enquanto agissem para bem do colectivo e do todo nacional. As elites, na minha versão pedestre, são simplesmente os grupos dirigentes que, por uma ou outra razão, se destacam. Há elites cultas e incultas; autónomas ou dependentes do Estado; democráticas ou autocráticas; esclarecidas ou predadoras; activas ou parasitárias; e de esquerda ou de direita. Mas são elites. Não se confundem com as "classes altas", mas geralmente provêm delas e das classes médias. Periodicamente, o clássico fenómeno de "circulação das elites" permite renovar o stock.

HÁ ELITES SOCIAIS, ECONÓMICAS, religiosas, militares, culturais ou políticas. E outras. São grupos que exercem influência, que detêm o poder e que têm acesso aos bens, ao conhecimento e sobretudo ao mando. Reproduzem-se naturalmente por sangue, casamento, aliança e cumplicidade, no que se aproximam de uma aristocracia; mas também por nomeação, selecção e compra, métodos mais plebeus ou burgueses. Das elites políticas, as que decidem, pode dizer-se que por vezes são provenientes das elites sociais, outras vezes não. Em Portugal, neste último século, pelo menos, as elites políticas não saem frequentemente das elites sociais. São cooptadas. Ou por métodos democráticos e partidários, que é o modo actual, ou por outros processos, que envolvem, ou não, o mérito, a profissão, a obediência e a fortuna. Nas democracias de massas, a carreira política é, aliás, um dos instrumentos mais procurados para a promoção social, dado que, tantas vezes, dispensa a competência, a sabedoria ou a responsabilidade pessoal.

COM EXCEPÇÃO DE GRANDE PARTE dos intelectuais e artistas, assim como de uma porção de políticos, as elites portuguesas são geralmente de direita. E muito dependentes. Precisam do Estado, não da população. Fizeram fortuna, têm negócios, compram e vendem, aprendem e exprimem-se graças ao Estado, não à população ou a si próprios. As elites portuguesas do século XX não têm um ethos político ou cultural, religioso ou económico. O Ultramar? Nunca o foi seriamente: dava muito trabalho e exigia esforço. E ter de ir viver "no meio dos pretos" não era um dos seus desígnios. A independência nacional? Apenas de nome e desde que lhes fornecesse os meios para tratarem da sua vida. A indústria? Só dava para meia dúzia de empresários, sendo que o Estado e a sociedade os deveriam proteger. Os valores religiosos? Bons para controlar a população, mas incómodos como fundamento de uma moral para consumo próprio. As elites portuguesas refugiam-se numa tradição nacional, de que nada conhecem. Durante a revolução, salvo excepções, fugiram ou resignaram-se, nem sequer defenderam o que era seu. Nunca foram liberais. Admiraram Salazar e Cunhal. Apesar da suposta fé religiosa, adoptam frequentemente comportamentos libertinos, de que se gabam e que condenam, por permissivos, nas outras classes. Gostam de terra, que cultivam mal. Modernamente, mesmo se continuam a festejar as virtudes do campo, preferem, com conivência autárquica, o imobiliário e a especulação. Gostam do mar, que lhes traz recordações de grandeza ou simplesmente banhos de Verão, mas não o sabem estudar ou explorar. Não vivem bem entre iguais. Gostam dos pobres, mas não gostam do povo. Como dizia Mary McCarthy, nos anos cinquenta, depois de mencionar os exilados ricos que viviam em Portugal: "Os portugueses das classes altas têm ar de viver eles próprios em exílio. Há neles uma tendência para olhar de cima para as pessoas das classes mais baixas como se estas fossem nativas, ou indígenas, no sentido colonial do termo: ralham com elas, têm pena delas, acham graça às suas idiossincrasias e têm orgulho na sua devoção".

QUANTO ÀS ELITES INTELECTUAIS e artistas, de esquerda predominantes, agarraram-se ao Estado e àquilo a que chamam "as ideias". Sem fortuna nem terra, com pouco casamento e parca herança, alheias, embora com inveja, aos costumes das "classes altas" e sem acesso fácil "aos lugares bonitos", gabam-se de ter "valores", enquanto as outras apenas terão "interesses". É um postulado para consumo de pacóvios. Têm estas elites um ponto comum com as outras: também elas dependem do Estado. Talvez com uma diferença. As de direita, como dizia Karl Marx, apenas desejam que o Estado seja o seu conselho de administração. Enquanto as de esquerda gostariam de se transformar, elas próprias, no Estado. Talvez por isso, por vezes, um governo de esquerda pode parece estar ao serviço da direita.