sábado, agosto 14, 2004

Santos-04-S. Nicolau

Por MICHEL BRAUDEAU
Publico, Quinta-feira, 12 de Agosto de 2004

Os santos viajam depois da sua morte num espaço indefinido, o da lenda e da fé, do imaginário dos crentes que os tomam por patronos protectores, diplomatas acreditados pelo Todo-Poderoso e que, para obter a sua intercessão, não hesitam em modelá-los à sua vontade, com uma liberdade por vezes muito desenvolta, pouco de acordo com as mensagens que deixaram no final da sua missão pela Terra. Como se a sua última prova fosse não pertencer a si próprios, mas abandonar-se às vontades dos frívolos vivos que os tomam e os acomodam conforme desejam.

Sob o olhar eterno de Deus, os santos são imutáveis, sem dúvida; vistos cá de baixo, são nossos prisioneiros, reflectem as épocas e os modos do mundo submetidos ao tempo. E nenhum ícone humano pode escapar à análise crítica de psicólogos e sociólogos, a última etapa do calvário dos santos.

O caso de Nicolau é disso uma demonstração clara. Poucos santos estão tão universalmente presentes, mas não sabemos sobre ele mais nada senão que foi bispo de Mira no século IV. Segundo Jacques de Voraigne, que tentou harmonizar as diversas fábulas e histórias sobre Nicolau, teria nascido em Patras, Lícia, por volta de 270, de pais cristãos. O seu pai, Epifânio, era rico e piedoso, a sua mãe, Joana, era irmã de Nicolau, o antigo, bispo de Mira, actual cidade de Dombre, na costa da Anatólia.

Rico depois da morte dos pais

No dia em que lhe deram o primeiro banho, quase se afogou na banheira. Desde a infância que jejuava: só mamava às quartas e sextas. Adolescente, ignorava os prazeres vulgares dos seus camaradas e frequentava as igrejas, estudando as santas escrituras.

Tornando-se rico depois da morte dos pais, resolveu empregar a sua fortuna para a glória de Deus. Sabendo que um dos seus vizinhos, dominado pela pobreza, tentava entregar as suas três filhas à prostituição para viver do seu deboche, Nicolau deitou às escondidas pela janela do vizinho uma quantidade de ouro suficiente para pagar o casamento da mais velha. Depois renovou o gesto para com as outras duas. O pai, curioso de descobrir quem era o benfeitor, ouviu o ouro cair, perseguiu e apanhou Nicolau, que o fez jurar que guardaria segredo sobre a sua identidade.

Quando morreu o bispo de Mira, os bispos da região reuniram-se para designar o seu sucessor e decidiram que nomeavam o primeiro que entrasse na igreja de manhã. Foi Nicolau. Apesar das honras devidas ao seu cargo, o bispo Nicolau continuou humilde e grave nos seus modos, fugindo da companhia das mulheres e rezando. Uma noite, alguns marinheiros apanhados numa tempestade pediram a sua ajuda. Nicolau apareceu-lhes, ajudou-os a manobrar o barco até a tempestade se desvanecer. Os marinheiros foram à igreja agradecer a Deus e reconheceram Nicolau.

Um dia, salvou toda uma província da fome, entregando aos pobres o trigo destinado ao imperador e devolvendo por milagre a preciosa carga aos navios. Uma outra vez, quando Nicolau combatia a heresia arianista e o culto idólatra de Diana, o demónio, desesperado, disfarçou-se de uma velha mulher e confiou um recipiente com óleo diabólico a peregrinos que navegavam ao encontro de Nicolau. Este, alertado, foi de barco até eles e interrogou-os. Adivinhando que a velha não era senão Diana travestida, ordenou aos peregrinos que deitassem o vaso ao mar, onde o óleo "contranatura" se incendiou de imediato.

Os três príncipes

O seu milagre mais brilhante diz respeito a três príncipes, Nepociano, Urso e Apeliano, enviados pelo imperador Constantino para reprimir uma insurreição. Enquanto Nicolau os acolhia, o cônsul da região, prefeito corrupto, fez condenar à morte três soldados inocentes. Nicolau, acompanhado pelos príncipes, correu e tirou os soldados das mãos do carrasco. Os três príncipes partiram a cumprir a sua tarefa, mas, de regresso à corte, foram perfidamente denunciados pelo prefeito como traidores e condenados pelo imperador.

Lembrando-se dos três soldados inocentes, Nepociano invoca a ajuda de Nicolau. Este aparece em sonhos ao imperador e ao cônsul na mesma noite e na sua qualidade de bispo de Mira exige a libertação dos príncipes. Ao acordar, o imperador, informado da vida de Nicolau e dos seus milagres, convence-se da inocência dos príncipes e manda que sejam libertados.

Encontramos uma variante deste grande feito durante o século XII na Normandia e Lorena: três crianças perdidas pedem hospitalidade por uma noite a um talhante, que as degola, corta ems pedaços e põe a salgar. Nicolau, que passava nas redondezas, é recebido pelo talhante e insiste em comer o que está na salgadeira. As crianças foram imediatamente ressuscitadas. Pensa-se que este milagre póstumo é uma deformação da história dos três príncipes.

Os miniaturistas da Idade Média - por falta de espaço ou para exaltar a grandeza do santo - terão reduzido o tamanho dos três oficiais e representaram-nos como crianças, assim como a torre em que estavam encerrados foi desenhada com a dimensão de um tanque, para fazer caber todas as personagens numa só imagem. Este erro ingénuo de perspectiva, artifício banal nas pinturas da época, acabou por ser fecundo e por fazer com que Nicolau - em nada predisposto a este papel particular - se tornasse por excelência no santo protector das crianças que ainda é; ao preço, é verdade, de algumas metamorfoses acrobáticas que relevam menos da hagiografia do que das fantasias do folclore medieval - e nos nossos dias responde sobretudo às necessidades triviais do comércio.

Reputação de milagreiro

Nicolau participa, dizem-nos, no concílio de Niceia em 325 e é chamado a Deus pouco depois. A sua reputação de milagreiro, importante já durante a vida, não parou de crescer e os milagres multiplicavam-se ao redor do seu túmulo na catedral de Mira. Desde o século VI que lhe foi consagrada uma igreja em Constantinopla, e depois outras; o culto de S. Nicolau estende-se por toda a Ásia Menor e Balcãs, entre os cristãos ortodoxos da Síria, da Palestina e do Egipto. Em 1087, os venezianos, que tinham já repatriado os restos mortais de S. Marcos, quiseram apropriar-se dos de S. Nicolau. Marinheiros de Bari levam a melhor e transportam as relíquias para a sua terra, onde são solenemente sepultadas numa basílica.

Os povos escravos, ao serem cristianizados, adoptam S. Nicolau como patrono, sendo venerado em todas as igrejas do Oriente e do Ocidente. Na Idade Média, na Europa do Norte, nas procissões de S. Nicolau, a 6 de Dezembro, uma criança vestida de bispo distribui prendas pelas crianças bem-comportadas, enquanto o seu ajudante pune os ingratos e indisciplinados. Na Santa Rússia anterior a 1917, a Igreja ortodoxa venera Nicolau e dois czares têm o seu nome.

A Reforma protestante no século XVI aboliu o culto dos santos, mas os pequenos holandeses continuam a esperar a visita e os presentes de Nicolau, Sinterklaas, que desce pela chaminé na noite de 6 de Dezembro. Ao emigrarem para a América para fundar a colónia de Nova Amesterdão (Nova Iorque em 1664), os holandeses levaram com eles Sinterklaas, rapidamente rebaptizado Santa Claus. Nos países católicos da Europa, por não conseguirem acabar com o culto do S. Nicolau, as autoridades cristãs contentam-se em aproximar a data da sua celebração da do Menino Jesus.

Barba para alegrar crianças

A propósito, porque é que o Natal é a 25 de Dezembro? Para os antigos romanos, era a data do solstício de Inverno. Eles preparavam nesse dia-charneira a festa das Saturnais, durante as quais os escravos tomavam por momentos os lugares dos seus proprietários - prefiguração do Carnaval - antes de serem imolados. A Igreja, no século IV, ignorando o verdadeiro dia do nascimento de Cristo, decidiu associar-se de qualquer modo a esse espaço de cerimónia imemorial e fazer coincidir esse dia, o do (re)nascimento do sol, com o do nascimento do Salvador, sol da justiça. E o 25 de Dezembro passou a ser definitivamente designado como o dia do aniversário de Cristo pelos papas Libério e Sisto III. "Natale", em latim, tornou-se "Natal".

As Saturnais - originalmente festas de mortos sem sepulturas - transformaram-se na época medieval em "festas dos loucos", durante as quais se elegia um papa dos loucos, chamado "o abade da Alegria". Durante este período frio e sombrio do fim do Outono, as crianças, disfarçadas de mortos-vivos, deslocavam-se em grupos de casa em casa, cantando e fazendo votos, em troca de frutos ou bolos. Era tentador e lógico fundir pouco a pouco a tradição das colectas e a procissão de Nicolau. Através de uma hábil manipulação de calendário, Nicolau passou a dar presentes na véspera de Natal.

Como nota Claude Lévi-Strauss num artigo memorável de 1952, "O suplício do Pai Natal", as colectas da Idade Média estavam ligadas às de S. Nicolau, que ressuscita as crianças mortas, e sobretudo às do Halloween, na véspera do Dia de Todos-os-Santos, em que, nos países anglo-saxónicos, "as crianças mascaradas de fantasmas e esqueletos perseguem os adultos, que apenas recuperam o seu sossego através de presentes (...). Procura dialéctica em que as principais etapas são: o regresso dos mortos, a sua conduta ameaçadora e persecutória, o estabelecimento de um 'modus vivendi' com os vivos através de uma troca de serviços e de presentes, enfim, o triunfo da vida, quando, no Natal, os mortos abandonam os vivos para os deixar em paz até ao Outono seguinte".

Assim, explica Lévi-Strauss, o Pai Natal moderno é herdeiro do abade da Alegria, de quem é a antítese. Através da deslocação da festa de S. Nicolau para o Natal, o abade, "emanação da juventude simbolizando o seu antagonismo em relação aos adultos, tornou-se em símbolo da idade madura (...), o apóstolo do mau comportamento fica encarregado de sancionar a boa conduta; aos adolescentes abertamente agressivos substituem-se os pais escondendo-se sob uma falsa barba para alegrar as crianças".

Negócios são negócios

Em 1809, o escritor Washington Irving evoca as viagens aéreas efectuadas por S. Nicolau para chegar numa noite a milhares de pequenas almas... Em 1821, um pastor americano, Clement Clark Moore, escrevia para as suas crianças um conto onde o Pai Natal substitui Nicolau. O Pai Natal é jovial e rubicundo, já não traz a mitra, a sua cruz é de açúcar de cevada.

Já não anda de burro, mas desloca-se pelos ares a bordo de um trenó com oito renas. Em 1860, o ilustrador Thomas Nast, o criador da figura do Tio Sam, envolveu o Pai Natal num fato vermelho talhado na bandeira estrelada e situou a sua residência oficial no Pólo Norte.

Em 1931, finalmente, Haddon Sundblom, encarregado da publicidade da Coca-Cola, redesenha a silhueta do Pai Natal, dando-lhe uma estatura humana, veste-o de vestes vermelhas forradas a branco (as cores emblemáticas da marca) e é com este novo "look" que chega à Europa; é levado não por renas voadoras, mas pelo gigante de bebidas de Atlanta, desejosa de incitar os consumidores a comprar a poção gasosa e refrescante em pleno Inverno.

Vozes elevaram-se, nos anos 50, entre elas a do secretário-geral da ONU, o sueco Dag Hammarskjöld, para criticar o americanismo do Pai Natal desembarcado nas malas do Plano Marshall. O arcebispo de Toulouse estigmatiza este retorno do pagão, o cónego Kirr faz queimar uma efígie do Pai Natal na praça da catedral de Dijon diante de 250 crianças consternadas. Pudemos constatar a eficácia de um tal exorcismo. Negócios são negócios e os deuses do negócio são duros de roer.

Os industriais da cultura anglo-saxónica começaram recentemente a reintroduzir na Europa a muito antiga festa celta do Halloween (e o seu cortejo lucrativo de disfarces, jogos e doces). O sucesso da operação foi mitigado, frágil, menos insignificante do que alguns previam. Sem dúvida um melhor estudo de mercado permitirá transformar num sucesso o transplante artificial de uma "tradição" esquecida, supérflua mas rentável.

Para os que resistem ainda ao grande negócio do Pai Natal, a festa de S. Nicolau continua fixada a 6 de Dezembro. Abundantemente representado, o número das suas estátuas só é suplantado por Santa Teresa e Santo António de Pádua. E se o bispo da antiga Mira continua a ser padroeiro das crianças e dos indefesos, é também o da Rússia, da Lorena, dos fazedores de perfume, dos marinheiros aflitos e das raparigas em dificuldades.

Exclusivo PÚBLICO/ "Le Monde"