domingo, junho 12, 2005

João Paulo Meneses abana “A Árvore das Patacas”

in Terras do Ave, 1 de Junho de 2005

No passado sábado, dia 21, decorreu na Livraria Lello, no Porto, a apresentação do livro "A Árvore das Patacas", do jornalista, docente universitário e escritor vilacondense João Paulo Meneses. Ao seu lado estavam Joaquim Vieira, director da Grande Reportagem e autor da notícia que inspirou a história (no Expresso, em 1987), o editor macaense, Beltrão Coelho e o proprietário da Lello, Antero Braga.
Foi num ambiente descontraído, rodeado por alguns dos seus colegas, que o autor levantou o véu sobre a trama que se desenvolve no seu livro. A acção situa-se em 1986, quando o Partido ‘A’ (que identificou posteriormente como sendo o PS) perde as eleições legislativas para o Partido ‘B’, com a grande surpresa eleitoral a verificar-se com o novíssimo Partido ‘C’, criado por um antigo Presidente da República (Eanes, obviamente). Entretanto, o líder histórico do Partido ‘A’ é eleito Presidente da República. O país entra num período de instabilidade, os partidos precisam de dinheiro e há que recorrer a alternativas. Macau será a mais apetecível, porque mais fácil. É então que um militante do Partido ‘A’ é enviado a Macau para trazer uma mala cheia de patacas. Só que, uma vez lá, tudo se complica.
Nem será preciso estar muito ao corrente da história política recente de Portugal para rapidamente identificarmos os restantes protagonistas desta história. Como João Paulo Meneses referiu na apresentação, ainda há dois ou três anos se falava disto nos jornais. No entanto, frisou o autor, as semelhanças entre a realidade e a ficção terminam mesmo aí, nos contornos gerais da história.
O livro foi escrito em capítulos que correspondem, basicamente, a capítulos "à boa maneira dos folhetins de Ramalho Ortigão, com as suas ‘Farpas’, por exemplo", como teve oportunidade de elucidar os presentes, mas ressalvadas as devidas diferenças. Uma das iniciativas de João Paulo Meneses, enquanto compunha à obra, foi promover a escrita de um dos capítulos, ao vivo, perante uma audiência, o que aconteceu no Diana-Bar, na Póvoa de Varzim, como Terras do Ave referiu na altura.

Ao nosso jornal, João Paulo Meneses concedeu uma curta entrevista:

TdA - Quando e como é que surgiu a ideia para este livro? Afinal, histórias com políticos é matéria-prima que parece não faltar…
JPM- Mas não como esta. Esta – por aquilo que veio a público – é única. Até por ter sido noticiada!

TdA - Até onde vai a reportagem e onde é que começa o romance?
JPM – Essa é a questão mais complexa: a partir de uma certa altura (quando percebi que não conseguiria investigar jornalisticamente mais), desisti de saber a verdade. Afinal, estamos a falar de um romance! Se calhar, algumas das coisas que apresento como ficção até aconteceram…

TdA - Não acha que pode estar a desenterrar assuntos já um pouco esquecidos e que alguns querem ver desaparecidos?
JPM – De certeza. Mas por que não? Desde que não contratem ninguém para me bater…

TdA – Macau foi uma experiência interessante? Até que ponto é que só poderia ter escrito este livro se lá não tivesse vivido? Por outras palavras, até que ponto a sua vivência macaense está retratada no livro?
JPM - Não o teria escrito se não tivesse vivido (pouco tempo…) e voltado diversas vezes. Este é um livro que retrata uma certa realidade local, que não é tão visível como possa parecer. Estamos a falar dos bastidores e esses, por regra, não são visíveis.

TdA – É verdade que "em cada jornalista esconde-se um escritor"? E no seu caso?
JPM – Não, nem no meu caso. Escritor é o Lobo Antunes, o Mário Cláudio, a Agustina, o José Luís Peixoto e tantos outros – que fazem da sua vida a escrita. Eu sou da liga dos "últimos"…