quinta-feira, setembro 16, 2004

Portistas mandam no futebol dos três grandes

Pinto da Costa, Carlos Freitas e José Veiga têm FC Porto como referência

RUI TEIXEIRA, in A Capital, 13 de Setembro de 2004

Para uns não passa de mais um golpe do sistema. Para outros uma pura casualidade. Mas a verdade é que os responsáveis pelo futebol profissional dos três grandes têm em comum muito mais do que se pensa. Para além da vontade de vencer que Pinto da Costa (FC Porto), José Veiga (Benfica) e Carlos Freitas (Sporting) demonstram, a paixão pelo mesmo clube também é ponto de união, sendo o FC Porto a referência para todos. Confuso? Vejamos então.
Estamos em Dezembro de 1999. O plantel do Sporting denuncia carências que podem comprometer a luta pelo título, que foge há 18 anos. Augusto Inácio, o treinador, está decidido em inverter a história e pede reforços no defeso. O consultor do conselho de administração da SAD mete-se ao trabalho e consegue de uma assentada os brasileiros André Cruz e César Prates e o belga Mpenza. No final dessa época, os sportinguistas são campeões nacionais e muito desse sucesso passa pelo acerto nas compras de Inverno, decisivas, segundo a opinião da imprensa, para o fim de tão grande jejum. O homem que tratou desses negócios tem como recompensa o início de uma carreira meteórica nos leões, ocupando hoje o cargo máximo na estrutura do futebol profissional. Mas a história de Carlos Freitas é mais do que isto e como tal temos de recuar ao passado, para perceber como é que um apaixonado do futebol, que vibrava com as vitórias do FC Porto e "chorava" com as derrotas dos dragões, chega a tão importante cargo.
A juventude de Carlos Freitas é passada na Venda Nova, mesmo às portas de Lisboa. Filho único de uma família sem problemas financeiros, o jovem cedo começa a mostrar no seu núcleo de amigos um vasto conhecimento futebolístico, impondo-se com naturalidade nas habituais "discussões de café". Viciado em futebol, devora revistas da especialidade e tem nos jogos de computador uma enorme base de dados. Quem com ele conviveu na altura recorda-se da sua "inteligência" e da "facilidade de se dar bem com toda a gente". Mas há algo mais.
"Todos nós tínhamos as nossas preferências clubísticas e o Carlos era ferrenho do FC Porto. Hoje ainda é de certeza porque não se muda assim de clube, ainda para mais ele, que ficava completamente destroçado quando o FC Porto não vencia um jogo", acrescenta um vizinho e amigo da altura.
O jornalismo é a porta que o traz para perto do fenómeno futebolístico. Passa pelas redacções do DN, Record e O Jogo antes de chegar a empresário. Uma curta carreira (15 meses) na qual a sua maior transferência foi a contratação do lateral direito Nélson ao Aston Villa, pelo FC Porto, fruto de boas relações com Luciano D´Onofrio e Joaquim Oliveira.
Em 1999, Luís Duque, então presidente da SAD, precisava de alguém que tratasse da prospecção de mercado. António Oliveira recomenda a sua contratação e Freitas volta a utilizar a sua proximidade com o empresário belga para trazer os tais reforços para os leões. Próximo passo: o cargo de Gestor de Activos, ou seja, o braço direito do presidente da SAD, agora Miguel Ribeiro Telles, nas questões de mercado de jogadores.
Está ligado a algumas das contratações falhadas pelo clube, cujo exemplo máximo é o chileno Tello, ainda hoje o mais caro jogador de sempre do Sporting - custou 1,5 milhões de contos - mas também a outras de sucesso, como Polga, Tinga e Liedson. Este ano, com a redução do orçamento, teve de aplicar todos os seus conhecimentos para conseguir reforçar a equipa com atletas a custo zero, ou de baixa monta para os cofres leoninos. Resta saber quais serão os resultados desportivos, afinal de contas aquilo que interessa à massa associativa.

BENFICA. Mais conhecido é o caso do Benfica. José Veiga nasceu em Bragança, mas aos seis anos foi viver para o Luxemburgo, onde chegou a estar ligado à casa do FC Porto naquele país. Os serviços valeram-lhe um Dragão de Ouro e a amizade de Pinto da Costa, rompida nos anos 90 devido à transferência de Sérgio Conceição para a Lazio. Antes disso, aquele que foi o primeiro grande empresário de futebolistas português, confidenciou a amigos próximos que um dia ainda haveria de ser presidente do FC Porto. Para já comanda os destinos do rival da Luz, sabendo que em caso de insucesso desportivo as críticas dos adeptos na sua direcção serão mais veementes.