sábado, agosto 14, 2004

Rohmer: a Grega e o General

Por JOÃO BÉNARD DA COSTA
Público, Sexta-feira, 13 de Agosto de 2004

uviam-se botas a marchar. Não é como quem diz, é como quem escuta. Rufos. Um assobio finíssimo. Depois, ainda sem música, brados indistintos de homens armados. Mais botas, mais marchas. E, então, como se nos falasse ao ouvido, a voz quente e translúcida de Yves Montand, ao tempo em que tinha vinte e poucos anos, Edith Piaf o protegia e era imaculadamente revolucionário. Ainda sem cantar, em recitativo, segredava-nos: "Ami, entends-tu l'ombre noire / des corbeaux sur nos plaines? / Ami, entends-tu ce cri sourd / du pays qu'on enchâine?

Assim começava "Le chant de la libération", mais conhecido como "Le chant des partisans", hino da Resistência francesa, ou hino dos comunistas dela (há versões), durante os anos torturados e heróicos da ocupação alemã.

Ouvi-o mil vezes, não durante esses anos, mas dez anos depois, num disco que tinha na capa a reprodução colorida de uma gravura alusiva à tomada da Bastilha. "Chansons Populaires de France" chamava-se. Começava com baladas medievais ("Le roi Renaud de guerre revient") e vinha pelos séculos fora até acabar com os "partisans".

Sem que eu o suspeitasse (a palavra já me saltou ao caminho, sem a premeditar tão cedo) a audição do disco fazia parte do programa de sedução dos meus educadores políticos. Como a "Cantata da paz" de Prokofiev ou como o "Canto das florestas" de Chostakovitch.

Lembrei-me de tudo isso outro dia, no Nimas, vendo "Triple Agent" de Rohmer quando, ainda antes de qualquer imagem visual, comecei a ouvir um canto russo que ora me lembrou o "Canto das florestas" ora o "Chant des partisans". Descobri, depois, que era outra oratória de Chostakovitch e que a letra também segredava coisas a quem se trata por tu. "Minha loura, ouves tu, na cidade / os silvos das fábricas e comboios?" Quem sabe se não foi essa composição que inspirou Druon e Kessel para o hino dos resistentes? Quem sabe se não está nela o traço de ligação entre os discos que eu mais ouvia há 50 anos? Quem sabe? O ecrã é tão escuro e nós ainda não vimos nada.

Mas só agora, depois de ver o filme, reparei como é arrepiante a letra do "Chant des partisans", que os manda matar depressa "à la balle et au couteau" e que justifica o ódio pela miséria. Um guerrilheiro da Al-Qaeda podia cantá-la convictamente. Precisei de 50 anos e do filme de Rohmer para pensar nisso, assustando-me também com associação tão paulatinamente reaccionária.

2 - Para "Triple Agent", Rohmer recorreu, outra vez, a um artigo publicado na revista "Historia", que já lhe fornecera a base para "L'Anglaise et le Duc", levando-o a conhecer as memórias de Grace Elliott. Agora, não se trata da Revolução Francesa, nem Rohmer teve que reconstruir em vídeo Paris nos anos do Terror. A sua fonte (ou as suas fontes, pois que Rohmer cita várias) levaram-no à segunda metade dos anos 30 (1936-1939) e à "tenébreuse affaire" (é Rohmer quem convoca Balzac, não sou eu) do rapto de um general russo branco, em Paris, 1937. É um caso verídico, mas que Rohmer tratou com muito mais liberdade do que a história de Grace e de Philippe Égalité. Disse ele numa entrevista à "Positif": "Os russos conhecem bem essa história, mas há duas teses em confronto: uma acredita na culpabilidade de Skoblin [a personagem histórica que serviu de base a Fiodor Voronine, protagonista do filme]; outra que vê em todo esse caso uma maquinação contra ele, fomentada ou pelos russos ou pelos alemães, que achavam que ele sabia demais, ou por outros oficiais, esses sim autênticos espiões. Eu decidi deixar o espectador na dúvida. Achei mais original contar uma história que acaba com um ponto de interrogação. Se o público ficar desiludido, o problema é dele. Nunca me dirigi ao grande público. Tenho o meu público, que me é bastante fiel. E o ponto de interrogação corresponde à verdade. Há mil histórias de espionagem que nunca se esclareceram. Tomei imensas liberdades em relação à história, mas mantive a fidelidade de não optar. Só conservei, dos factos reais, os acontecimentos mais inverosímeis, sobretudo o final."

Raríssimos, hoje em dia, pegam assim o público pelos cornos, talvez o que ele tenha de mais visível. Raríssimos recorrem, recorrentemente, à palavra fidelidade. Raríssimos preferem as perguntas às respostas, Rohmer é raríssimo. Tão raríssimo como este raríssimo filme. Quando eu o fui ver, cerca de dois meses depois da estreia portuguesa, verifiquei, com grande surpresa, que a sala estava cheia. Não há público, há pessoas. E, como dizia e.e. cummings, de cada vez que alguém coloca um colectivo (o público, por exemplo, seja o que for que isso for) acima do indivíduo, podemos estar seguros que estamos perante um crápula, um hipócrita ou um bajulador. Cada vez são mais? É bem certo. Mas essa é só a melhor razão para cada vez mais amarmos o raríssimo Rohmer.

3 - Acabada a surpresa do ecrã negro com cânticos russos estalinianos, nova surpresa. Um intertítulo, como num velho filme mudo, situa-nos no tempo e no espaço. Maio de 1936, França, Paris. E, logo a seguir, terceira surpresa: um jornal de actualidades da época conta-nos a vitória da Frente Popular nas eleições desse mês e desse ano. Ao longo do filme, o processo é recorrente. Cada capítulo acaba com uma legenda e começa com um jornal de actualidades.

Caução histórica? Não é preciso chegar ao fim do filme, para reparar que, numa história onde todos mentem (ou onde todos parecem mentir), quem mente mais são essas actualidades. O documentário é sempre muito mais enganador do que a ficção. Só em torno deste tema, o filme de Rohmer justificaria longuíssimo ensaio, precisamente sobre a natureza do real e da ficção. Agora que o documentário voltou à moda, o filme de Rohmer, bem visto, devia bastar para a vacilação de muitos dogmas. Que bom teria sido se esses documentários fossem a verdade. "No pasarán"? Ai não, que não passaram. Amanhãs que cantam? Estaline nos braços de Hitler e o pacto germano-soviético. A paz para uma geração? Faltavam pouco mais de três anos para começar a II Guerra Mundial.

Ouça-se e veja-se com muita atenção aquele casal de simpáticos comunistas (pessoas tão sinceras e que acreditam tão sinceramente no que dizem, como reconhece a própria Arsinoé, a mulher do possível agente triplo) com as suas desculpas para Estaline e para a revolução num só país. Julgavam que iam para a ordenha ou para a tosquia e ignoravam-se a caminho do matadouro. Por isso, a certa altura, desaparecem do filme. Já lhes conhecemos a sorte e não eram eles que podiam valer a Arsinoé. Eram carne tenra e só ela estava marcada pela tuberculose óssea que não a deixava andar.

4 - Quando é que entra o medo neste filme, quando é que entra a suspeita neste filme, que faz tanto medo e que sobre o medo e a suspeita é construído, como um filme de Hitchcock, mestre de Rohmer para quem o não saiba?

Demora algum tempo, como mandam as boas regras dos filmes de terror. Ao princípio ("décors", guarda-roupa) parece que estamos apenas perante uma boa reconstituição histórica do ambiente político e social desses anos.

O general russo - Voronine - é bem simpático e bem dialogante para um russo branco. Serge Renko, o actor, parece-se com David Niven em suave "charme" e suave calma. A grega mulher dele - Katerina Didaskalu - é bem bonita e não parece ter muito a ver com o mundo e com as ideias do marido. É uma pintora de domingo, "assez naïve", como o Douanier Rousseau, e não é dada a vanguardismos estéticos. Copia o "real" (ou espia o "real") e pinta muito parecidinho. O contrário dos Picassos que os vizinhos comunistas têm nas paredes. Só mais tarde (e porque um personagem o sublinha) é que reparamos quão estranho é que aquele homem seja general há cerca de vinte anos (quando ele próprio vinte anos teria), o que lhe vale uma irónica comparação com Bonaparte. Só mais tarde reparamos que aquele homem, de mundanal existência, está muito bem informado dos destinos do vanguardismo estético na Rússia de Jdanov e observa, com razão, aos vizinhos que as pinturas da mulher seriam bem mais apreciadas na URSS do que na França de Léon Blum. Só mais tarde registamos como ele toma a sério as consequências a extrair do "socialismo num só país", eventualmente a única personagem a não se deixar iludir por caprichos espanhóis e por antifascismos de fachada.

Mas se o medo entra no filme (e de que subreptícia maneira!) pelo que sabemos que vai acontecer, pela razão que ele tem e que ninguém lhe dá, a suspeita só chega - de sopetão - quando, ouvindo o marido conversar com o primo príncipe tornado "chauffeur" russo, Arsinoé realiza que Voronine conta ao outro coisas que ela nem sequer imagina, que o marido não é quem parece ou não parece quem é. A partir desse momento, tudo vacila. É bem verdade que ele próprio admite ser um agente duplo ou até triplo. Mas será verdade que ele foi a Berlim e conspira com os nazis? Será verdade que ele prepara um regresso à URSS, porque Estaline precisa de generais brancos, depois de ter liquidado os vermelhos? Quem é aquele homem? Um génio sem escrúpulos? Um megalómano irresponsável? Um pobre pateta, de fraquezas bem exploradas? E ela quem é? "Qu'est-ce que savait Arsinoé?" para aliterar levemente o título de um artigo de Jean-Michel Frodon nos "Cahiers".

Provavelmente sabe tanto quanto a Joan Fontaine de "Suspicion" de Hitchcock sabia de Cary Grant. Suspeita e nunca está certa de nada. Nenhum plano do filme mostra o casal junto e tudo se passa em campo-contracampo, numa das mais sábias utilizações dele que já vi. Aparentemente juntos, estão sempre separados. Aliás, a fabulosa "découpage" de "Triple Agent" ("l'élément premier de la mise-en-scène", segundo Rohmer) separa sempre todos de todos, cobrindo de ausência as humanas presenças.

As personagens falam muito, como falam em todos os filmes de Rohmer, mas as palavras de nada adiantam e acabam sem qualquer explicação para o que lhe aconteceu a ele e para o que lhe aconteceu a ela, embora saibamos que o que lhes aconteceu é a única verdade histórica do filme.

Mas é durante esses diálogos, sob e sobre esses diálogos, que a suspeita mais se adensa e nos faz mais medo. Até porque suspeitamos que o mais importante não é aquela história. Se afinal "Triple Agent" não for um filme sobre os anos 30, mas sobre os dias de hoje? Na história da inglesa e do duque, ainda tínhamos onde nos agarrar. No "gouffre de la mise-en-scène" que é a não-história da grega e do general, ficamos em suspensão. Não há nada que faça mais medo do que o vazio. Não haver ponta por onde se lhe pegue. Quando se quer dizer mal, diz-se isso. Quando se quer dizer bem, como é que se diz? Não se diz nada. Filma-se "Triple Agent". Ou vê-se "Triple Agent". Escritor