segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Saldanha Sanches

«Número de autarcas que exigem luvas é assustador»
Portugal Diário, 28-02-2005 10:49

Fiscalista Saldanha Sanches denuncia corrupção nas câmaras e no fisco. Espera que Sócrates enfrente lobbies e aconselha-o a «pensar no litoral que paga impostos», porque já não há interior
Em entrevista ao Diário de Notícias Saldanha Sanches afirma que para tornar mais fácil o crescimento económico é necessário reduzir os lobbies do interior, que «distorcem, atrasam e chantageiam». O fiscalista denuncia mesmo a corrupção que existe: «O número de presidentes de câmara que exigem luvas para instalar empresas no seu concelho é assustador».
Apesar de tudo, e perante este cenário há muito instalado, Saldanha Sanches tem «esperança que Sócrates tenha, em relação à totalidade dos problemas do País, a teimosia que demonstrou em relação à co-incineração, enfrentando lobbies e protestos», ou seja, «corporações e ordens, que não são tão fortes como dizem».
Mas para isso, continua Saldanha Sanches ao Diário de Notícias, «é conveniente que o Governo, se decidir afrontar os médicos, não tenha um ministro ou secretário de Estado com telhados de vidro porque os lobbies são implacáveis e vão usar tudo até ao fim».
Para Saldanha Sanches é igualmente fundamental que o primeiro-ministro «atire o dossier «interior do país» para o lixo. Esse conceito foi usado na campanha. Agora esqueça isso, urbanize-se. Pense no litoral, que paga os impostos e que arrasta o País para o crescimento. Aliás, porque já não há interior. Hoje, Vila Real está a uma hora e meia do Porto».
E é preciso acabar com as «demagogias ridículas» das políticas direccionadas para o desenvolvimento do interior, diz o fiscalista: «Esse choradinho do interior é a coisa mais enjoativa que se pode imaginar».
O fiscalista considera ainda que a máquina fiscal está «fortemente corrompida» e diz ser «inacreditável» que os «homens da contabilidade aceitem a concorrência desleal dos funcionários do fisco e não a denunciem. Porque é concorrência desleal e é um foco de corrupção». Além disso, acrescenta, «há cidades na província onde a maior parte das escritas são feitas por gente das finanças. Isto é inacreditável».
E o facto de ninguém denunciar estas situações, diz, «é uma forma de cobardia e de medo. As pessoas. É assim, sempre foi assim».
Saldanha Sanches defende também que os casos de investigação de fuga ao fisco deviam ser denunciados em pormenor e publicamente.