quarta-feira, maio 04, 2005

Especialistas propõem restrições à publicidade de alguns alimentos

por Graça Barbosa Ribeiro

Obesidade pode vir a ultrapassar tabaco como a principal causa de mortes evitáveis

E se no supermercado passar a encontrar, nas embalagens de alimentos, rótulos semelhantes àqueles que já existem nos maços de tabaco? Frases do estilo "Este alimento engorda" ou "A obesidade mata"? Pois foi precisamente a aplicação deste género de medidas que o epidemiologista Massano Cardoso defendeu ontem, em Coimbra, na sessão solene que assinalou o início do chamado Mês do Coração. A situação é tão grave que, "nalguns países, a obesidade pode vir ultrapassar o tabaco como a principal causa de mortes evitáveis", contribuindo para "um fenómeno secular - o da inversão da esperança de vida", alertaram os especialistas.
"É isso mesmo. Se nada for feito, os nossos filhos terão uma esperança média de vida mais curta do que a nossa, e os nossos netos ainda mais curta do que a dos nossos filhos", precisou Manuel Carrageta. Explicava assim por que é que a organização a que preside - A Fundação Portuguesa de Cardiologia - decidiu privilegiar o tema da alimentação (a par do da actividade física) no mês destinado a alertar para os factores de risco de doenças cardiovasculares.
Num momento em que, segundo a OMS, cerca de um bilião de pessoas têm excesso de peso ou são obesas, Portugal assiste, como sublinhou Massano Cardoso, "à democratização da obesidade".

"Transformar as crianças em bolas de gordura"
Vinte por cento dos portugueses são obesos e 30 por cento têm excesso de peso - factores que potenciam doenças (como a hipertensão ou a diabetes) que por sua vez provocam outras, como o enfarte de miocárdio, a morte súbita, a insuficiência cardíaca e o acidente vascular cerebral, enumerou Manuel Carrageta.
Para sublinhar a gravidade da situação, Massano Cardoso citou um estudo divulgado recentemente, segundo o qual 31, 5 por cento das crianças portuguesas com idades compreendidas entre os sete e os nove anos têm excesso de peso ou obesidade. E disse-se descrente das vantagens das campanhas de sensibilização, derrotadas "pela enorme variedade de produtos alimentares associada a uma intensa e agressiva publicidade e complementada pelo sedentarismo infantil".
Daí a defesa de "medidas legislativas que permitam transformar e inverter um fenómeno que", insistiu, "é susceptível de transformar as crianças em bombas de gordura, anunciadora de graves explosões". Exemplos? "Proibir a publicidade a certos alimentos e obrigar à rotulagem de perigosidade de outros, com a indicação expressa de que são prejudiciais às crianças".
O epidemiologista reconheceu que as medidas legislativas preconizadas poderão "incomodar muita gente". E antecipou mesmo os argumentos dos opositores, adivinhando que vão afirmar "que não há alimentos saudáveis ou não saudáveis mas sim dietas salutares ou não salutares". Considerou, no entanto, que apesar "da oposição esperada" o "Governo terá de encarar a obesidade como um verdadeiro problema social com consequências médicas gravíssimas".
Ao alertar para a necessidade de "exercer pressão sobre quem tem responsabilidade directa na produção e publicitação dos alimentos", Massano Cardoso não poupou, aliás, o poder político, o qual, na sua perspectiva, "tem a sua quota de responsabilidade, que não é pequena".