sábado, agosto 14, 2004

A Origem das Espécies -01

Por DAVID VON DREHLE
Público, Sábado, 14 de Agosto de 2004

Era uma vez na América um partido político que acreditava num governo central forte, em impostos altos e em ambiciosos projectos de obras públicas. Este partido era popular nas universidades da Nova Inglaterra e era a escolha esmagadora dos eleitores afro-americanos.

Era o Partido Republicano.

Os republicanos começaram como contrapeso ao outro partido: o partido dos impostos baixos e do governo limitado, o partido que olhava com suspeita as elites da Costa Leste, o partido que pensava que Washington não devia meter-se nos assuntos dos proprietários privados.

Eram os democratas.

O facto de os dois partidos terem trocado tão completamente de plataformas, de retórica e de ideais nucleares pode ser olhado, por alguns, como uma falha. Alguns podem pintar a falta de alma dos dois partidos - que parecem felizes por defenderem amanhã o contrário do que defendiam ontem, se é isso que é preciso para manter a polémica - como uma coisa má. No fim de contas, dizer mal dos partidos é uma coisa popular.

Em tempos bons e maus, em épocas de crise e de calma, os americanos têm odiado os partidos. O próprio George Washington chamou-lhes "realmente o pior inimigo" do governo popular; o seu sensível vice-presidente, John Adams, também os lamentava. "Não há nada que lamente mais do que a divisão da república em dois grandes partidos, cada um alinhado sob o seu líder e alterando medidas em oposição um ao outro", escreveu Adams, mesmo antes do fim da Guerra da Independência.

Mais ou menos um século depois, Theodore Roosevelt ia pelo mesmo caminho, desdenhando tanto de republicanos como de democratas. "Os velhos partidos não têm alma, estão divididos segundo linhas artificiais, cheios de caciques e controlados por privilégios, cada um deles é uma amálgama de elementos incongruentes, e nenhum se atreve a dizer sabiamente e sem medo o que devia ser dito sobre as questões vitais do dia."

Nos dias de hoje, os americanos odeiam os partidos por eles serem demasiado polarizados. O multimilionário Ross Perot baseou a sua impressionante candidatura presidencial em 1992 na promessa de acabar com as guerras entre os partidos. Também os odeiam por não serem suficientemente polarizados. Em 2000, o defensor dos direitos do consumidor Ralph Nader justificou a sua candidatura à Presidência dizendo que democrata e republicano eram apenas dois nomes para a mesma e velha coisa.

Mas uma coisa deve ser dita: não exageremos. É verdade que os partidos podem ser responsabilizados pelos impasses, más-vontades, acusações e ajustes de contas que infestam hoje a vida cívica nos Estados Unidos. Também pelo falhanço em projectar uma política externa clara, pela incapacidade em controlar despesas numa situação de economia em queda e pelo desperdício de anos preciosos, quando a bomba-relógio das despesas com a segurança social e as reformas ameaça a prosperidade de gerações futuras. E pela implacável destruição de reputações, pela redução fácil de crises genuínas a meros pontos para debate, pelo igualmente fácil exagero de meros pontos de debate a alegadas crises e pela subversão de prioridades nacionais a um facciosismo basista e à ganância pessoal. Mas quem é que não tem uma falha ou duas?

A América viu os democratas reunirem-se em Boston para se aplaudirem a si mesmos e ao seu candidato presidencial. Os delegados aprovaram uma plataforma que ninguém lê e conversaram nos corredores, enquanto vários dirigentes eleitos leram discursos que ninguém ouviu. No fim deste mês, em Nova Iorque, os republicanos organizarão um evento semelhante. A questão vital, neste momento de convenções, é como é que estes partidos - estas organizações sem princípios, oportunistas, espontâneas e inconsistentes com as quais vivemos rabujentamente há tanto tempo - têm conseguido produzir um tal excedente de liberdade, prosperidade e felicidade, em comparação com tão pouco (no deprimente balanço da depravação humana) crime, tirania e corrupção. Embora seja difícil imaginar, devem estar a fazer alguma coisa bem feita. Pensemos no quê...

is uma coisa a favor deles. Pelo menos, há muito que não andam aos tiros uns aos outros. Fez em Julho 200 anos que o vice-presidente dos Estados Unidos se escapuliu para um lugar não revelado, para uma reunião privada com o ex-secretário do Tesouro. Em Nova Jersey, com vista para Manhattan, Aaron Burr feriu mortalmente Alexander Hamilton com um único tiro de uma pistola de duelo.

É óbvio que as divergências se tinham tornado pessoais. Estes líderes brilhantes do jovem país não teriam desatado aos tiros um ao outro sem uma justificação forte, por exemplo Burr ter levado a mal qualquer coisa que Hamilton possa ter dito (ou possa não ter dito) e que podia ter aparecido num jornal, mas que, de facto, não apareceu. Antes de a sua relação ter chegado a esse triste nadir, contudo, o choque entre o terceiro vice-presidente dos Estados Unidos e o autor principal de "The Federalist Papers" começou como pura política partidária. Hamilton era um federalista, e Burr era um republicano (que era o que os democratas chamavam a si próprios por esses dias - é verdade). Em 1800, Hamilton conspirou para fazer com que Burr não chegasse à Casa Branca, como vingança por Burr ter antes conspirado para manter os hamiltonianos fora do poder. Conspirações, esquemas, ridicularizações públicas, traições: uma coisa levou a outra até que... Bang!

Isto é que é uma verdadeira política de destruição pessoal.

O propósito de contar esta história é mostrar como, por muito maus que hoje pareçam os rancores partidários, as coisas podem ser muito piores. As políticas partidárias podem causar guerras, motins e divisões. Fora dos Estados Unidos já produziram depurações, prisões e genocídio. Olhado nesta perspectiva, o facto de o vice-presidente Dick Cheney ter usado no Senado a palavra "f..." parece algo muito civilizado.

A outra lição a tirar da triste história de Burr e Hamilton é que os partidos rivais dos Estados Unidos não apareceram a partir do nada. Estão com a nação desde o princípio. A estupenda figura de George Washington era capaz de se elevar acima das querelas partidárias, mas era a única. Depois dele, os dois mais brilhantes e visionários jovens dos Estados Unidos propuseram ideias dramaticamente diferentes sobre o que devia ser o futuro da América e sobre quem devia conduzir para lá a nação. Dois génios, dois rivais, dois egos - dois partidos.

Hamilton foi um deles: bem parecido, ambicioso, arisco e grande. Emigrante das Índias Ocidentais, filho ilegítimo, Hamilton abriu caminho até se tornar braço direito de Washington durante a Guerra da Independência. Também era um escritor dotado e enérgico, dom que aplicou para se tornar um dos mais eficazes vendedores da Constituição dos Estados Unidos, e que usou mais tarde para ataques demolidores aos seus inimigos políticos. Hamilton tinha a visão de um país centralizado governado por um presidente forte - talvez mesmo um rei - em cooperação com uma aristocracia mercantil. De uma nação de comerciantes, fabricantes e financeiros unidos por um sistema bancário central e protegida por tarifas elevadas.

E depois havia Thomas Jefferson: refinado, ambicioso, perdulário com o dinheiro mas maravilhosamente eficiente com as ideias. Era o único que realmente podia comparar-se a Hamilton. Jefferson tinha a visão de um país descentralizado, uma vaga confederação de estados governada tão pouco quanto possível; tinha a ideia de uma nação de plantadores e agricultores; preferia a democracia à aristocracia e por isso suspeitava de quem quisesse concentrar poder.

Logo que Washington tomou posse, Hamilton e Jefferson começaram a dividir o novo país em facções concorrentes. O pai dos Estados Unidos procurou controlá-los nomeando-os para os dois lugares mais importantes do Governo. Mas a rivalidade do secretário do Tesouro Hamilton e do secretário de Estado Jefferson cedo fizeram com que a fricção de hoje entre Colin Powell e Donald Rumsfeld pareça uma sessão de massagens.

Discordaram em questões grandes (como a Revolução Francesa) e pequenas (como a melhor maneira de se dirigirem ao Presidente). Hamilton financiou um jornal para poder ter um sítio onde publicar as suas tiradas anti-Jefferson - escritas sob pseudónimo, embora todos reconhecessem a sua extraordinária escrita quando a liam. Jefferson, um pouco mais circunspecto, encorajou um amigo, o poeta Philip Freneau, a lançar um jornal concorrente, e contratou o seu amigo James Madison para escrever tiradas anti-Hamilton.

No fim do primeiro mandato de Washington, a animosidade entre Hamilton e Jefferson "tinha chegado ao ponto em que dificilmente suportavam estar na mesma sala", escreveu o historiador David McCullough. "Cada um tinha a certeza de que o outro era um homem perigoso que tinha a intenção de dominar o Governo". A única coisa em que conseguiam chegar a acordo era que sem mais quatro anos com Washington na Presidência o país podia desfazer-se em pedaços.

O velho general cumpriu mais um mandato, e depois retirou-se para o monte Vernon, deixando atrás de si um governo dividido. Em 1796, o federalista John Adams foi eleito Presidente, com Jefferson - líder da oposição - como vice-presidente. Este exercício de coligação acabou por revelar-se um equívoco. Jefferson quis começar com uma generosa e calorosa carta de elogio ao seu velho amigo Adams, mas o estratega do seu partido, Madison, pediu-lhe para não enviar a carta, avisando-o de que era perigoso dizer coisas simpáticas sobre um adversário.

No período de dois anos, havia multidões de federalistas a chocar com multidões de jeffersonianos nas ruas de Filadélfia. "A política e os ódios partidários destroem a felicidade de qualquer ser que aqui viva", escreveu Jefferson à filha. Enquanto os Estados Unidos se abeiravam da guerra com a França, os insultos e o jogo baixo nos "media" do século XVIII ultrapassavam Michael Moore e Rush Limbaugh no seu pior. Um director de jornal pró-Jefferson perguntou que "causas ocultas" tinham levado os norte-americanos a apoiarem Adams - "um miserável cuja alma foi rejeitada pela própria natureza".

Para silenciar as críticas, o Congresso aprovou - e Adams assinou - legislação tenebrosa (os Alien e Sedition Acts) que limitava drasticamente as liberdades constitucionais de expressão e de imprensa. O neto de Benjamin Franklin, um director de jornal pró-Jefferson, esteve entre as duas dezenas de jeffersonianos presos e acusados ao abrigo da lei de sedição de caluniarem o Presidente Adams. Vários jornais foram encerrados.

As paixões aproximaram-se do ponto mais perigoso. Então, por razões que não são inteiramente claras, Hamilton decidiu que as suas querelas internas com Adams eram maiores do que as suas disputas filosóficas com Jefferson. Virou-se contra os seus correligionários federalistas. O partido hamiltoniano fracturou-se, para nunca mais se recompor. O partido de Jefferson prevaleceu e manteria a Casa Branca durante os próximos 40 anos.

Uma coisa muito boa que se pode dizer dos partidos políticos norte-americanos é que tendem a implodir.

Desde o princípio, sempre que um partido conseguiu a força suficiente para começar a aprovar leis horríveis (como os Alien e Sedition Acts), desmoronou-se pouco depois. Com poder em excesso, os partidos perdem o controlo das coisas. Ou permitem que algum elemento do partido leve os seus dogmas a um extremo, afugentando desta forma os apoiantes moderados. Ou então fossilizam-se e vêem-se incapazes de lidar com os problemas que surgem. Sucede algo e o pêndulo começa a deslocar-se no sentido contrário. Isto aconteceu aos federalistas. Anos depois, o ultraje público face aos modos tirânicos do homem-forte populista Andrew Jackson dividiu em dois campos o partido de Jefferson - os Democratas de Jackson contra os Whigs de Henry Clay - e deixou-o incapaz de lidar com a questão da escravatura.

Depois de triunfarem na Guerra Civil, os republicanos também atingiram um ponto culminante, mas depressa cederam a um processo de lutas internas. Mais recentemente, os democratas esvaziaram-se como um dirigível com um furo, depois de Franklin D. Roosevelt.

Por outras palavras, há qualquer coisa nos partidos norte-americanos, uma espécie de botão de autodestruição sensível ao poder, alojado profundamente na sua maquinaria, que os impede de se tornarem demasiado grandes. À superfície, pode parecer que não é grande coisa. Faz tanto parte da história dos Estados Unidos que é dado como adquirido. Mas, pensando bem, o que nos ensinou o século XX sobre partidos que se tornam demasiado fortes? O facto de os partidos norte-americanos, no seu auge, se desfazerem em pedaços teria parecido uma bênção aos judeus da Alemanha nazi ou aos prisioneiros dos gulags na União Soviética.

© PÚBLICO/"The Washington Post"