sexta-feira, julho 22, 2005

Carta aberta ao sr. presidente da Câmara Municipal de Vila do Conde

A palavra ao leitor

Luís Ferraz - PJ, 22 de Julho de 2005

“O certo é que já vai candidatar-se às próximas eleições autárquicas.
Desde já lhe digo ...o Sr presidente não terá o meu apoio”.
Um imperativo de consciência cívica e de cidadania, há bom tempo contido, obriga-me a escrever-lhe a presente carta para lhe dizer que há, na sua postura política, algo de errado, tão estranho e preocupante que até as pessoas menos atentas já repararam. Outras, as mais observadoras e despertas já se desiludiram e estão exaustas ... Digamos que a verdade é que todos estamos, politicamente, cansados de si.
E o caso não é para menos, senão vejamos:
·V.Excia. está como autarca na Câmara Municipal de Vila do Conde desde 1974, isto é, há 31 anos.
·É presidente da câmara municipal desde 1981 , ou seja, há 24 anos.
·Vai completar este ano o seu 6º. mandato.
·Prepara nova candidatura a novo mandato, o 7.º, que se ganhasse somaria 35 anos de câmara municipal.
Francamente ... não é muito, é demasiado.
Que lições sobre Democracia podemos dar aos nossos filhos em Vila Conde quando V.Excia., com a responsabilidade que tem, é um exemplo de negação da própria Democracia. Trata-se de um homem com evidentes dificuldades de convivência democrática. É um autêntico avesso ao sistema, regras e valores da democracia, que nem sequer o precisa confessar ou esconder, porque os seus procedimentos e atitudes políticas o comprovam frequentemente. Também ninguém, com credibilidade pessoal e política em Vila do Conde, ousará dizer o contrário, ou seja, defender que o Sr. Eng. Mário Almeida é um modelar democrata, porque seria alvo de chacota e ridículo públicos.
Poderá o Sr. presidente justificar-se dizendo que é o povo que o tem elegido sucessivamente. Mas essa é a maior das falácias. A verdade , porém, é que o Sr presidente se faz candidato, a todas as eleições, por forma sistemática, por vontade própria ... ninguém o obriga e, como deve saber, faz parte da essência da Democracia o princípio republicano da alternância do poder. Mas nada disto para si conta... e o certo, é que já vai candidatar-se às próximas eleições autárquicas.
Desde já lhe digo... o Sr. presidente não terá o meu apoio.
Desde muito cedo ouvi dizer que as pessoas mais sensatas e avisadas levam a sério a velha e sábia máxima que diz “o que é demais é erro”... Mais simples e verdadeiro é impossível, mas, pelo que constato, o Sr presidente não é, ou não quer ser, sensato nem avisado e vai daí, lança-se numa loucura política que é fazer mandatos atrás de mandatos no delírio de continuar a ser presidente, anos e anos... Presidente de tudo, seja o que for, custe o que custar, até não poder mais...
Por acaso, acha o Sr. Eng. Mário Almeida que os eleitores vila-condenses são assim tão ingénuos e submissos que lhe permitirão continuar por tempo ilimitado a ser o presidente da câmara municipal?
Sinceramente, Sr. presidente, estou convicto que vai perder as próximas eleições autárquicas. E digo-lhe mais, dentro do próprio Partido Socialista, há muitos que sentem e dizem o mesmo... Perderam a confiança política em si... tal como grande parte dos vila-condenses por todo o concelho, e agora , até nas Caxinas se gerou uma grande onda dos que deixaram de acreditar em si... Sabe, é muito, muito tempo na câmara municipal... e as pessoas... não são meros votos eleitorais ... deviam ser mais respeitadas na sua dignidade e plenitude humanas. Por isso, em Outubro, a derrota autárquica... espera-o.
A culpa... é só sua, de mais ninguém.
Entretanto, em Vila do Conde, já vamos na segunda geração de vila-condenses que não conheceram outro presidente da câmara, senão o Eng. Mário Almeida. Isto é triste, confrangedor, deprimente e já começou a ser uma vergonha para Vila do Conde face à quase totalidade dos concelhos portugueses que já substituíram várias vezes os seus presidentes.
Os malefícios políticos, que decorrem das dezenas de anos de V. Excia à frente da autarquia, são muitos e graves. Eis alguns:

·Em Vila do Conde as pessoas têm receio de, aberta e livremente, comentarem ou criticarem qualquer tema que belisque o Sr. presidente e as suas actividades autárquicas. Isto é lamentável, e até ridículo, que aconteça num país onde o direito à liberdade de expressão e pensamento está consagrado como princípio fundamental da República.
· Há na nossa terra um controlo indirecto, por parte do Sr. Eng. Mário Almeida, da quase totalidade dos meios de comunicação social local. Esta situação, condenável, leva à asfixia da formação de uma autêntica opinião pública livre, moderna e democrática vila-condense .
· O Sr. presidente controla, também, por interposta pessoa, um significativo número de associações e colectividades vila-condenses, através de mecanismos, não só subtis, mas também engenhosos, que provocam problemas de vária ordem aos seus dirigentes, nomeadamente de afirmação da própria autonomia dessas instituições.
· Ainda o Sr. presidente na sua acção tem o condão de dividir os vila-condenses por partidos políticos. Nada pior... pelo menos social e politicamente. Em vez de aproveitar o profundo orgulho e amor que sempre os vila-condenses devotaram à sua terra, o Sr. Eng. Mário Almeida, dividiu-os através de uma política pessoal, extremamente centralizada e sectária, fechada e intolerante, a tudo e a todos. É a velha e milenar política, hoje tola, do dividir para reinar, aplicada aos nossos dias... Mas, julgo que dividiu demais, para continuar a reinar. Criou adversários por todo o lado e já não sei quem acredita em si.
·Por mim acredito, veementemente, que os vila-condenses não o deixarão avançar para novo mandato. Seriam mais quatro anos de mais do mesmo, o que perfaziam 35 anos de câmara municipal. Seria um abuso condenável na história da Democracia em Vila do Conde após o 25 de Abril... sem paralelo, mesmo durante a ditadura.
Os vila-condenses... não o vão permitir.
A culpa... repito, é só sua e apenas sua.

Saudações democráticas
*Fundador e militante desde 1974 do Partido Socialista em Vila do Conde

Nota: a pedido do autor publica-se a fotografia