sábado, agosto 14, 2004

Dominicanos Terão Sobrevivido 12 Dias com carne humana e leite materno

Público, Sábado, 14 de Agosto de 2004

Resgatado na terça--feira, o grupo de imigrantes relata o horror vivido a bordo

Amamentaram-se com leite materno, beberam água do mar e alguns terão mesmo comido carne humana, num acto desesperado para salvar as suas vidas.

Os relatos de terror, citados pelo jornal espanhol "El Mundo", pertencem aos 36 dominicanos que sobreviveram 12 dias numa balsa à deriva, entre a República Dominicana e a ilha de Santo Domingo, na América Central.

Os sobreviventes integravam um grupo de cerca de 90 imigrantes dominicanos que a 29 de Julho se fizeram ao mar numa embarcação improvisada, com destino a Porto Rico. Dois dias depois da partida iniciou-se o pesadelo. A poucos quilómetros de Desecheo, uma ilhota já em território porto-riquenho, o motor avariou. E foi então que, segundo os testemunhos dos sobreviventes, o comandante decidiu subir para outro barco de imigrantes que passava ao largo, com a promessa de que regressaria com ajuda. Nunca voltou.

Sem motor e sem remos, a embarcação começou a afastar-se mar fora. Ao terceiro dia acabou-se a comida - chocolates, amendoins e sardinhas - e a água. Ao quinto dia, os mais velhos começaram a morrer. Os que iam sobrevivendo exigiam às mulheres, incluindo as que não estavam a amamentar, que lhes dessem o seu leite.

Já a salvo em várias hospitais, mas desidratados e queimados pelo sol e traumatizados pela experiência que viveram, os sobreviventes começaram a contar a agonia vivida a bordo.

"Ela dizia que já não podia mais, que tinha os seios secos, mas eles continuavam a comer", descreve Faustina Santana, 28 anos, mãe de uma criança de 18 meses e testemunha da morte de uma das outras mulheres que amamentou alguns dos passageiros. A mulher acabou por morrer com uma hemorragia e o seu corpo foi atirado ao mar, prossegue.

"Fiquei meio louco. Tantos dias sem comer, sem dormir. O pior era a sede. Não me lembro de muitas coisas", relata Ramón Payano, 40 anos, que viajava com uma sobrinha, em busca de um trabalho que lhe desse para comer e alimentar os seus quatro filhos. De Jesús conta que o seu objectivo era juntar-se ao marido. Pagou mais de 700 dólares pela viagem e deixou os dois filhos, de quatro e 10 anos, com a avó.

Há quem assegure - e também quem negue - que numa tentativa desesperada de sobrevivência se recorreu a canibalismo. Órgãos de comunicação locais relatam testemunhos nesse sentido. Os defuntos eram mordidos e o seu sangue servia para saciar a sede.

O barco foi resgatado por pescadores de Santo Domingo na terça-feira passada, perto de uma aldeia no norte do país . Quarenta pessoas continuam desaparecidas.