quarta-feira, setembro 15, 2004

O Subjectivo e o Objectivo

Segunda-feira, 06 de Setembro de 2004

Os juízes são pessoas comuns que às vezes têm de decidir segundo as próprias convicções. Está bem, têm direito à sua subjectividade. Mas, ao menos, que se proibissem de ver televisão.

J. L. PIO ABREU

O triste espectáculo da Juiza Filipa de Macedo seria trágico se não fosse risível. Tão risível que o mínimo bom senso anulou de imediato as suas consequências. Mas não a critiquemos assim. Ela actuou pela sua convicção, e pode invocar a falta de tempo para não se ter munido da informação necessária.

As convicções são subjectivas. Por exemplo, é subjectiva a convicção de que uma pessoa mente ou diz a verdade. Também é muito subjectiva a crença de que alguém se porta legalmente na sua intimidade. Eu próprio não posso pôr as mãos no lume pelo leitor, embora, em princípio, acredite nisso.

Descobrir a verdade objectiva nestas coisas, é muito difícil e, sobretudo, dá muito trabalho. É certo que a grande conquista da inteligência humana foi passar das convicções subjectivas às verificações objectivas. Mas não se pode exigir que um cidadão comum conheça todos os meandros da lógica e tenha o rigor e a capacidade de um cientista. Os juízes são pessoas comuns que, às vezes, têm de decidir apressadamente sobre questões dificilmente verificáveis. Então, decidem-se pela sua convicção, ou seja, pela sua subjectividade.

Acontece porém que vivemos num tempo em que a lógica tende a desaparecer, submergida que está pelas diferentes crenças que a televisão alimenta. Num brilhante ensaio traduzido em Português - Homo Videns: Televisão e Pós-Pensamento (Terramar) - o italiano Giovanni Sartori faz notar que o fundamento da crença é o ver (o que também já foi dito pelo Apóstolo São Tomé). A televisão mostra e, se o vemos na televisão, nós acreditamos. O problema é que as crenças (apesar de dependentes dos programas televisivos que se vêem) são indiscutíveis e, como tal, não se submetem aos mecanismos da argumentação e da lógica.

Quer isto dizer que o cidadão comum, com as suas quatro horas de consumo televisivo diário, ficou com a lógica inibida (e talvez por isso nada perceba de Matemática). Pelo contrário, ele vive intoxicado de crenças inargumentáveis. Então, por mais insólitas que sejam as suas convicções, elas só cedem perante novos programas da televisão. A lógica, a discussão, a prova e a argumentação contraditória, de nada servem já. "É assim porque eu sei e vi na televisão". É o pós-pensamento.

Os juízes são pessoas comuns que às vezes têm de decidir segundo as próprias convicções. Está bem, têm direito à sua subjectividade. Mas, ao menos, que se proibissem de ver televisão.

Psiquiatra e Professor da Universidade de Coimbra