terça-feira, julho 12, 2005

"25 anos é demasiado tempo em democracia"

por F.F., Público de 11 de Julho

Há pouco mais de um ano, mais precisamente dois meses antes dos acontecimentos da lota de Matosinhos, Mário Maia, o primeiro presidente eleito depois do 25 de Abril da Câmara de Matosinhos, "começava a ter vergonha de estar ligado ao PS" e telefonou ao então presidente do partido, Almeida Santos, para lhe dar conta dos "actos pouco democráticos que se passavam em Matosinhos". Foi de propósito a Lisboa, avisou dirigentes do partido, conversou com deputados. E tudo continuou na mesma. "Eles acordaram dois meses depois", lamenta.
Foi com Mário Maia na presidência da câmara, em 1976, que Narciso Miranda assumiu pela primeira vez um lugar no executivo do município de Matosinhos - foi o terceiro na lista da vereação e subiu depois à vice-presidência por desistência do então número dois. Empresário, Mário Maia concluiu, no fim do mandato, que não conseguiria conciliar a gestão da sua empresa com o lugar de presidente da câmara e saiu, deixando o caminho livre para Narciso, que, nas eleições de 1979, ascendeu à presidência da Câmara de Matosinhos. Até hoje. Ao fim de 25 anos, Mário Maia, revela desilusão. "Nunca acreditei que ele fosse tão ambicioso, que se mantivesse agarrado ao poder tanto tempo... É demasiado tempo em democracia". Continua: "É ele que dá a casa, é ele que dá a licença, é ele que dá o emprego. Ele sabe tudo... As pessoas acabam por criar uma espécie de gratidão", explica. E indigna-se: "Eu já disse ao Narciso Miranda que ele tinha direito de sair pela porta grande, mas já não sairá"...
Operário aos 15 anos, forjado na resistência política antes do 25 de Abril, militante do PS desde 1974, Mário Maia não entende o impasse em que caiu a candidatura socialista (em suspenso de uma decisão da direcção nacional do partido, que avocou o processo autárquico em Matosinhos). Oscila entre a vontade da revolta - "É uma vergonha, não devíamos aceitar as ordens de Lisboa" - e alguma dose de conformismo. "Acho que temos de aguardar, embora entenda que já vai sendo tarde", diz, adivinhando, porém, "dificuldades" para o PS, caso venha "a ser imposto um nome ligado a qualquer uma das facções" em que se fracturou a estrutura local dos socialistas - seja a que é afecta a Narciso, seja àquela que apoia o actual líder concelhio, Manuel Seabra. Neste cenário de divisão, Mário Maia sustenta que a candidatura de Palmira Macedo, uma independente que já foi vereadora na Câmara de Matosinhos, era a alternativa que reuniria porventura o máximo consenso. "Seria a candidatura que menos traumas provocaria", vaticina. E num regresso à sua luta pela liberdade", aponta valores. Fala de credibilidade, de seriedade, de renovação. "Os políticos deviam saber sair. O que se perde em experiência ganha-se em vitalidade", justifica. F.F.