sábado, agosto 14, 2004

Falta à Doutrina Kerry em perspectiva histórica o que lhe sobra em incoerência

Por ROBERT KAGAN
Sábado, 14 de Agosto de 2004

Um dia, quando as paixões suscitadas pelas eleições americanas sossegarem, os historiadores e os analistas da política externa dos Estados Unidos não deixarão de reparar numa notável passagem do discurso de aceitação da nomeação de Jonh Kerry: "Como Presidente - declarou Kerry - trarei de volta esta nação à sua honrosa tradição: os Estados Unidos nunca irão para a guerra por vontade própria, só iremos para a guerra quando formos obrigados a isso. Esse será a posicionamento da nossa nação." Esta declaração recebeu os mais calorosos aplausos dos congressistas democratas.

Por certo que, face a esta declaração, os historiadores diplomáticos devem ter pensado em suicidar-se por compreenderem que, afinal, não entendem nada do que são as tradições do país. E, provavelmente, até alguma opinião pública estrangeira entusiasmada com a possível vitória de Kerry em Novembro terá reflectido sobre o grau de politicamente correcto e de inocência exibido pelo candidato. De facto, quem para além de um político americano, perguntar-se-ão, poderia garantir que os Estados Unidos nunca foram para a guerra a não ser forçados a tal?

Na verdade, no último século e meio, os EUA enviaram tropas para combaterem em dezenas de situações a que a tal não eram obrigadas. Com a excepção das II Guerra Mundial e da intervenção no Afeganistão, em todas as outras intervenções é discutível se os Estados Unidos foram para guerra obrigados. Na verdade, não foram "obrigados" a enviar "marines" para Cuba, para o Haiti, para a República Dominicana, para o México ou para a Nicarágua nas primeiras três décadas do século XX e fizeram-no. Até mesmo a necessidade de intervirem na I Guerra Mundial ainda hoje é debatida pelos historiadores.

E que dizer da guerra em que o próprio Kerry combateu, a do Vietname? Será que defende que se inscreve na sua descrição da "honrosa tradição" da nossa nação? E todas as intervenções, realizadas durante a guerra fria, na Ásia, na América Latina e no Médio Oriente? E que dizer das guerras do pós-guerra fria? Em 1991 os Estados Unidos não estavam "obrigados" a expulsar Saddam Hussein do Kuwait - aliás, ninguém sabe isso melhor do que Kerry, que votou contra a primeira guerra do Golfo, apesar da sua aprovação unânime pelo Conselho de Segurança. Assim como não estavam "obrigados" a nenhuma das intervenções externas da Administração Clinton, nomeadamente no Haiti, na Bósnia e no Kosovo, tudo guerras que a América escolheu travar. Escolheu bem, nos três casos, mas não foram guerras que estivesse "obrigada" a fazer.

Sendo assim, porque será que Kerry invoca uma "tradição" americana que nunca existiu? Provavelmente porque pensa que distorcendo a história dos Estados Unidos pode atacar melhor a Administração Bush e a guerra do Iraque. Mas também pode acontecer que, no fundo, ele não estivesse a ser cínico ou ignorante, que estivesse antes a revelar o que ele realmente pensa que deve ser a política externa americana e não a explicar qual a sua "tradição".

De facto, a doutrina que enunciou era a doutrina defendida pelo movimento antiguerra e pela maioria do Partido Democrata após o desastre do Vietname. "Come home, América" era o grito dos que pensavam que os Estados Unidos se tinham simultaneamente corrompido a eles e ao mundo em "guerras de escolha". Os que defendiam esta doutrina propunham uma mudança radical: que a América abdicasse do seu poder e influência no mundo.

Não seria surpreendente que John Kerry, cuja vida e pensamento foram tão fortemente influenciados pela sua experiência no Vietname, regressasse agora ao que defendia há três décadas. E também não seria estranho que o verdadeiro acto de cinismo de Kerry tivesse sido o seu voto a favor da guerra do Iraque no final de 2002. Olhando retrospectivamente, talvez pense que vendeu a sua alma para se tornar "elegível", razão por que durante os longos meses que já leva esta campanha tudo está a fazer para surgir como um "falcão". Contudo, no fundo do coração, inspirado pelo que sempre defendeu ao longo da sua longa vida política, Kerry não é um "falcão".

Porém, as ironias abundam. Três décadas atrás, Kerry tornou-se conhecido pela sua militância contra a guerra do Vietname; agora apresenta de forma orgulhosa a sua participação nessa guerra para se distanciar "patrioticamente" da guerra do Iraque, que, no entanto, começou por apoiar.

Se realmente Kerry se revelou naquela frase, num momento de real sinceridade, então é altura de todos olharem honestamente para onde ele conduziria o país, caso fosse eleito. A "doutrina da necessidade" de Kerry, se entendida com seriedade, representaria um pacifismo e um isolacionismo como os Estados Unidos não conhecem desde a década de 30 do século XX. Excluiria todas as guerras travadas por motivos humanitários, todas as intervenções destinadas a prevenir genocídios, a defender democracias ou, como teria sido o caso do primeira guerra do Golfo, a repor a lei internacional contra os seus agressores. Porque todas essas guerras seriam "guerras de escolha".

Para alguém que disse que pretende estabelecer melhores relações com o resto do mundo, a doutrina Kerry resultaria numa política externa baseada em avaliações mesquinhas e egoístas dos interesses americanos bem para além do alegado "unilateralismo" da Administração Bush. Talvez fosse por isso altura de alguns europeus pensarem se querem que a política externa hiperambiciosa de Bush seja substituída por um recuo isolacionista. Depois de ouvirem o discurso de Kerry, talvez devessem começar a preocupar-se. Autor do livro "On Paradise and Power", sobre as diferenças entre a Europa e a América. Exclusivo PÚBLICO/"The Washington Post"