domingo, junho 19, 2005

Quatro funerais

RETRATO DA SEMANA ANTÓNIO BARRETO
Público, 19 de Junho de 2005

No período de um ano, quatro mortes deixaram marcas especiais. António Champallimaud, cuja Fundação foi estabelecida há dias; a Irmã Lúcia, há poucos meses; Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal, esta semana. Outros se foram, nestes dias. Um grande homem de letras, Eugénio de Andrade. E um grande cientista, Corino de Andrade. Para já não falar de João Paulo II, lá longe e, contas feitas, tão perto. Mas foram aqueles quatro que nos fizeram pensar no que somos.

CHAMPALLIMAUD MORREU
rico, criou uma fundação. Lúcia morreu pobre, construiu um santuário. Gonçalves morreu remediado, legou o 13º mês. Cunhal morreu sem posses, fez um partido. Do primeiro, sobram admiradores, dos outros três, ficam idólatras e seguidores. Todos deixaram mais tristes os corações de muitos portugueses. Cada qual à sua maneira, foram reclusos, viveram longe e fora dos palcos, rodearam-se de mistério e forjaram as suas lendas. Quando eram vistos, pensava-se logo tratar-se de aparição. Foram mitos vivos. Adorados pelos seus seguidores, odiados pelos seus adversários. Nenhum deles estimulou a indiferença. Ninguém os desconhece e poucos usam a razão para os apreciar. Todos foram indiferentes aos meios, apenas os fins contaram. Todos viveram convencidos da superioridade das suas crenças. Nunca mudaram de opinião e mantiveram-se sempre firmes na suas convicções e nos seus erros: esta persistência, ou teimosia, conhecida em Portugal pela designação de coerência, fez deles heróis. O que, se diz alguma coisa sobre eles, revela muito sobre os portugueses.

NÃO É VERDADE QUE, COM ESTES quatro funerais, tenha morrido "um certo Portugal". Esse país já há muito tinha morrido. O de Champallimaud, pioneiro e cavaleiro de indústria, patriota sob o condicionamento, perseguido pela revolução e finalmente convertido à finança e aos seguros. O da Irmã Lúcia, vidente num país rural e temeroso, dominado pela ditadura, organizado pela Igreja, com esperança na missão evangelizadora e na expansão, ciente de que, contra o mundo, tinha razão. O de Gonçalves, demagógico, crente no impossível, emocionado, disposto a tudo, populista, pronto a todos os riscos. O de Cunhal, à espera da sociedade perfeita, com ódio aos ricos, ainda a lutar contra o fascismo, sempre de olhos postos na União Soviética, à procura do comunismo no horizonte, convencido de que só existe felicidade se formos todos iguais, como clones. Muitos anos antes de eles morrerem fisicamente, o país ou os países que representavam estavam extintos. O Portugal rural. O Portugal industrial. O Portugal católico e fidelíssimo. O Portugal frenético e revolucionário. O Portugal de Leste, com polícia e partido.
Mas também é verdade que, com as cerimónias e os cortejos, com as lágrimas e o ranger de dentes, estes quatro enterros mostraram que está bem vivo "um certo Portugal", mas outro, esse mesmo, sempre pronto a mostrar-se órfão e a contribuir, pelas lágrimas, para a história colectiva. Como já tinha acontecido com Timor. E com Amália. Os funerais de massas, plebeus ou de Estado, devidamente explorados pelas televisões, são encenações muito especiais de catarse e mobilização. As mortes têm efeito singular nos corações portugueses. Permitem chorar e exibir, ajudam à purgação, mas dispensam a responsabilidade.

MATERIALISTA ATÉ AO TUTANO, demasiadamente rico para ser popular, detestado e receado por quase toda a gente, Champallimaud trocou as voltas à memória. Com a fundação, de utilidade evidente, construiu a sua própria história e decretou, por testamento, o modo como será recordado. Diferentes foram os outros funerais. Com Lúcia, Gonçalves e Cunhal os portugueses viveram momentos de santificação popular antecipada. Com a primeira, a liturgia canónica seguirá, em tempo e forma. Beata será. Com os outros dois, não é preciso. Já subiram ambos ao lusitano reino dos céus. Foram nacionalizados. Na rádio, ouviu-se uma comunista de quatro costados garantir que "Cunhal, como Cristo, também foi torturado". Outro militante convicto pediu, entre lágrimas, "paz e eterno repouso para estes santos homens". Nas avenidas de Lisboa, naquela quarta-feira de nojo, era possível ver, além das bandeiras do município, de Portugal e da União Europeia, as de vários bancos, companhias de seguros e empresas privadas ou públicas a meia haste de luto. Não faltarão as condecorações e as Ordens póstumas. Cunhal, em particular, foi objecto de veneração transcendente. Para Alegre, era um "aristocrata". Para Eanes, "um encanto". Para Sampaio... motivo de lágrimas e voz embargada. Para Soares, a merecer respeito edipiano. Para vários socialistas, um "combatente pela liberdade". Para Zita Seabra, "um sedutor". Nem Eusébio faltou.

MILITANTES OU AMADORES, INTE-lectuais ou trabalhadores, notáveis ou anónimos, da esquerda e da direita, houve cidadãos de toda a espécie ou crença que disseram que o século XX português foi marcado por duas personalidades, dois heróis, Salazar e Cunhal. Eis uma opinião que não convida à discussão, só exibe lamentavelmente o carácter e o temperamento dos seus autores. Mas que é um cruel veredicto sobre o país. Foram heróis de um povo, à medida da sua ignorância e do seu atraso. Nunca seriam heróis de homens livres.

POR HONESTIDADE, POR AMOR
de Deus ou dos homens, porque não era esse o seu negócio, Lúcia, Gonçalves e Cunhal morreram pobres. Ou antes, sem posses materiais. Como Salazar. Os portugueses gostam. Já Champallimaud morreu rico, mau sinal. Mas redimiu-se com a fundação. A sua alma será salva. Se, para além dos seus indiscutíveis talentos, estas quatro pessoas tivessem sido democratas, se pelo menos tivessem amado a liberdade, a de todos e não apenas a deles e dos seus amigos, os últimos cinquenta anos de história teriam sido diferentes. E Portugal era hoje um país melhor.