quarta-feira, setembro 15, 2004

Setembro em Beslan

Por FERNANDO ILHARCO
Segunda-feira, 06 de Setembro de 2004

eguido em directo nas televisões do mundo, o horror em Beslan está para além do que a linguagem dos homens possa dizer, fora das manifestações da alma humana. Nenhum de nós, nem aqui nem em Moscovo, pode sentir o que as crianças, as mães e os pais de Beslan sentem. Depois de Beslan, tal como depois do 11 de Setembro, muito vai mudar outra vez - na política russa, no Cáucaso, mas também no Médio Oriente, na América, na Europa e, queiram querer os homens, na sempre esquecida África. O cruzamento da globalização, da abundância, da tecnologia, da informação sobre tudo o que existe, da televisão e dos media planetários com o desespero, a ignorância, o fundamentalismo, o crime, a imoralidade e a demência estão a explodir num ultraje crescente à vida e à dignidade do homem. Neste novo tipo de violência global, o chicote da grande besta em Beslan, no Médio Oriente, em Manhattan, em África, faz dos mais indefesos, vulneráveis e inocentes a linha da frente deste época do terror. Na televisão, na imprensa e na rádio, todos os dias passa a reportagem do fim do mundo. Em cada tragédia em directo na televisão sente-se quanto o mundo mudou. Mas tudo isto, que é tudo para nós, é nada para os que vivem em Beslan à volta da escola nº1. Ali, de uma forma que ninguém humanamente pode entender ou sequer colocar em palavras, as vidas que continuam, agora são outras, o tempo foi violenta e abruptamente cortado, os dias que tinham acabaram, os destroços do passado, a desgraça, o desespero, a culpa e a tristeza vão demorar vidas a passar. Como na Palestina, em Jerusalém, na Bósnia, no Sudão ou no Iraque, entre muitas outras terras marcadas pelo sangue e pela vergonha, só novas gerações noutro tempo poderão algum dia encontrar alguma paz. Porque em cada criança está o futuro, ele mesmo, tocando no presente, em cada homem que nasce todo o futuro da humanidade pode nascer outra vez.

Nos homens, nas suas mãos e corações, antes de tudo o que nunca vamos entender, está o perdão, a dádiva que pode ajudar a suportar um passado que não pode ser desfeito, e, está também o poder da esperança, da fé, do compromisso e da dignidade de quem se alia e se compromete futuro adentro. Talvez incapazes de esquecer, mas capazes de perdoar, talvez não todos entre nós mas alguns, sejamos um dia capazes de prometer e de nos comprometermos, olhando o que existe e criando uma base, um terreno e uma mesma casa. Ser homem, em cada época, é sempre a forma como fomos ou não capazes de cruzar o perdão e a promessa. Entre o bem o mal, os dois caminhos estão sempre abertos ao homem e o que mais somos na nossa vida é essa mesma escolha. Sabemos isso e por isso estamos sempre desafiados e podemos sempre mudar o futuro. Hoje o tempo é de oração e é cedo para pensar e antecipar as consequências de Beslan; as consequências do horror, da demência e da impotência em directo nas televisões do mundo.

A história e a passagem do tempo foi sempre marcada por inúmeras e indizíveis tragédias, é certo. Hoje, no entanto, as coisas são diferentes. Em primeiro lugar, são hoje: com o peso da história, a experiência dos tempos, o conhecimento acumulado e, sobretudo, a dádiva e o testemunho de Jesus. Hoje também, vivemos cercados e imersos numa tecnologia que tudo leva a todo o lado instantaneamente, como em nenhuma época anterior havia acontecido. Neste quadro, Beslan foi a ignomínia e a vergonha sem palavras, vivida num mesmo tempo por todos os homens do mundo. Políticos, militares, sociais e económicos serão seguramente os caminhos do futuro, mas em causa está algo de mais fundo. Estão os caminhos morais do homem, a sua capacidade de afirmar o projecto humano em que estamos, de preservarmos a solidariedade, a ponderação e de simultaneamente utilizarmos o melhor conhecimento para entender uma tecnologia que está a retribalizar um mundo ocidental assente na linearidade, na sequencialidade e na lógica matemática, cujo choque com outras culturas, menos sequenciais e menos analíticas, está a deixar surgir um mal-estar global, cuja mensagem mais funda é a incompreensão, a guerra e o terror.

O Setembro americano, o 11 de Março madrileno e este Setembro russo, como um imenso manto de escuridão sobre o mundo, alterando o nosso modo de vida, levaram numa primeira reacção do caudal da história, a uma resposta brutal, militar, esmagadora. Mas é possível que com Bush em Washington e Putin em Moscovo nunca se consiga vencer a guerra ao terrorismo. Contudo a intrincada, complexa e estranha história desta era do terror global tem pouco a ver com o demagógico e pouco honesto "Fahrenheit 9/11". O quadro actual é o de uma ameaça catastrófica construída sobre o poder tecnológico-cultural de um mundo gerado pelo progresso do bem-estar e da liberdade no ocidente e pela manutenção da miséria, da impossibilidade de influenciar o que quer que seja, da ignorância e do desespero em muitas partes do mundo. Isto a par da ascensão da amoralidade e da imoralidade nos dois lados do conflito, embora por diferentes razões. O novo terrorismo global é particularmente perigoso, não apenas por ter acesso a armas e a tecnologias que nunca antes havia tido, mas sobretudo porque ao terrorismo tradicional ela junta agora o crime e a demência e se alicerça em rejuvenescidos sentimentos nacionalistas, que irromperam com a nova ordem/desordem iniciada com a implosão da União Soviética. Ao crime e à ausência de escrúpulos junta-se agora uma sociedade global onde tudo está acessível a todos, onde tudo de vê e onde o único valor entre tanta abundância é a capacidade de sobressair, de dar nas vistas, de estar na atenção de todos. Este traço mediático fundo é uma das condições da possibilidade do novo terrorismo global. Por essa razão e porque o que se está a passar abana as fundações da sociedade humana é chegado o tempo de se pensar o tipo de cobertura mediática admissível para os actos terroristas; e isto, na dupla perspectiva da moralidade dessa mesma cobertura, e da possibilidade de se retirar ou minorar aquilo que os terroristas hoje sempre tomam como refém: a atenção do mundo.

Professor universitário