quarta-feira, setembro 15, 2004

"Fahrenheit" e as Guerras Americanas

Por AUGUSTO M. SEABRA
Domingo, 05 de Setembro de 2004

A cerimónia de entronização concluiu-se - George W. Bush é o candidato à reeleição presidencial pelo Partido Republicano. O ritual ocorreu em Nova Iorque, a escassos dias do 3º aniversário do ataque terrorista de 11 de Setembro. Na ocasião, os republicanos aprovaram uma plataforma que não só reitera o "war president" como confirma o acolhimento das perspectivas culturais mais conservadoras, reafirmando, depois de uma clamorosa derrota no Senado, o intuito de banimento de casamentos homossexuais (numa desautorização expressa do vice-presidente, Dick Cheney) e da promoção de um "Human Life Amendment", ou seja, da proibição da interrupção voluntária da gravidez, saudando o Presidente por ter assinado o "Partial Birth Abortion Act", proibindo a interrupção nos segundo e terceiro meses de gravidez, já considerado inconstitucional por dois tribunais federais. Na ocasião da convenção, também teve o seu momento de glória (mais um) o conhecido agitador Michael Moore, ali presente como colunista convidado do jornal "USA Today".

Do exposto, pretendo retirar três factos: 1) a escolha de Nova Iorque, inteiramente previsível (fosse outro o local da convenção republicana, isso sim é que seria surpreendente), enfatiza que o trunfo fundamental de Bush, investido pelas circunstâncias em "war president", não são os reais avanços na guerra contra o terrorismo nem a "vitória" no Iraque, mas a invocação constante do 11/9 (9/11 no uso americano) que em termos mediáticos, propagandísticos e políticos corresponde à recorrência daquele como um "docudrama"; 2) a extensão de linhas discriminatórias das chamadas "guerras culturais"; 3) o relevo que Michael Moore, pelo seu célebre discurso de noite de óscares, com o "Shame on you, Mr. Bush", e depois com "Fahrenheit 9/11" e o seu triunfo no "box-office", adquiriu como expoente de uma oposição inorgânica a Bush.

O argumento das "cultural wars" deve ser considerado com extrema reticência. Sei bem, por experiência própria, que se travam "batalhas culturais", mas a fixação em ostensivas linhas de demarcação e a extensão a um conceito sistematizado de "guerra" suscita-me a maior das perplexidades - ocorre-me sempre o "kulturkampff" de Bismarck, ou seja políticas de discriminação. E, efectivamente, como ainda agora o vem confirmar a plataforma republicana e os vínculos que os estrategos da Casa Branca andam a tecer com grupos religiosos fundamentalistas (ou acaso seria só entre os islâmicos que os haveria?!), o conceito generalizado tem muito pouco de convivência democrática.

Isto dito, a acesa luta ideológica é certamente um dos apanágios da democracia americana. É um quadro que tem de ser relembrado na consideração do filme de Moore. Acho assim verdadeiramente extraordinário que o filme tenha sido remetido para o "índex" sem sequer ser visto e considerado como "acto de hostilidade" (de "guerra" supõe-se) a atribuição da Palma de Ouro de Cannes.

E assim sendo, concluo os considerandos dizendo também, depois de visto o filme, da minha perplexidade pela dita atribuição, mas redobrada por outra: acho extraordinário o geral silenciamento na imprensa de uma situação de proximidade, para não dizer mesmo promiscuidade, que se verificou nessa atribuição.

Por até já ter integrado um, faço alguma ideia do que pode ser um júri de Cannes. Sendo esse constituído por personalidades do meio cinematográfico (pelo menos maioritariamente), é natural que tenham gostos e cumplicidades que mais coincidam com alguns filmes concorrentes; é tão-só um facto. Não vejo é como se possa omitir que a Palma foi atribuída num contexto em que estava em causa a distribuição americana do filme, devido à recusa da Disney, e que o assunto se tornava vital para a Miramax, financiadora do filme; e que a Palma foi atribuída por um júri presidido pelo cineasta por excelência da dita Miramax, Quentin Tarantino!

Portanto, se houve decisões duvidosas (e eu vou-me permitindo supor que o Palmarés de Cannes deste ano foi um dos mais indigentes de sempre), não se venha a propósito arranjar um novo capítulo de uma guerra euro-americana, ou mais concretamente franco-americana. Se o assunto é também de "guerra", consideremo-la sim antes do mais no quadro americano.

2. Para todos os efeitos o objecto que nos é visível é um "filme" classificado como "documentário". É abstruso desqualificar o filme só porque não corresponderia a uma busca ética da verdade que seria imanente ao documentário. Discutamos então matéria de cinema.

Moore não deixa de se inscrever numa tradição, em que a referência foi o mais politicamente empenhado dos documentaristas americanos, Emilio de Antonio. Um filme como "Point of Order" que retomava os materiais televisivos das audições do senador McCarthy (com Roy Cohn a seu lado, o tal que viria a ser personagem de "Angels in America") é um antecedente que pode ser citado, mormente por interposto "Atomic Cafe" de Kevin Rafferty, o cineasta que primeiro sugeriu a Moore que também ele usasse uma câmara.

A inscrição pode tanto mais ser considerada quanto "Fahrenheit" é formalmente o mais trabalhado dos filmes de Moore, e também aquele em que o seu manifesto ego mais se apaga - parafraseando o título do primeiro filme "Roger and Me" (algo retomado aliás do "Mr. Hoover and I" de Emilio de Antonio, com a não negligenciável diferença de que este não se inventava um estatuto, fora mesmo seguido pelo FBI), "Bush and Me" ficou para a promoção e outras sequelas mediáticas.

Faz isso de "Fahrenheit" um desses objectos que correntemente se referem como "um bom filme"? Poupem-me por favor, ou antes, salvaguarde-se a arte cinematográfica!

Mesmo que a concreta experiência que lhe deu nome seja posterior, o chamado "efeito Kulechov" é tão velho como o cinema, é inerente ao princípio da montagem: a percepção do espectador é função da concatenação das imagens. Moore é um praticante exponencial, um manipulador. Nesse aspecto, ele provém da mesma cultura "pop" que se manifesta na alegre e até frequentemente brilhante manipulação de imagens num "videoclip".

Utiliza-se hoje também a categoria de "documentário de criação", num sentido mais próximo do ensaio literário. Mesmo nas suas obras mais militantes, Chris Marker é um admirável exemplo. Mas ocorre-me também o extraordinário "La Spirale" de Armand Mattelart e Valérie Mayoux, uma análise do processo conducente a outro 11 de Setembro, o de 73 no Chile. Infelizmente, "Fahrenheit 9/11" não é nada disso. E definitivamente não é nenhuma análise cinematográfica do 11/9!

"Um travelling é uma questão de moral", a montagem também. E a montagem, não apenas no seu concreto processo, mas na suposição geral dos materiais que se abordam ou omitem, aí se radicando a razão de um filme: a proposição ética e estética de um ponto de vista.

Há suposições e omissões em "Fahrenheit 9/11" que o desqualificam. O facto de eu entender que a administração Bush é incompetente e sinistra, e que também ela tornou o mundo mais perigoso, não me faz avalizar deturpações grosseiras, como a insistência nas conexões entre as famílias Bush e Bin Laden, como se Osama fosse propriamente um íntimo da Casa dos Saud, ou a apresentação quase paradisíaca do Iraque, como se Saddam Hussein nunca tivesse existido!

Mas não posso também ser indiferente à consideração de que há imensa matéria no filme que nunca tinha sido exposta com este impacto público: entre outros, o protesto dos congressistas afro-americanos pela validação do decisivo resultado eleitoral da Florida; a indiferença de Bush continuando numa leitura infantil mesmo depois de avisado que a América estava a ser atacada (e já agora faço notar que a descrição detalhada da manhã de 11 de Setembro é um dos capítulos mais embaraçantes do Relatório da Comissão de Inquérito do Congresso), e sobretudo as imagens concretas dos soldados no Iraque, dos caixões, das famílias (e muito se debateu há uns meses nos media americanos a não difusão das imagens dos caixões - só que depois vieram as de Abu Ghraib).

Obviamente que "Fahrenheit 9/11" é um panfleto propagandístico. Considerado nesses termos, é um objecto mais de uma longa tradição americana. Mas o terreno em que se vem colocar - e daí poder ser também um monumental equívoco, tanto mais decorrente do prémio em Cannes - é o de uma contra-informação televisiva, retomando aliás o fracassado "show" de Moore "TV Nation": à sessão contínua do "docudrama" do 11 de Setembro que é a propaganda de Bush, contrapõe uma outra que afinal encontrou o seu público nas salas de cinema, impensável que era nas cadeias nacionais.

Queixam-se? "It's the war"! Infelizmente, e em todos os sentidos, como os republicanos acabam de o reafirmar em Nova Iorque.

Crítico