sexta-feira, junho 17, 2005

Protagonistas

por Miguel Sousa Tavares
Público, 17 de Junho de 2005


Nunca consegui entender muito bem esta incapacidade nossa de olhar para os mortos como aquilo que eles foram em vida, com as suas qualidades e defeitos, e, ao invés disso, sermos servidos sempre por um obituário só de elogios, como se a memória que temos de cada um estivesse apenas à espera da sua morte para ser reescrita e limpa de más recordações. Vasco Gonçalves foi, decerto, um homem cheio de qualidades humanas e fiel às suas convicções até ao fim. Mas já não foi, por exemplo, um "patriota", como lhe chamou generosamente Mário Soares. Se, para se ser patriota, basta amar o seu país e ter um desejo político para ele, todos somos patriotas e ninguém o é, verdadeiramente. Mas custa-me ouvir chamar patriota a quem não se limitou a ter ideias políticas para Portugal, mas quis ainda impô-las contra a vontade largamente maioritária dos restantes portugueses, ao ponto de ter levado o país à beira da guerra civil.
Na casa de Vasco Gonçalves, contou uma jornalista do PÚBLICO, havia um busto de Lenine. Nada mais adequado: Vasco Gonçalves tomou-se pelo Lenine português, achou que podia reeditar aqui Outubro de 1917 e, trinta anos depois, ainda continuava a falar na "vanguarda revolucionária", com a fé dos tardiamente convertidos. Julgo até que usurpou o papel que legitimamente deveria ter cabido a Álvaro Cunhal, que, esse sim, nunca escondeu o que queria e aquilo em que acreditava. Mas Vasco Gonçalves era militar: exigia-se-lhe um dever de isenção que ele nunca mostrou depois de ter assumido o poder, ao ponto de chefiar conscientemente um "governo de vanguarda" que não chegava a representar um quinto dos portugueses, cuja vontade fora já então manifestada em urnas. Apesar disso, chamava "representativo" ao seu governo e seguia, um por um, todos os passos da cartilha leninista de tomada do poder, tal como executada trinta anos antes nas "democracias populares".
Patriota? Em quê? Peço desculpa: patriotas foram os que se bateram nas ruas pelo República, pelas eleições, pela liberdade.

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Cunhal sabia - e por isso deixou escrito o apelo - que o seu enterro seria uma lição a merecer meditação por parte de muitos dos políticos de hoje. As pessoas preferem quem é fiel às suas convicções, ainda que erradas e falsas, do que quem flutua ao sabor das verdades de cada momento. Se Cunhal nunca quis escrever as suas memórias é porque sabia que, ao fazê-lo, teria de mentir, de ocultar e de calar, ou então contaria toda a verdade e deixaria um testamento ruinoso aos seus camaradas. Como sempre em toda a sua vida, os interesses do Partido passaram à frente de tudo o resto.

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Não são os insultos, aliás corriqueiros, de Alberto João Jardim que eu considero ofensivos: sempre achei que a ordinarice e a má educação só ofendem verdadeiramente os seus autores, não os seus destinatários. O que ofende em Jardim é quando, no meio dos sacrifícios para todos anunciados pelo Governo, ele afirma, desafiador, que na Madeira para o ano haverá mais 1000 contratados para a função pública, a fim de manter o "crescimento constante", ou quando aproveita as verbas resultantes do aumento de dois pontos no IVA nacional, fazendo simultaneamente a flor de só aumentar um ponto na Madeira. E entristece que Jorge Sampaio, ao mesmo tempo que apela ao "patriotismo" dos portugueses para encaixarem os sacrifícios, seja o primeiro a demarcar-se das provocações de Jardim, remetendo-se à cómoda posição de um silêncio voluntariamente assumido "há mais de vinte anos". O que seria da democracia se todos nos calássemos?

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Sim, eu conheço o Marco de Canavezes, a obra emblemática do sr. Avelino Ferreira Torres. Aquele caos, aquele horror arquitectónico, aquele ar de subúrbio de cidade africana, são-me tristemente familiares. Mas pensava que nisso o Marco não se distinguia de muitas outras terras, onde a falta de planeamento e o mau gosto triunfante foram o preço a pagar pelo que eles chamam "desenvolvimento". Mas não sabia, e devo à Alexandra Lucas Coelho ter ficado a sabê-lo, que 22 anos de Avelino e nove milhões de contos de dívidas acumuladas tinham deixado o Marco com os piores índices nacionais de escolaridade, saneamento básico e abastecimento de água - aquilo por que se mede o verdadeiro desenvolvimento. Depois desta linda obra no Marco, o sr. Ferreira Torres, perseguido por processos-crime por peculato e outras coisas feias que ele desdenha, prepara-se agora para tomar conta de Amarante - a terra de Pascoaes, de Sousa Cardoso e das minhas memórias de infância. E sempre, claro, com o voto do povo. Pobre Amarante, pobre povo, pobre poder local!
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Felgueiras, se calhar, ainda é mais notável. Vale a pena olhar o que se prepara.
A sr.ª Fátima Felgueiras, presidente da câmara, é envolvida, como suspeita, num processo-crime por apropriação de dinheiros públicos em benefício próprio. Ao contrário do que faria qualquer pessoa inocente, qualquer pessoa de boa-fé ou qualquer pessoa com respeito pela sua honra própria, ela não se dispôs a enfrentar as acusações: beneficiando de uma informação particular, fugiu na véspera de o tribunal ordenar a sua detenção. Durante mais de ano e meio tem vivido no Brasil, protegida pela dupla nacionalidade, e, embora tenha voluntariamente abandonado o seu lugar, continuou a afirmar-se presidente em exercício e a receber o respectivo vencimento, até há dias o tribunal administrativo ter posto fim a esta última e incompreensível regalia. Agora, convicta de que o povo de Felgueiras continua a venerá-la, congeminou um plano verdadeiramente maquiavélico para troçar da justiça e das eleições, beneficiando de mais um buraco legal: vai voltar para se recandidatar e fazer campanha eleitoral, aproveitando a imunidade de que gozam os candidatos durante a campanha. Na véspera de terminar a campanha, volta a pirar-se para o Brasil e de lá fica à espera dos resultado das urnas e de nova vitória, para continuar a exercer a presidência da Câmara de Felgueiras... em Niterói. Conta com o "seu" povo para lhe cobrir mais esta jogada. E eu acho que, se o povo o fizer, merece o desfecho.
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Há duas hipóteses: ou o Eduardo Prado Coelho não percebeu ou fingiu não perceber o efeito causado por aquele "vídeo em família" do seu protegido Manuel Carrilho. Desgraçadamente para ambos, porém, não houve mais quem não percebesse. Não é possível apresentar o candidato a Lisboa como "um dos homens mais cultos da política portuguesa" e depois fingir que não se alcança o mau gosto, a presunção e o vazio que aquela produção artística revela e que, aliás, outras produções do género e os próprios cartazes enxameando Lisboa já tinham posto a descoberto. Já são indícios a mais para poderem ser levados à conta de simples deslizes. Jornalista