quinta-feira, maio 05, 2005

Marques Mendes afasta Valentim da corrida à Câmara de Gondomar

Filomena Fontes e Margarida Gomes

Major afirma que não vai falar com o líder do PSD sobre eventual recandidatura

O líder do PSD, Marques Mendes, vetou ontem uma eventual recandidatura de Valentim Loureiro à presidência da Câmara de Gondomar, invocando razões relacionadas com a "falta de confiança política". Esta intenção já era dada como muito provável junto das altas esferas do partido e foi ontem formalmente transmitida por Marques Mendes a dirigentes nacionais do PSD. O envolvimento de Valentim Loureiro no processo Apito Dourado não terá constado das razões invocadas para justificar a recusa da recandidatura do major.
Valentim Loureiro tinha ontem manifestado não ter intenção de falar com o líder do PSD sobre a sua recandidatura à Câmara de Gondomar, assegurando já ter tomado uma decisão quanto ao seu futuro político, que deverá ser hoje desvendado. "Não vou falar com o dr. Marques, não tenho nenhum assunto a pôr-lhe", declarou o major, acrescentando depois: "Tenho tudo decidido, tenho tudo decidido".
O autarca, que falava ontem à margem da entrega de 287 computadores a escolas do concelho, recusou-se a revelar qual é sua decisão, deixando entender que pretende aproveitar o programa Grande Entrevista, que hoje será transmitido na RTP1, para clarificar a sua posição.
Instado pelos jornalistas a comentar a recomendação deixada por Marcelo Rebelo de Sousa, no seu habitual comentário televisivo de domingo, sugerindo ao líder do partido um tratamento igual ao adoptado com Isaltino Morais, em Oeiras, para com Valentim Loureiro e Isabel Damasceno, em Leiria, ambos envolvidos no processo Apito Dourado, o major começou por elogiar o professor, mas acabou por desvalorizar as declarações. "É uma pessoa amiga, é um político extraordinário e é um excelente comentador", advertindo, no entanto, que "há muitas coisas de que ele fala nos seus comentários dos quais não tem um conhecimento perfeito e aprofundado".
As reservas de Marques Mendes a uma eventual recandidatura de Valentim Loureiro esbarraram já na distrital do Porto do PSD, que anteontem divulgou um comunicado, considerando "infundadas e porventura especulativas" as notícias que apontavam para "uma hipotética divergência estratégica entre órgãos nacionais e distritais" do partido. Não individualizando o caso de Gondomar, a distrital portuense, liderada por Marco António Costa, manifesta "surpresa" e garante que "em todos os contactos estabelecidos até hoje entre órgãos distritais e nacionais nunca em qualquer momento foi suscitada por parte dos órgãos nacionais qualquer dúvida ou hesitação perante a estratégia de recandidatura dos actuais presidentes de câmara", remetendo assim indirectamente para as orientações saídas do último Congresso do PSD que elegeu Marques Mendes.
No comunicado, a distrital dá ainda conta de uma reunião, realizada no dia 20 de Abril, na qual participaram os três membros da coordenadora eleitoral autárquica nacional (Dias Loureiro, Miguel Macedo e Miguel Relvas), assegurando que, também aí, "ninguém levantou qualquer dúvida ou questão sobre a recandidatura dos actuais presidentes de câmara do distrito do Porto".
Assim, os dirigentes concelhios e distritais propõem-se seguir escrupulosamente os estatutos e cumprir o calendário que estava já estabelecido. "O processo está a seguir os seus trâmites normais", afirma o deputado e coordenador autárquico do PSD-Porto Sérgio Vieira. No mesmo registo, o líder da concelhia de Gondomar e actual vereador da câmara, Leonel Viana, promete também "actuar de acordo com os estatutos", confirmando a realização de um plenário de militantes no dia 11 para definição do perfil do candidato e, no dia seguinte, de uma reunião da concelhia para aprovar o seu nome, que deverá depois ser ratificado pela direcção política distrital alargada. Tudo indica, pois, que, a não ser que Marques Mendes decida mesmo avocar o processo de Gondomar, Valentim Loureiro apresentar-se-á para um terceiro mandato.

CDS-PP equaciona
coligação com PS
A Concelhia de Gondomar do CDS-PP está a ponderar uma coligação eleitoral com o PS, caso Valentim volte a liderar a lista do PSD à presidência da câmara. "Há princípios em termos autárquicos que, de certa forma, são coincidentes com os que o PS defende a nível local", adiantou ao PÚBLICO Vítor Faria, vogal da concelhia de Gondomar. "É verdade que existe essa possibilidade, mas todos os cenários estão ainda em aberto, incluindo o de avançarmos com uma candidatura própria", declarou o presidente daquela estrutura do CDS-PP, António Aguiar Pereira, explicitando que, se o PSD escolher Valentim, "é muito difícil qualquer entendimento ".
O líder concelhio do CDS-PP considera, todavia, fundamental para definir a estratégia eleitoral saber quem vai ser o candidato do PS. "Temos de avaliar tudo, os candidatos, os projectos, para tomarmos uma posição, sendo certo que a direcção nacional do partido tem a última palavra", frisa ainda o dirigente. Este interesse numa aproximação aos socialistas terá já chegado ao conhecimento do presidente da distrital , Álvaro Castelo Branco, com quem o PÚBLICO tentou falar ontem, mas sem sucesso.