segunda-feira, junho 06, 2005

Aichi 2005, uma expo para japonês ver

Crónica João Paulo Menezes*


Aichi 2005, uma expo para japonês ver

1 Onde fica?
O que mais impressiona na exposição mundial de Aichi é que não se trata de um acontecimento nacional no próprio Japão. O facto de se realizar no município de AIchi e não numa das grandes cidades japonesas é o primeiro sinal. E se prevalece hoje em dia, em diversos países, a ideia de não levar as exposições para as maiores cidades (como aconteceu na Coreia em 1993, um ano antes em Sevilha ou mesmo em 2000 na cidade alemã de Hanôver) muitas outras localidades, naquele país, estariam na primeira linha. Não é fácil encontrar quem nos indique como chegar a Aichi. E se não faltam transportes, é preciso ter em conta que a exposição propriamente dita fica a uma hora de Nagóia, sendo necessário apanhar no mínimo dois transportes para chegar ao local - que, até há pouco, era uma floresta. Aliás, e isso também é novidade, não é um local mas dois, separados e distantes entre si e acessíveis por um teleférico - identificado no local como Morizo Gondola.
Como o Japão é um país pensado para os japoneses, não há propriamente uma preocupação com as informações bilingues (japonês-inglês, por exemplo), apenas muita informação na língua oficial e versões reduzidas noutras línguas, como o inglês, o chinês e o coreano. Dos 15 milhões de visitantes esperados até 25 de Setembro, apenas um milhão serão estrangeiros. Já agora, como exemplo final, o dia da abertura da exposição não foi o tema dominante nas notícias da televisão ou dos jornais do dia seguinte.

2 Expo-98 bem melhor
Enquanto em Aichi a qualidade dos pavilhões é muito desequilibrada, havendo uns quantos que são muito bons (os temáticos) e uma esmagadora maioria de muito fracos, em 98 a qualidade média era bastante elevada. Qual a explicação? De acordo com o que se pôde ver, e também ler, sobre a iniciativa de Aichi, o facto de estar deslocalizada de um grande centro, do tema central não ter sido respeitado, de não se esperarem muitos turistas e, também, de haver uma certa saturação com iniciativas deste género, levou a que muitos países não participassem (só 120), outros tivessem optado por pavilhões conjuntos (a esmagadora maioria dos africanos, mas também os nórdicos ou até mesmo França e Alemanha, juntos pela primeira vez!); e finalmente, pressionados pela diplomacia japonesa ou para pagarem velhas e futuras dívidas da geopolítica, outros apostasse em por pavilhões que não passam de stands de promoção turística.
Na maior parte dos pavilhões dos países não há rigorosamente nada de novo para ver, a não ser aquilo que são os recorrentes estereótipos que atribuímos a cada país, mesmo sem os termos visitado. Nesta linha, há duas excepções: a Espanha, que tem um grande pavilhão, aproveitou uma parte central do espaço para promover Cervantes e "D. Quixote", de uma forma no mínimo inédita e estimulante; Marrocos, sem nada de especial no interior, aprimorou a estética e será dos pavilhões mais bonitos.
Se está a pensar ir a Aichi, e tem apenas dois ou três dias disponíveis (chega...), recomendo: um para visitar os pavilhões dos diferentes países e os restantes para esperar nas filas de quase uma hora que se fazem à porta dos espaços temáticos.

3 O sobreiro português
Se a esmagadora maioria dos países representados na Expo 2005 se limita a contar a sua história, os seus feitos ou contributos para o mundo (na Itália as vespas estão em destaque...) ou a promover-se turisticamente, Portugal tem uma enorme vantagem: há uma insólita (do ponto de vista ocidental) história comum ao Japão, e que é contada nas paredes interiores do espaço - o relacionamento bilateral, a partir dos jesuítas, o comércio nos painéis «nan bam» ou o papel de Wenceslau de Moraes, por exemplo.
Por outro lado, o pavilhão português fez aquilo que a esmagadora maioria esqueceu: se o tema da Expo-2005 é "A Sabedoria da Natureza", Portugal elegeu a cortiça para falar da sua relação com o ambiente e os produtos naturais. E nisso o pavilhão português, além de ser honesto com o tema proposto, merece aplausos (tal como merece elogios por ter todas as informações traduzidas em três línguas, português, japonês e inglês; nos outros é normal encontrar apenas duas: a própria e o japonês).
No resto é uma oportunidade perdida! Ou seja, mais uma vez uma óptima intenção mal concretizada: os derivados da cortiça em exposição são pobres e rudimentares, quando poderiam contrabalançar com aplicações mais contemporâneas deste produto que os japoneses tanto apreciam.

* Jornalista da TSF